EXAME Agro

O agro está no limite — e a culpa é do calor: o alerta da ONU para o setor

Relatório da FAO e OMM detalha como altas temperaturas afetam lavouras, pecuária e trabalho rural

Plantação de soja: A perda de produtividade agrícola já é sentida nas principais culturas. Em média global, as produtividades caem 7,5% no milho, 6,0% no trigo, 6,8% na soja e 1,2% no arroz a cada 1°C de aquecimento, diz pesquisa. (Freepik)

Plantação de soja: A perda de produtividade agrícola já é sentida nas principais culturas. Em média global, as produtividades caem 7,5% no milho, 6,0% no trigo, 6,8% na soja e 1,2% no arroz a cada 1°C de aquecimento, diz pesquisa. (Freepik)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 22 de abril de 2026 às 16h17.

O avanço do calor extremo está levando os sistemas agroalimentares ao limite e ampliando riscos para mais de um bilhão de pessoas no mundo. É o que aponta um relatório conjunto da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado nesta quarta-feira, 22, que alerta para os efeitos crescentes das altas temperaturas sobre a produção de alimentos e os meios de subsistência.

Segundo o relatório, o calor atua como um multiplicador de riscos sistêmicos e tem intensificado secas, incêndios florestais e surtos de pragas, além de comprometer diretamente a produção agrícola.

“As ondas de calor estão se tornando mais frequentes, intensas e prolongadas, causando danos às plantações, ao gado, à pesca e às florestas”, afirma o relatório.

E o Brasil está inserido nesse contexto. Segundo o documento, no país, os efeitos do calor extremo já se traduzem em perdas concretas na produção agrícola e em eventos climáticos cada vez mais severos.

Segundo o relatório, a projeção inicial para a safra de soja era de 162 milhões de toneladas, mas foi revisada para 147,7 milhões até maio de 2024 — uma queda de quase 10%. Em estados como São Paulo, as perdas foram ainda mais expressivas, superando 20% na soja e 10% no milho da primeira safra.

A análise mostra que, no auge do evento climático, as temperaturas máximas diárias ficaram mais de 5°C acima da média em algumas regiões por meses consecutivos. O calor prolongado agravou a seca agrícola e elevou o risco de incêndios no país.

No Centro-Oeste, principal região agrícola do Brasil, o impacto foi direto sobre o risco de fogo. O percentual de dias acima do limiar crítico subiu até 40 pontos percentuais — o equivalente a cerca de 150 dias a mais em relação à climatologia de referência.

No Sul, o cenário foi marcado por outro extremo climático. No Rio Grande do Sul, uma sequência de eventos climáticos intensos ampliou os danos à produção.

Entre abril e maio de 2024, durante as enchentes históricas, os volumes de chuva ultrapassaram 500 mm em muitas áreas e chegaram a mais de 700 mm em alguns municípios.

Nesse contexto, a produtividade do arroz caiu 3,6%, enquanto até 2 milhões de toneladas de soja que ainda não haviam sido colhidas foram destruídas. O impacto econômico também foi significativo: o documento aponta perdas agrícolas de R$ 1,2 bilhão e danos severos em cerca de 600 mil hectares de pastagens no estado.

A perda de produtividade agrícola já é sentida nas principais culturas. Em média global, as produtividades caem 7,5% no milho, 6,0% no trigo, 6,8% na soja e 1,2% no arroz a cada 1°C de aquecimento, segundo os dados da pesquisa.

Nas projeções para os próximos anos, milho e trigo podem perder de 4% a 10% para cada 1°C adicional de aquecimento.

Os impactos se estendem à pecuária, com efeitos diretos sobre mortalidade e produtividade. Em cenários de calor extremo, a mortalidade de bovinos pode chegar a 24% do rebanho.

Na cadeia do leite, o impacto já é global. Em vacas leiteiras, há uma perda de produção anual de 1% por estresse térmico e uma queda de 0,5% na produção diária para cada hora de exposição a temperaturas acima de 26°C.

“O calor extremo já é responsável pela perda de cerca de 1% da produção leiteira mundial”, além de afetar a qualidade do produto, com implicações econômicas relevantes.

Trabalho no agro

O impacto mais crítico, no entanto, recai sobre os trabalhadores rurais. O relatório alerta que o aumento das temperaturas está tornando o trabalho no campo cada vez mais perigoso e, em alguns casos, inviável por longos períodos do ano.

“Os dias por ano muito quentes para o trabalho rural podem chegar a 250 no sul da Ásia, na África Subsaariana e partes da América do Sul e Central”, aponta o estudo. Isso significa que, em determinadas regiões, trabalhadores podem enfrentar condições inseguras durante a maior parte do ano.

Além do risco imediato de exaustão térmica e desidratação, o calor prolongado reduz a capacidade física e a produtividade da mão de obra. Segundo o relatório, o estresse térmico limita o tempo seguro de trabalho ao ar livre, afetando diretamente a renda de famílias que dependem da atividade agrícola.

O calor extremo também amplia desigualdades sociais no campo, já que pequenos produtores e trabalhadores informais têm menos acesso a proteção, tecnologia e infraestrutura para mitigar os impactos.

O estudo ainda destaca que a combinação de calor intenso com alta umidade agrava os riscos à saúde, elevando a probabilidade de doenças relacionadas ao calor e acidentes de trabalho.

Além disso, os efeitos indiretos intensificam o problema. O aumento do estresse hídrico e das secas repentinas reduz a disponibilidade de água, afetando tanto a produção quanto as condições de vida no campo.

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