O Valor Bruto da Produção (VBP) do agronegócio brasileiro deve atingir R$ 1,5 trilhão em 2025, alta de 11,7% em relação a 2024, segundo estimativas da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O número reforça o peso de um setor que se consolidou como um dos pilares da economia nacional — conceito que, décadas atrás, foi estruturado por Ray A. Goldberg, que morreu na última semana.
Docente por mais de sete décadas na Harvard Business School e também na Harvard Kennedy School, Goldberg foi um dos principais formuladores da ideia que transformou a forma de compreender a atividade agrícola.
Nos anos 1950, ao lado do economista John H. Davis, cunhou o termo agribusiness (agronegócio), rompendo com a visão tradicional que restringia o campo à produção primária.
A partir de então, passou a defender que a agricultura deveria ser entendida como uma cadeia integrada, que envolve insumos, produção, processamento, logística, distribuição, varejo e consumo.
O conceito ganhou força globalmente e passou a orientar políticas públicas, estratégias empresariais e programas acadêmicos. Em países como o Brasil, tornou-se a base conceitual de um setor que hoje movimenta trilhões de reais por ano.
Goldberg costumava afirmar que “a comida é o denominador comum que conecta empresas, governo, ciência e consumidores”, sintetizando sua visão de integração entre mercado, Estado e sociedade.
Natural de Fargo, na Dakota do Norte, um dos principais estados produtores de trigo nos Estados Unidos, cresceu em meio ao negócio de grãos da família.
Formou-se em Artes pela Harvard University em 1948, obteve MBA em 1950 e, dois anos depois, concluiu doutorado em Economia Agrícola pela Universidade de Minnesota.
Em 1955, criou com Davis o programa de agronegócios da Harvard Business School, onde introduziu o primeiro curso dedicado ao tema.
Ao longo da carreira, foi autor ou editor de 23 livros, publicou mais de 100 artigos acadêmicos e desenvolveu centenas de estudos de caso para a Harvard Business School.
Sua pesquisa enfatizou a antecipação de mudanças e a compreensão das instituições como parte de um ecossistema mais amplo. Em 2020, Harvard criou a Cátedra Ray A. Goldberg do Sistema Alimentar Global, em reconhecimento ao alcance interdisciplinar de sua obra.
O papel do agro
Entre 1970 e 1997, ocupou a cátedra George M. Moffett de Agricultura e Negócios. Na Harvard Kennedy School, ministrou o curso de Política Alimentar e Agronegócio e liderou seminários sobre os impactos das mudanças climáticas no sistema alimentar global.
“Ray acreditava que o sistema alimentar funciona melhor quando fornecedores e varejistas entendem os desafios uns dos outros e colaboram para reduzir custos em todo o sistema”, afirmou David Bell, professor emérito de Agricultura e Negócios, em entrevista à Universidade de Harvard.
Segundo ele, Goldberg via a alimentação como um serviço público essencial, sujeito ao escrutínio da sociedade, e estimulava o aprendizado mútuo entre empresas, governos e organizações.
Goldberg também atuou como conselheiro de governos, empresas e organismos internacionais, incluindo o Banco Mundial, e participou de fóruns estratégicos sobre desenvolvimento agrícola e mercados globais.
Recebeu homenagens internacionais, entre elas o título de professor honorário da Royal Agricultural University, no Reino Unido.
Sua influência marcou gerações de lideranças do setor. No Brasil, inspirou nomes como Marcos Fava Neves, Ney Bittencourt de Araújo, Ivan Wedekin e Decio Zylbersztajn. Seu legado ultrapassou fronteiras e consolidou seu reconhecimento como um dos “pais” do agronegócio moderno.
Goldberg faleceu em 18 de fevereiro. Ele deixa sua companheira, Joan; seus três filhos e respectivos cônjuges; seis netos; nove bisnetos; e uma extensa comunidade global de ex-alunos, colegas e colaboradores.
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