Super Bowl nos EUA: consumo de asas de frango nos EUA deve crescer 10 milhões na edição deste ano (Kevin Sabitus/Getty Images)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 8 de fevereiro de 2026 às 08h08.
Neste domingo, 8, de Super Bowl, milhões de americanos não estarão apenas torcendo por seus times: estarão também reunidos em torno de mesas fartas, recheadas com comidas típicas do evento — como asas de frango, queijo, batatas, pizza, guacamole e chips.
Um dos símbolos mais emblemáticos do evento são as asas de frango. O National Chicken Council (NCC) projeta que os americanos consumirão 1,48 bilhão de unidades durante os jogos — cerca de 10 milhões a mais do que em 2025. Segundo a entidade, esse volume seria suficiente para dar quase três voltas ao redor da Terra, o equivalente a três pilhas de asas na linha do Equador.
Mas por trás da abundância, existe outro lado: a de produtores rurais lidando com margens apertadas e custos em alta. O alerta vem da American Farm Bureau Federation (AFBF), uma das mais antigas entidades agrícolas dos Estados Unidos. E os dados reforçam essa perspectiva.
“O que vai à mesa no Super Bowl é só a ponta do iceberg. Por trás de cada alimento estão milhares de produtores lidando com desafios econômicos que não param no apito final do jogo", afirma a AFBF em relatório.
Uma pesquisa do Federal Reserve (Fed) mostra que os empréstimos agrícolas cresceram 40% no último trimestre de 2025. Além disso, o valor médio desses financiamentos foi 30% maior do que no ano anterior — o que indica que os produtores estão tomando empréstimos maiores para cobrir custos operacionais, segundo o banco americano.
O sentimento no campo também piorou. Segundo pesquisa da Universidade Purdue em parceria com o CME Group, a proporção de agricultores que esperam enfrentar dificuldades financeiras no próximo ano subiu de 47% em dezembro para 59% em janeiro.
Nesta semana, o presidente da Comissão de Agricultura do Senado americano afirmou que os produtores rurais do país estão enfrentando grandes prejuízos.
Além disso, líderes do setor alertaram sobre o risco de um “colapso generalizado da agricultura americana”, provocado pela escalada nos preços dos insumos e pela guerra tarifária liderada pelo presidente dos EUA, Donald Trump.
Nem mesmo o pacote de US$ 12 bilhões anunciado em 2025 pelo governo republicano deve aliviar os custos para os produtores.
"Esse apoio servirá como uma tábua de salvação para aqueles que estão simplesmente tentando chegar ao próximo ano. Mas é apenas uma tábua de salvação, não uma solução a longo prazo", afirmou à Reuters, Mike Stranz, vice-presidente de defesa de interesses da National Farmers Union, quando Trump anunciou o pacote.
Os produtores de frango nos EUA, que fornecem as asas de frango para o Super Bowl, são um grupo em dificuldades nos EUA. A produção está concentrada no Sudeste e no Meio-Oeste dos EUA, com estados como Geórgia, Alabama e Arkansas liderando o setor. Em 2024, o faturamento da avicultura americana chegou a US$ 45,4 bilhões.
No entanto, mesmo com a explosão da demanda durante o evento, os avicultores operam em um sistema altamente concentrado e baseado em contratos, diz a AFBF.
A maioria dos produtores não é proprietária dos frangos que cria e recebe um valor fixo pelo serviço, sem participação nas variações de preço do mercado. Enquanto isso, os custos ficam por conta dos agricultores, afirma a entidade.
“Muitos investem mais de US$ 1 milhão em galpões e equipamentos especializados e ainda arcam com despesas contínuas de energia, mão de obra e sanidade animal”, diz um relatório da AFBF. Com isso, mesmo em uma das datas de maior consumo do ano, os ganhos não chegam de forma proporcional às fazendas.
Em meio a esse cenário, desde meados de 2020, os produtores enfrentam surtos de gripe aviária, o que levou o governo americano a abater mais de 100 milhões de galinhas.
O cenário também é desafiador para o setor de milho nos Estados Unidos. O país, aliás, é o maior produtor mundial do grão. Para a safra 2025/26, a produção deve alcançar 432 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
Os chips consumidos no Super Bowl são feitos a partir do milho tipo dent, o mais cultivado no país. Em 2026, os agricultores devem plantar cerca de 36,4 milhões de hectares, com destaque para os estados de Iowa, Illinois e Nebraska.
Apesar do protagonismo no evento, apenas uma pequena fração dessa produção é destinada diretamente à fabricação de salgadinhos. A maioria do milho é utilizada como ração animal (40%), na produção de etanol (33%) e para exportação (18%).
O problema é que, segundo projeções da AFBF, os produtores devem registrar um prejuízo médio de US$ 427 por hectare em 2026.
Entre 2023 e 2026, as perdas acumuladas podem ultrapassar US$ 49 bilhões — mesmo com os repasses de programas federais de apoio ao setor. Em outras palavras: o milho que abastece chips, combustíveis e carne está sendo cultivado com prejuízo, projeta a entidade.
Além dos chips, a pizza, outro grande símbolo do Super Bowl, começa com o trigo. A farinha da massa, assim como a dos biscoitos servidos durante o evento, vem principalmente de lavouras em Dakota do Norte, Kansas e Montana.
Cerca de metade da produção de trigo nos EUA é exportada, o que torna os preços internos fortemente dependentes do mercado internacional.
Mas mesmo com a demanda relativamente estável, os produtores também enfrentam prejuízos. A estimativa é de perda média de US$ 336 por hectare em 2026. No acumulado de 2023 a 2026, as perdas podem somar US$ 20 bilhões, estima a AFBF.
“Mesmo com a ajuda do governo, os produtores ainda operam no vermelho”, aponta o relatório.