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Reforma Tributária deve elevar custos de obras em até 20%, diz estudo

Estudo da BSSP Consulting mostra que a reforma terá impacto desigual entre os elos da cadeia produtiva

Construção Civil: Na indústria de insumos como aço, cimento e cerâmica, o relatório projeta uma leve deflação tributária, com queda média de 4% devido à geração de créditos (Arctic-Images/Getty Images)

Construção Civil: Na indústria de insumos como aço, cimento e cerâmica, o relatório projeta uma leve deflação tributária, com queda média de 4% devido à geração de créditos (Arctic-Images/Getty Images)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 13 de janeiro de 2026 às 06h00.

A Reforma Tributária deve elevar custos de obras em até 20% a partir da regulamentação da Lei Complementar 214/2025, segundo estudo da BSSP Consulting, divulgado com exclusividade pela EXAME.

A análise aponta que os efeitos da mudança na cobrança de impostos sobre o consumo devem provocar uma das maiores reestruturações na cadeia produtiva da construção civil nas últimas décadas.

Coordenado por Liêda Amaral, consultora líder da BSSP, e pelos tributaristas Fábio Lira e Fábio Rodrigues, o relatório prevê impactos diretos nos custos líquidos e margens operacionais das empresas do setor , com variações que vão desde uma redução média de 4% em insumos industriais até aumentos de até 20% em custos finais de obras — especialmente nas companhias com menor integração de processos ou que dependem de contratação direta de mão de obra.

“A transição para um modelo de não cumulatividade, com substituição do PIS/Cofins por CBS e IBS, exige uma revisão completa da estrutura de precificação e fiscal das empresas”, afirma Liêda Amaral.

Segundo ela, o setor é altamente intensivo em serviços e mão de obra, o que o torna mais exposto a mudanças nas regras de tributação indireta.

Outro ponto destacado pela consultoria é a adoção da chamada tributação "por fora", em que os tributos deixam de ser embutidos no preço final e passam a ser destacados separadamente.

Isso, segundo o estudo, trará ganhos de transparência e eficiência, mas também aumentará a exposição dos custos tributários ao consumidor final .

Na indústria de insumos como aço, cimento e cerâmica, o relatório projeta uma leve deflação tributária, com queda média de 4% devido à geração de créditos.

Por outro lado, no caso da mão de obra, a estimativa é de alta entre 18% e 20% até 2029, com o fim do atual Regime Especial de Tributação (RET). Equipamentos e EPIs devem subir cerca de 2%, puxados pelo novo Imposto Seletivo (IS).

No varejo de materiais de construção, os efeitos variam conforme o tipo de produto: cerâmicas podem ficar até 25% mais baratas, enquanto plásticos devem encarecer em até 26%, e eletrônicos, 11%.

“O ponto crítico não é só o aumento ou redução de carga, mas sua redistribuição entre os elos. Empresas que não se prepararem para apuração e controle de créditos tributários perderão competitividade”, afirma Fábio Lira, consultor sênior da BSSP.

Setor reage à transição com incerteza e busca por reorganização fiscal

A construção civil representa cerca de 3% do PIB brasileiro e emprega diretamente 3 milhões de pessoas, segundo a Câmara Brasileira da Industria da Construção (CBIC).

O segmento de varejo de materiais responde por 15,2% do PIB da cadeia, movimentando R$ 580 bilhões por ano, de acordo com a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (ABRAMAT).

Para 2025, a Abramat estima crescimento de 2,8% para o setor. No entanto, a transição tributária que se estende até 2033, com a convivência de regimes antigos e novos, deve comprimir margens e exigir revisão profunda nos modelos de contrato e gestão fiscal.

“A Reforma traz uma promessa de simplificação, mas exige curva de aprendizado alta. A digitalização da governança tributária será essencial para manter contratos economicamente viáveis”, afirma Fábio Rodrigues, sócio da BSSP.

Zona Franca deve perder vantagem competitiva com tributação no destino

O estudo também aponta que os produtos da Zona Franca de Manaus (ZFM) devem perder parte de sua vantagem, mesmo com os incentivos mantidos até 2073. A adoção do princípio da tributação no destino reduz a atratividade do benefício fiscal para o consumidor final.

“Com a origem tributária deixando de ser determinante, o foco das empresas terá que ser eficiência logística e produtiva”, diz Liêda Amaral.

Para enfrentar o novo cenário, a consultora recomenda quatro medidas principais:

  • Revisar cláusulas contratuais com foco no equilíbrio econômico-financeiro;
  • Mapear e controlar digitalmente os créditos de IBS e CBS;
  • Reestruturar o mix de fornecedores, priorizando empresas fora do Simples Nacional;
  • Simular cenários operacionais e revisar margens e preços de venda.

A análise da BSSP reforça que a Reforma Tributária representa a maior transformação do sistema de consumo em mais de 50 anos. A transição, segundo os consultores, deve funcionar como um divisor de águas entre empresas preparadas e aquelas que ainda operam sob modelos antigos.

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