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Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 17h46.
Depoimentos de estudantes insatisfeitos com a nota da redação do Enem 2025 se multiplicaram nas redes sociais. Os alunos afirmam que os resultados ficaram abaixo do desempenho obtido por eles em edições anteriores. A desconfiança aumentou após reportagem do G1, que teve acesso a documentos sigilosos, revelar a adoção de novos critérios de correção.
Segundo a matéria, as mudanças incluíram:
O Inep nega mudanças e garante que o processo seguiu as mesmas regras.
Diante do impasse, crescem as dúvidas. Para esclarecer o processo, a EXAME ouviu Amanda Angelozzi, mestre em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e professora de redação no CPV Grupo Educacional.
Para Angelozzi, se as mudanças nas competências avaliadas forem confirmadas, elas poderiam, de fato, ter impacto na queda das notas.
Isso porque alterariam parâmetros centrais da correção, tornando a avaliação mais rigorosa em pontos sensíveis da redação, como a construção da proposta de intervenção, o uso de repertório sociocultural e a articulação do texto. Além disso, o aluno poderia ter pontos descontados duas vezes pelo mesmo erro, mas em competências diferentes – algo que, via de regra, não ocorre no Enem.
“Também não sabemos como foram feitas as recomendações aos corretores, o que pode ter tornado a correção mais arbitrária e mais difícil de ser aplicada de forma uniforme”.
A redação do Enem é corrigida por dois avaliadores independentes, que atribuem notas de zero a 200 pontos em cada uma das cinco competências previstas no edital. A soma das pontuações resulta na nota final, que pode chegar a mil pontos. Quando há grande divergência entre as correções, o texto é encaminhado a um terceiro corretor, responsável por definir a nota final.
“Via de regra, há uma tolerância de dois a três desvios por competência”, explica a professora. Na prática, isso significa que o aluno pode cometer até três erros sem perder pontos, já que a pontuação é atribuída em faixas de 40 pontos, que vão de zero a 200.
Veja, abaixo, os cinco critérios avaliados.
Avalia o uso da língua portuguesa na modalidade escrita formal. Entram nessa conta a estrutura sintática, a concordância, a regência, a pontuação e a ortografia. Muitos desvios gramaticais ou erros recorrentes reduzem a nota, mesmo que o texto tenha boas ideias.
Verifica se o candidato compreendeu o tema proposto, respeitou o gênero dissertativo-argumentativo e utilizou repertório sociocultural pertinente. O corretor observa se referências históricas, sociais, culturais ou científicas são legítimas e bem relacionadas ao tema.
Analisa a organização das ideias e a consistência dos argumentos. Aqui, pesa a capacidade de defender um ponto de vista de forma clara, com progressão lógica, sem contradições e com desenvolvimento adequado ao longo do texto.
Nesse cenário, caso os documentos apurados pela reportagem do G1 se confirmem, o estudante que recorrer a um repertório considerado inadequado na competência 2 também poderia perder pontos na competência 3, de argumentação. Esse efeito ajudaria a explicar as notas mais baixas observadas entre os candidatos em comparação com edições anteriores do exame.
Avalia os mecanismos linguísticos que garantem a articulação do texto, como conectivos, pronomes e expressões que estabelecem relação entre frases e parágrafos. O uso inadequado, repetitivo ou insuficiente desses elementos pode comprometer a fluidez da argumentação.
Examina a solução apresentada para o problema discutido, desde que respeite os direitos humanos. A proposta deve conter cinco elementos: ação, agente, modo ou meio, efeito e detalhamento. A ausência de qualquer um desses componentes pode resultar em perda significativa de pontos.
Nesse possível novo modelo de avaliação, segundo o G1, o aluno poderia sofrer descontos ainda maiores na pontuação.
Para Angelozzi, é importante considerar que a queda nas notas não pode ser atribuída apenas a uma eventual mudança nos critérios de avaliação. Aspectos emocionais, como o nervosismo, também pesam no desempenho.
“É muito diferente de uma situação treinada em casa ou acompanhada pelo professor. O nervosismo do dia da prova é específico e interfere diretamente na escrita”, afirma.
A professora recomenda ainda cautela com o volume de informações que circula nas redes. “Há muitos professores e páginas que se aproveitam do interesse pelo tema para divulgar informações que não se confirmam”, diz. Segundo ela, esse excesso pode gerar ansiedade e desorientar os estudantes.
Angelozzi destaca que o foco do candidato deve permanecer nos critérios estruturais da redação: domínio da norma culta, argumentação consistente, repertório pertinente e clareza na proposta de intervenção.
“Mesmo diante de ajustes na correção, esses elementos continuam sendo centrais e orientam a avaliação”, defende.