Os presidentes Donald Trump e Lula, durante encontro em maio, na Casa Branca (Divulgação)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 30 de agosto de 2026 às 07h00.
A reunião ministerial entre a equipe do governo brasileiro e a dos Estados Unidos, prevista para a próxima segunda-feira, 31, é considerada por integrantes da gestão de Lula como uma espécie de novo pontapé inicial nas negociações do tarifaço imposto pelos EUA a exportações brasileiras. Reservadamente, porém, pessoas familiarizadas com as tratativas afirmam não esperar nenhuma resolução do encontro.
A reunião foi solicitada pelo lado americano após o telefonema de 21 de agosto entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Na ligação telefônica, realizada a pedido de Lula, o presidente brasileiro buscou restabelecer o diálogo com Trump como forma de isolar o que a diplomacia brasileira considera ser a ala mais ideológica do governo americano, pró-tarifaço, que seria comandada pelo secretário de Estado, Marco Rubio.
No telefonema, Trump sinalizou que pediria o restabelecimento das negociações. Em seguida, a equipe do representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, procurou o Ministério o Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços para acertar a reunião para o dia 31 de agosto. Vão participar do encontro, do lado americano, o próprio Greer e sua equipe, e, do brasileiro, o ministro Márcio Elias Rosa, seus assessores e diplomatas. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também pode participar do encontro.
Apesar de considerar importante a retomada do diálogo, integrantes do governo Lula afirmam reservadamente que será uma reunião "exploratória", sem qualquer decisão sobre o fim, ou mesmo o relaxamento, das tarifas aplicadas ao Brasil.
Do lado brasileiro, Márcio Elias deverá deixar claro que há espaço para negociação na área comercial, mas reiterar que considera infundada e sem base econômica a imposição de tarifas ao Brasil.
Há baixa expectativa, no governo brasileiro, sobre o avanço das tratativas no curtíssimo prazo. A reunião será a sexta entre o ministro Márcio Elias e Greer, e, nos encontros anteriores, os oficiais brasileiros consideraram que os americanos não levavam em consideração os argumentos do governo Lula.
A fundamentação do tarifaço, que levou em conta um inexistente aumento do desmatamento no Brasil e uma suposta prática de concorrência desleal representada pelo Pix e por meios de pagamento americanos, é citada como exemplo de fundamentos débeis que os oficiais americanos mantiveram ao longo de toda a investigação que resultou no tarifaço.
Um integrante do governo Lula diz ainda que a proximidade das eleições tende a ser uma barreira a qualquer entendimento imediato sobre o tarifaço, uma vez que a gestão de Donald Trump, sobretudo o Departamento de Estado, veem uma retirada das tarifas como benéfica à campanha de Lula à reeleição.
A equipe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) chegou a pedir ao governo brasileiro, em janeiro deste ano, durante as negociações sobre o tarifaço, que limitasse o acesso de "atores não orientados pelo mercado" às reservas nacionais de minerais críticos e terras raras. Integrantes do governo Lula interpretaram a proposta como uma tentativa de restringir a atuação da China, principal rival geopolítico dos EUA na disputa por esses recursos estratégicos, o que foi rechaçado.
Como a proposta foi recusada, o governo brasileiro espera que a nova conversa se circunscreva a temas comerciais relacionados ao tarifaço. As exportações brasileiras hoje têm duas tarifas diferentes: uma de 25% aplicada apenas ao país no marco de uma investigação na Seção 301 da Lei de Comércio americana, e outra, de 10%, aplicada ao Brasil e outras 59 economias, também no âmbito dessa lei, mas supostamente justificada pela compra de produtos produzidos com trabalho forçado. O Brasil considera ambas as tarifas abusivas, mas entende como mais factível concentrar esforços para derrubar a tarifa específica, de 25%,
Nas negociações prévias à aplicação do novo tarifaço, os americanos também pediram que o Brasil zerasse as tarifas sobre produtos industriais vindos dos EUA, sem oferecer nenhuma contrapartida, segundo pessoas familiarizadas com as tratativas.
Os americanos exigiram, por exemplo, que o Brasil zerasse as tarifas sobre as importações dos Estados Unidos a uma série de setores, entre os quais etanol, aviões e componentes aeroespaciais, todo o mercado automotivo, produtos químicos, máquinas e equipamentos elétricos.