EXAME Agro

Por que o pênis bovino virou aposta do Mato Grosso para ampliar exportações

Em 2025, o estado respondeu por 23,1% de todo o volume de carne bovina exportado pelo Brasil

Boi sendo alimentado: Mato Grosso tem mais gado do que habitantes: são 32 milhões de cabeças, ante uma população de 3,8 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Boi sendo alimentado: Mato Grosso tem mais gado do que habitantes: são 32 milhões de cabeças, ante uma população de 3,8 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 17 de fevereiro de 2026 às 07h00.

Mato Grosso, um dos principais estados agrícolas do Brasil, tem ampliado sua estratégia no mercado externo ao apostar não apenas nos cortes nobres, mas também em subprodutos com alto valor agregado. Entre eles está o pênis bovino — conhecido como vergalho, que faz parte das miudezas do boi — e vem ganhando espaço sobretudo em mercados asiáticos.

A diversificação reforça o aproveitamento integral do animal e amplia a rentabilidade da cadeia pecuária, afirma Bruno de Jesus Andrade, diretor de Projetos do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac).

“A capacidade de acessar diferentes mercados, inclusive para subprodutos, mostra o nível de organização da cadeia produtiva e o potencial do estado em agregar valor em todas as etapas”, diz.

Em 2025, as exportações das miudezas do Mato Grosso cresceram 23% em relação a 2024, atingindo 36.643 mil toneladas, segundo dados da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo).

Mato Grosso tem mais gado do que habitantes: são 32 milhões de cabeças, ante uma população de 3,8 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número coloca o estado como detentor do maior rebanho bovino do país. No total, o Brasil soma 238 milhões de cabeças.

Em 2025, o estado respondeu por 23,1% de todo o volume de carne bovina exportado pelo Brasil, com 978,4 mil toneladas embarcadas para 92 países.

No mercado interno, o vergalho bovino é comercializado a um preço médio de R$ 21 o quilo. Já no exterior, especialmente em Hong Kong, a tonelada pode alcançar US$ 6 mil. O produto é exportado in natura e segue rigorosos protocolos sanitários.

A demanda é sustentada por hábitos alimentares de países asiáticos, onde há tradição no consumo integral do animal.

Nessas regiões, o vergalho é utilizado em preparações cozidas, ensopadas e pratos típicos, sendo valorizado pela textura e pela capacidade de absorver temperos e caldos — assim como outros miúdos e partes menos convencionais para o paladar ocidental.

Carne bovina

Para Bruno de Jesus Andrade, do Imac, a estratégia também reduz riscos ao diversificar destinos e perfis de consumo. Além disso, o diferencial da indústria está no aproveitamento integral do animal.

“Quando falamos em exportação de carne, muita gente pensa apenas nos cortes nobres, mas cada parte tem valor, mercado e função, o que torna a cadeia mais eficiente, competitiva e sustentável”, diz.

Segundo ele, os cortes nobres continuam com presença consolidada em mercados exigentes, como a União Europeia, abastecendo restaurantes, varejo premium e o food service, impulsionados por padrões sanitários rigorosos e padronização de qualidade.

Já os cortes do dianteiro e industriais, como acém e paleta, têm papel estratégico na segurança alimentar e no processamento, exportados para países como China, Indonésia, Egito, Chile e Filipinas.

O aproveitamento vai além da carne. Miúdos como fígado, língua, coração, rim, bucho e rabada são valorizados em mercados como Hong Kong, Vietnã, Nigéria, Costa do Marfim e Peru, onde integram a culinária tradicional.

Em alguns desses destinos, a demanda por miúdos supera a procura por cortes considerados nobres no Brasil.

Acompanhe tudo sobre:Mato GrossoCarne bovinaExportações

Mais de EXAME Agro

'A incerteza é o novo normal', diz CEO da Czarnikow, trading de commodities

Governo — e o agro — embarcam para a Ásia para vender feijão, carne e DDGS

Jalles Machado, de açúcar e etanol, depende do campo para virada, diz BTG

O que é a praga do México que avança sobre a carne bovina dos EUA