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Biocombustível passou a atrair mais atenção na Europa, diz CEO da Bayer

Marcio Santos aponta que conflitos como a guerra do Irã aumentaram o interesse no tema

Márcio Santos, CEO da Bayer no Brasil, na feira Hannover Messe (Divulgação)

Márcio Santos, CEO da Bayer no Brasil, na feira Hannover Messe (Divulgação)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de internacional e economia

Publicado em 28 de abril de 2026 às 10h00.

Hanover - Em meio à crise no mercado de petróleo gerada pela guerra no Irã, a Europa passou a se interessar mais pelos biocombustíveis, diz Márcio Santos, CEO da Bayer no Brasil

"Ninguém gosta destes conflitos, mas eles trazem uma conscientização, para um nível diferente, de que a gente precisa ter fontes alternativas de energia", disse Santos à EXAME durante a feira Hannover Messe, na Alemanha.

"O que se falou em biocombustível nesse evento é muito mais do que você falou em todos os outros somados", afirmou.

"O Brasil é uma solução viável para a descarbonização do transporte através de combustível sustentável. Dez anos atrás, a produção de etanol à base de milho no Brasil era de perto de zero. No último ano, foram mais de 6 bilhões de litros. Esse crescimento abre oportunidades para a indústria, gera emprego no interior, serviços de transporte e movimenta a economia brasileira", afirma.

Veja a seguir mais trechos da entrevista.

Quais são os principais destaques que a Bayer trouxe para a Hannover Messe?

O nosso papel aqui é mostrar primeiro a sustentabilidade do agronegócio. Todos nós que estamos aqui ouvimos falar imensamente de biocombustíveis. O Brasil é uma solução viável para a descarbonização do transporte através de combustível sustentável.

Mas isso não nasce num litro de biodiesel nem de etanol. Isso nasce numa fazenda, numa plantação de soja e de milho. Então, o nosso primeiro papel é mostrar como a agricultura brasileira é sustentável. Nós ocupamos 9% do território brasileiro com agricultura. A gente aumentou a produção muitas vezes sem aumentar a área.

De 2005 a 2025, a área dobrou, a produção cresceu seis vezes. Isso é a adição de tecnologia, e o que nós estamos vendo nessa feira é tecnologia em todos os lugares. Isso aconteceu na agricultura, abrindo o caminho para o biocombustível, porque o Brasil se tornou um ambiente estruturado para fazer negócios.

O Brasil começou a falar em biocombustíveis em 1975.  Hoje tem muita gente falando, mas o Proálcool é de 75. Em 83, a gente começou a desenvolver uma tecnologia para produzir grãos que viabilizariam isso.

Como a Bayer se insere neste mercado?

Temos o maior programa de identificação da pegada de carbono em meio tropical do mundo feito no Brasil, mais de 3.000 produtores, 5 anos, 40 instituições trabalhando em conjunto com a gente. O que nós fazemos é trazer sementes de genética melhorada, biotecnologia, produtos químicos sustentáveis e agricultura digital.

O que falta para o Brasil destravar a venda de combustíveis para a Europa?

Primeiro, tem que haver uma conscientização da relevância disso. Ninguém gosta do que está acontecendo agora no mundo, mas esses conflitos trazem uma conscientização de que a gente precisa ter fontes alternativas de energia. O que se falou em biocombustível nesse evento é muito mais do que se falou em todos os outros somados.

O outro lado é um papel nosso de mostrar que existe uma rota para que isso aconteça e isso conversa muito com o trabalho institucional e que é o trabalho que a gente faz também, não só através de nós, mas da Câmara Brasil-Alemanha.

Como o acordo entre União Europeia e Mercosul, que entra em vigor no dia 1º de maio, poderá beneficiar os negócios?

A gente precisa celebrar e olhar para o mundo de oportunidades que pode se abrir para nós. São mais de 500 produtos da pauta com que a gente pode começar a fazer negócio já. A gente ainda precisa analisar todas as dimensões que podem nascer daí. O acordo acontece em um ambiente de reforma tributária no Brasil e de crescimento do Brasil. Então nós temos três vetores que a gente precisa olhar.

Hoje, quando a gente pensa na nossa base instalada no Brasil, a gente muito possivelmente vai precisar ampliar isso. Como fazer isso olhando para esses novos e diferentes vetores, é algo em que a gente está trabalhando.

Em conceito, toda abertura e remoção de barreiras, para uma empresa que atua em quase 100 países, são benéficas. Hoje, você tem processos que acontecem em vários países. E eles trocam de continente. O produto nasce num país, viaja para outro, faz um processo intermediário, vai para outro.

Como vê as perspectivas para o mercado brasileiro neste ano?

O agronegócio brasileiro, uma parte importante do nosso negócio, cresceu muito nos últimos anos e vive um momento de desafio agora. Isso é um desafio estrutural, de preço de commodity e outros fatores climáticos. Mas eu vejo uma avenida de oportunidade para nós com biocombustível.

O que a gente teve na feira essa semana agora foi algo fantástico, porque todas as entidades que estiveram aqui, incluindo o Governo Brasileiro, Câmara Brasil-Alemanha, CNI, todo mundo com uma pegada muito grande de mostrar o potencial do biocombustível.

Vou te dar um dado: dez anos atrás, a produção de etanol à base de milho no Brasil era perto de zero. Esse último ano foi mais de 6 bilhões de litros. Esse crescimento abre oportunidade para a indústria, gera emprego no interior, serviço para o transporte, movimenta a economia brasileira.

O que tem ouvido dos alemães sobre o Brasil aqui na feira?

Os alemães com quem interagimos aqui têm duas grandes preocupações. A agricultura brasileira é sustentável ou não? Ele está preservando o ambiente? Viemos aqui mostrar, olha, a gente faz as coisas de maneira correta. Todos os setores têm desafios a vencer, mas a gente, prioritariamente, faz as coisas de maneira muito correta.

A segunda dúvida que tem é, vocês vão fazer combustível, mas vocês vão acabar com a comida do planeta. Também não é correto. Porque o nosso combustível é quase a definição da economia circular. Você pega uma tonelada de milho, você faz 400 litros de etanol, faz 250 a 300 kg de DDG, que é o grão destilado. Esse DDG, você alimenta o animal, que produz carne, que produz um dejeto, do dejeto você faz biofertilizante, você planta o milho de novo e fecha o ciclo.

Na soja, é a mesma história: você esmaga uma tonelada, faz biodiesel; você tira farelo; você faz leite e proteína animal; você gera dejeto; você gera biofertilizante. Não tem comida versus combustível e a agricultura é sustentável.

O repórter viajou a convite da Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo.

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