Frango: para o frango será criada uma cota de 30 mil toneladas livres de tarifa já em 2026, com aumentos anuais até atingir 180 mil toneladas em 2031 (Leandro Fonseca /Exame)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 06h01.
Última atualização em 14 de janeiro de 2026 às 09h12.
O aguardado acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, com assinatura prevista para o próximo sábado, 17, deve trazer benefícios pontuais para cadeias específicas do agronegócio brasileiro — mas com efeitos limitados no curto prazo. É o que aponta um relatório do BTG Pactual, divulgado nesta terça-feira, 12.
Na avaliação do banco, embora o tratado — que levou mais de 25 anos para ser negociado — preveja a eliminação de tarifas em até 91% do comércio bilateral e estabeleça cotas para produtos como carne, etanol, arroz e açúcar, os impactos devem ser “graduais, restritos e concentrados em nichos”, afirmam os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla.
“Empresas como JBS, São Martinho, Minerva e Camil devem capturar ganhos marginais no médio prazo, mas o efeito disruptivo ainda está distante”, afirmam os analistas.
Na semana passada, os países da União Europeia formalizaram apoio majoritário ao tratado de livre comércio com o Mercosul — bloco composto por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Após a assinatura, o texto ainda precisará ser ratificado pelo Parlamento Europeu para entrar em vigor.
Em 2025, a União Europeia foi destino de 15% das exportações do agronegócio brasileiro. Com o acordo, esse volume pode aumentar, mas sem saltos imediatos, segundo o BTG.
Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) projeta que o acordo pode gerar um crescimento de 2% na produção agropecuária brasileira, o que representaria um acréscimo de US$ 11 bilhões por ano.
Entre os setores analisados, o de proteína animal aparece com potencial moderado de ganhos. Para o frango será criada uma cota de 30 mil toneladas livres de tarifa já em 2026, com aumentos anuais até atingir 180 mil toneladas em 2031.
Responsável por cerca de 90% da produção de frango do Mercosul, o Brasil tende a absorver a maior parte dessa cota.
Segundo projeções da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a produção brasileira de carne de frango deve crescer até 2% em 2026, alcançando 15,6 milhões de toneladas.
Ainda assim, mesmo no volume máximo, a cota representa apenas 0,2% da produção nacional. “É positivo pelo mix, não pelo volume”, diz o relatório, lembrando que os preços pagos pela UE são, em média, 60% mais altos do que os praticados em outros mercados.
Para a carne bovina, a cota inicial será de 16,5 mil toneladas com tarifa de 7,5%, subindo progressivamente até 99 mil toneladas em 2031. Fora desse limite, os embarques continuarão sujeitos a tarifas próximas de 40%, o que limita o incentivo para exportações adicionais.
No ano passado, a UE ficou em terceiro lugar como destino das exportações de carne do Brasil, com 129 mil toneladas importadas e US$ 1,06 bilhão em receita — um avanço de 56,6% em volume e 75,5% em valor.
“O acordo cria um canal premium, mas de alcance restrito”, dizem os analistas.
No caso da carne suína, a cota prevista é de 25 mil toneladas até 2031, volume que representa apenas 1,4% das exportações brasileiras atuais.
Na avaliação do BTG, o etanol é um dos produtos brasileiros que devem se beneficiar com o acordo entre Mercosul e União Europeia. O tratado prevê uma cota de 650 mil toneladas, das quais 450 mil são destinadas à indústria química e estarão livres de tarifa.
Esse volume representa 48,9% das exportações brasileiras de etanol em 2025. O banco pondera, no entanto, que o setor ainda depende fortemente do mercado interno e não deve ampliar os volumes exportáveis de forma abrupta.
No caso do café, que respondeu por 47% das exportações agrícolas brasileiras para a UE em 2025, o acordo prevê a eliminação gradual da tarifa de 7,5% ao longo de quatro anos, sem imposição de cotas.
“O produto mais competitivo do agro brasileiro se tornará ainda mais atrativo no mercado europeu”, afirma o relatório.
Para o arroz, o tratado estabelece uma cota isenta de tarifas de 60 mil toneladas, o dobro do que o Brasil exportou ao bloco em 2025. Empresas como a Camil, que também operam no Uruguai e no Paraguai, podem ser diretamente favorecidas.
No setor de grãos, os efeitos tendem a ser limitados. Soja e farelo já são isentos de tarifas, e o milho terá uma cota de 1 milhão de toneladas até 2031 — volume inferior ao que o Brasil já exporta atualmente para a UE. “O acordo pouco altera o status dos grãos nas trocas com a Europa”, avalia o BTG.
Para o banco, o acordo Mercosul-UE é bem-vindo, mas deve ser interpretado com cautela. “É um passo importante, mas longe de ser um divisor de águas para o agro”, escrevem os analistas.
Entre os fatores que limitam o impacto estão a implementação lenta, o volume modesto das cotas e cláusulas de salvaguarda que permitem à União Europeia suspender os benefícios caso identifique riscos aos seus produtores locais.
Mesmo após a aprovação do acordo, agricultores europeus continuam protestando contra o tratado.