Desigualdade e alfabetização desafiam educação na pandemia da covid-19

Professores, alunos, pais e autoridades avaliam que covid-19 escancarou desigualdades e trará impactos, ainda desconhecidos, para as crianças do país

“Estou exausto e trabalhando facilmente cerca de 15 horas diárias. No ensino à distância não é só dar a aula. Você trabalha muito fora do seu horário; são muitas demandas novas o tempo todo”.

Essa rotina foi relatada à EXAME por um professor de gramática de uma escola particular na cidade de São Paulo, mas a sensação é compartilhada entre diferentes atores educacionais. Diante da pandemia do novo coronavírus, eles se viram obrigados a adaptar, em questão de dias, o modelo secular das escolas tradicionais.

No Brasil, o avanço da covid-19 forçou o fechamento das unidades de ensino já no início de março. A atividade foi uma das primeiras a serem suspensas, por conta da orientação das autoridades de saúde indicando a urgência do distanciamento social.

Segundo monitoramento da Unesco, agência da ONU para educação, 52 milhões de estudantes brasileiros ainda estão fora das salas de aulas. Com exceção das turmas mais infantis, a maioria, contudo, enfrenta os desafios do ensino remoto. Na avaliação de especialistas, a pandemia vai mudar para sempre o modelo educacional em todo o mundo.

Mas há motivos importantes que explicam por quê até hoje, mesmo com os avanços tecnológicos, a educação básica não migrou para o ambiente virtual. Para além da discussão sobre a qualidade das aulas presenciais, o ensino à distância tem limitações para garantir o aprendizado de crianças e jovens.

A falta de acesso universal à internet e a inexperiência de professores, alunos e pais com a educação virtual, principalmente para a fase de alfabetização, são dois dos principais desafios enfrentados.

“A escolha prioritária por plataformas digitais já tende a excluir camadas da sociedade. O que a rede privada pode fazer, o setor público não pode se dar ao luxo, mesmo com o intenso e dedicado esforço dos educadores. Essa crise escancara as desigualdades que já existem no sistema de ensino”, diz Ricardo Henriques, superintendente do Instituto Unibanco.

Um levantamento do Centro de Inovação para Educação Brasileira, feito com 21 estados e 3.000 municípios, revelou que 55% das redes estaduais e 60% das redes municipais não desenharam estratégias para garantir o acesso à conteúdos durante a quarentena.

Dos que adotaram medidas, há uma diversidade na distribuição de conteúdos, que vão desde plataformas online, vídeo-aulas e redes sociais até o uso da TV aberta e emissoras de rádio, entre outras.

“Dou aula para crianças na rede municipal e adultos na Escola de Adultos e Jovens. Todos têm dificuldades, seja pelas próprias famílias que são analfabetas ou pela falta de acesso à internet. Muitos não têm celular, e outros são idosos que não sabem mexer em nada”, relata a professora Catarina Lopes, que trabalha em Jundiaí, no estado de São Paulo.

Segundo ela, o WhatsApp foi a forma mais acessível que as escolas encontraram para passar pelo menos exercícios aos estudantes. Algumas, no entanto, precisaram comprar chips até para professores. “Esse mínimo de contato não vai ser perdido, mas não será possível exigir na volta à escola um avanço como se estivessem ficado nas salas de aula”, diz.

Cauê Vitorasso, de 17 anos, estuda em uma escola estadual de tempo integral em Guarulhos. Ele se prepara para prestar medicina por meio do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, e se esforça para tentar ter o mesmo desempenho nas aulas à distância que teria nas presenciais. “É cansativo e mais complicado de entender alguns conteúdos, mesmo com o suporte do professor, pois ele não está ali do seu lado”, conta.

Em sua casa, Cauê mora com mais seis pessoas, algo que desafia diariamente a sua concentração. “Preciso de fone e tentar ficar na mesa sem me distrair”. A pandemia, relata, trouxe um desequilíbrio tanto emocional quando acadêmico, mas ele tenta não ver o ensino à distância como um inimigo. “Muita gente não tem nem isso”.

Processo de alfabetização

Apesar da desigualdade educacional, há desafios em comum que escolas públicas e particulares estão enfrentando com a suspensão forçada das aulas. Crianças em idade de alfabetização é um deles.

“É importante lembrar que pai não é professor. Professor é uma profissão complexa, que demanda uma formação especializada. Hoje, vários pais estão se desdobrando e estão angustiados, porque todo o despreparo social para lidarmos com uma pandemia está dentro de casa”, diz Cláudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Mãe solo de uma criança de sete anos e responsável por uma importante área no seu trabalho, que consome grande parte de seu dia, Aline vive essa angústia desde o início da quarentena. Seu filho, estudante de uma escola particular da cidade de São Paulo, tem tido aulas por vídeo de uma hora duas vezes por semana. Diariamente, no entanto, há tarefas que ele precisa cumprir.

“É muito pouco tempo de aula para o tanto que ele precisa fazer. Diversos assuntos eu não sei explicar e precisei pedir para que a professora me ajudasse. Me preocupo com o processo de alfabetização dele. Sou separada, dispensei a babá, tenho que cuidar da casa, acompanhar aula online, fazer a lição, cuidar do meu filho e trabalhar diariamente”, conta.

João Marcelo Borges, diretor de estratégia política do Todos pela Educação, explica que o processo de alfabetização não encontra uma resposta única, já que cada criança precisa de um tipo de atividade e estímulo direcionado para avançar nesse processo. “Requer um nível de especialização que mesmo pais com boa escolaridade não têm”, diz.

O tamanho do impacto na alfabetização das crianças no Brasil, no entanto, só poderá ser medido nos próximos anos, explica o secretário de Educação do Maranhão, Felipe Camarões. Ele, que também é professor, relata estar focado no período pós-pandemia. “Nosso maior receio hoje não é a falta de avanço na educação, mas o retrocesso da aprendizagem”.

A rede estadual está disponibilizando aulas em diversos canais, como YouTube, TV aberta, rádio, podcast, Instagram, Facebook e WhatsApp, mas segundo dados coletados pela secretaria, durante a quarentena, 35% dos alunos não estão conseguindo acompanhar os conteúdos. 

Os próximos anos pós pandemia da covid-19 serão de transformações sociais importantes, e a área de educação deve ser uma das mais impactadas pelas mudanças. Há oportunidades importantes que podem ser aproveitadas para diminuir o abismo das desigualdades educacionais, e um bom ensino à distância pode ser uma delas.

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