A recuperação da Jalles Machado, produtora de açúcar e etanol, passa menos pela usina e mais pelo canavial. O diagnóstico é do BTG. “O que, em última instância, determina a alavancagem operacional nesse negócio não é a usina, mas o canavial”, afirmam Thiago Duarte e Guilherme Gutilla, em relatório desta sexta-feira, 13.
A avaliação coloca a produtividade agrícola — especialmente na unidade de Santa Vitória — como o principal vetor de virada para a companhia.
O alerta ganha peso após um trimestre pressionado. A empresa encerrou o terceiro trimestre da safra 2025/26 com EBIT ajustado de R$ 63 milhões, queda de 31% na comparação anual.
No relatório, os analistas afirmam que “a safra foi ainda mais fraca do que o esperado inicialmente”, ainda que as condições climáticas recentes indiquem melhora para o próximo ciclo.
O lucro líquido no período foi de R$ 55 milhões, enquanto os investimentos somaram R$ 329 milhões, alta de 17% na comparação anual.
Mesmo com a pressão operacional, a companhia manteve alavancagem considerada confortável, em 1,2 vez a relação dívida líquida/Ebitda. Ainda assim, o banco pondera que “até que surjam sinais mais claros de recuperação da produtividade, é difícil imaginar uma mudança relevante de percepção”.
A fraqueza no campo também se refletiu na comercialização. As vendas de TRS — indicador que mede a quantidade total de açúcares contidos na cana-de-açúcar — recuaram 26%, e as de açúcar caíram 39%, impactadas pela menor produção e pela estratégia de monetizar parte do volume na entressafra.
Do total de 987 mil toneladas de TRS produzidas no ciclo, 768 mil toneladas — o equivalente a 78% — já foram comercializadas.
Mantido o EBIT por tonelada, o banco estima que o volume restante pode gerar aproximadamente R$ 56 milhões adicionais no último trimestre da safra, levando o EBIT anual para cerca de R$ 290 milhões, queda de 18% frente ao ciclo anterior.
Se o desempenho agrícola trouxe pressão, a estratégia comercial ofereceu proteção relevante para o próximo ciclo.
Cerca de 75% da produção esperada da próxima safra está protegida por hedge, a um preço médio de R$ 2.475 por tonelada — 56% acima do preço à vista.
Em um ambiente em que o açúcar negocia abaixo do custo unitário para parte do setor, o relatório afirma que “a Jalles se destaca nesse aspecto” e que os contratos firmados “devem reduzir de forma relevante o impacto do cenário adverso e aumentar a previsibilidade”.
Papéis da Jalles
O setor sucroenergético enfrenta, ao mesmo tempo, queda de produtividade e deterioração das cotações internacionais do açúcar. Nesse cenário, a previsibilidade comercial passa a ter papel central na tese de investimento.
O BTG mantém recomendação de compra para a ação, com preço-alvo de R$ 6,00, ante cotação de R$ 2,87 na data do relatório — o que implica potencial de valorização de 109%. Considerando dividendos, o retorno estimado pode chegar a 124% em 12 meses.
Segundo as projeções do banco, a companhia deve encerrar 2025 com receita de R$ 2.338 milhões e Ebitda de R$ 1.409 milhões. A dívida líquida estimada é de R$ 3.307 milhões, o equivalente a 2,3 vezes o Ebitda.
Entre os principais riscos apontados estão a dependência das condições climáticas, a volatilidade dos preços internacionais do açúcar, a sensibilidade ao preço doméstico da gasolina — que afeta a competitividade do etanol — e o ambiente competitivo fragmentado.
Na avaliação do BTG, a Jalles inicia a próxima safra com proteção comercial relevante, mas a confirmação da tese de valorização dependerá, sobretudo, da recuperação da produtividade no campo.