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CNH sem autoescola: nova prova prática retira baliza e penaliza 'erros reais'

Governo publica manual que padroniza a prova prática da CNH e muda foco para erros reais no trânsito urbano

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 17h17.

O Brasil passa a ter, pela primeira vez, uma regra nacional clara e uniforme para a realização da prova prática de direção.

Com a publicação do novo Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular (MBEDV) no domingo, 1º, a baliza deixa de ser obrigatória e eliminatória, e o candidato será avaliado por sua conduta em vias públicas — não mais por manobras isoladas ou comandos chamados de artificiais.

O novo modelo, segundo a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), é fundamentado nos princípios da Visão Zero, estratégia internacional voltada à eliminação de mortes no trânsito, e no conceito de Sistemas Seguros.

A prioridade, segundo o governo, é reduzir riscos, estimular decisões conscientes e focar na interação com pedestres, ciclistas e outros veículos.

A avaliação agora pontua apenas infrações reais do Código de Trânsito Brasileiro, e o candidato é aprovado se somar até 10 pontos.

Faltas eliminatórias automáticas, como deixar o carro morrer, deixam de existir. Já erros como desrespeitar a faixa de pedestres ou não parar em cruzamentos passam a ter peso real.

Segundo Adrualdo Catão, secretário Nacional de Trânsito, a reforma visa “menos encenação e mais realidade”.

“O foco do exame se desloca para o que realmente importa: a condução em via pública, a leitura do trânsito, a tomada de decisões e a convivência com outros veículos e pedestres”, afirmou.

O que muda no exame prático da CNH

O novo manual publicado pela Senatran detalha como deve ser o exame prático de direção, que agora deve espelhar a circulação real nas ruas da cidade. Entre as principais mudanças:

  • Baliza: deixa de ser etapa principal e eliminatória. Agora é apenas o estacionamento final do percurso, feito sem tempo cronometrado e com manobras livres, desde que seguras.
  • Trajeto real e progressivo: o percurso deve começar com situações simples e avançar em complexidade. Deve incluir ao menos uma parada obrigatória, travessia de pedestres e conversões à direita e à esquerda.
  • Sem "pegadinhas": comandos ambíguos e armadilhas estão proibidos. Cada exame deve refletir o trânsito cotidiano da região, sem simulações artificiais.
  • Pontuação baseada na lei: infrações leves (1 ponto), médias (2), graves (4) e gravíssimas (6). Acima de 10 pontos, o candidato é reprovado.
  • Fim das reprovações automáticas: apenas comportamentos que constituem infrações de trânsito serão penalizados.
  • Reprovação e reteste: o primeiro reteste será gratuito. O examinador poderá interromper o exame caso identifique risco iminente, sem atribuição de nota.

Nova lógica do percurso e o fim das “pegadinhas”

A prova prática passará a acontecer em trajetos representativos da realidade de cada cidade, com evolução de complexidade ao longo do percurso. A ambientação do condutor ocorrerá nas primeiras situações e os desafios mais exigentes ficarão para a segunda metade.

O roteiro deverá incluir obrigatoriamente:

  • Uma parada obrigatória sinalizada
  • Uma travessia por faixa de pedestres
  • Conversões à direita e à esquerda

Também é fortemente recomendado que haja:

  • Interação com ciclistas
  • Cruzamentos
  • Rotatórias

Por outro lado, estão vetados elementos que possam representar risco ou criar dificuldade artificial. Isso inclui:

  • Vias de trânsito rápido, rodovias, túneis e pontes
  • Travessias ferroviárias
  • Estacionamentos em curva ou locais proibidos por sinalização
  • Ruas sem saída que obriguem manobras de retorno não naturais
  • Áreas de carga e descarga com alto fluxo de caminhões
  • Trechos com obras, desvios ou sinalização temporária instável

É proibido criar armadilhas, "pegadinhas" ou comandos ambíguos para induzir o erro. O objetivo, segundo o manual, é avaliar de forma justa, segura e condizente com o trânsito cotidiano.

Fim da baliza

A manobra de estacionamento, anteriormente eliminatória, agora será integrada ao percurso de forma natural, segundo o manual. Não haverá cronômetro, e o candidato poderá fazer ajustes, incluindo o uso da marcha à ré, desde que preserve a segurança.

A vaga terá o tamanho do veículo somado a 50% de sua dimensão, o que exclui exigências de extrema precisão. Manobras de alto nível de dificuldade cognitiva, como balizas apertadas, também estão proibidas.

O novo modelo aproxima o exame da vida real e busca um condutor mais consciente dos riscos — e não apenas treinado para passar em uma prova.

Prova com carro automático é permitida

A Senatran confirmou que o candidato pode usar veículos automáticos no exame prático, desde que segundo as normas de trânsito. Também não há diferenças na aplicação do teste em estados diferentes: todas as unidades da federação devem seguir as mesmas regras, embora os trajetos variem conforme o desenho urbano local.

Medidas contra Detrans que descumprirem as regras

O novo manual tem força normativa nacional. Caso um Detran desrespeite as diretrizes, o CTB prevê sanções administrativas, sindicância e, em último caso, intervenção no órgão, com substituição da presidência mediante aprovação do Contran.

Novo modelo visa reduzir número de condutores informais

Segundo o Ministério dos Transportes, as mudanças visam tornar o processo mais justo, menos burocrático e mais acessível. O formato anterior era considerado punitivo e descolado da realidade, contribuindo para o alto número de motoristas não habilitados no país.

Com o novo exame, o governo espera formar condutores mais conscientes e preparados para o trânsito real, além de reforçar o papel da prova como instrumento de segurança viária — e não de exclusão.

Acompanhe tudo sobre:Carteira de habilitação (CNH)Ministério dos Transportes

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