As histórias de sucesso por trás da passarela mais negra do país

Da marisqueira à jovem da periferia, conheça as histórias por trás do Afro Fashion Day, em Salvador
Do início até agora, o evento se consolidou como um dos principais motores do mercado da moda baiano (Edgar Azevedo/Divulgação)
Do início até agora, o evento se consolidou como um dos principais motores do mercado da moda baiano (Edgar Azevedo/Divulgação)
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Laura Fernandes, do Correio

Publicado em 03/12/2020 às 05:39.

Última atualização em 11/02/2021 às 14:49.

A marisqueira que virou modelo internacional. Meninas da periferia que não se achavam bonitas e de repente se viram fazendo sucesso dentro e fora do Brasil. A mãe que pensou ter arruinado a carreira ao engravidar, mas recebeu uma nova chance no mundo da moda. Todas essas histórias de vida têm um ponto em comum: foram transformadas graças ao Afro Fashion Day, evento de moda negra realizado em Salvador no fim de novembro.

Veja o caso de Amanda Santana, de 31 anos. Quem a vê nas passarelas de Paris e de Nova York, onde desfilou para Isabel Toledo, estilista que já vestiu Michelle Obama, não imagina que ela quase desistiu de ser modelo. Amanda chegou a escutar da agência que a representava que “ia ficar gorda”, ao descobrir que estava grávida. Frustrada, desistiu da carreira para cuidar do filho autista.

Até ser descoberta por um scouter, o famoso olheiro, e levada para o Afro Fashion Day, que neste ano celebrou o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, com um Fashion Film. “Aceitei só para encerrar minha carreira mesmo, sabe? Mas vi que era o que gostava de fazer e pensei: ‘Não vou desistir agora’”, lembra Amanda, que na época tinha 27 anos. Moradora de Daniel Lisboa, bairro de Salvador, a modelo é um dos nomes no evento deste ano.

Amanda um dia decidiu passar na agência que fechou as portas para ela. “Buliu com minha autoestima, sabe? Então fui com meu filho no colo até o escritório, que me chamou de volta. Mas não dei oportunidade. Procurei outra”, diz. No AFD, compara, sentiu-se representada ao desfilar ao lado de modelos negras de todos os tamanhos, perfis e biotipos.

De marisqueira a modelo

Capa da Vogue Brasil no ano passado, Zana Santos, de 20 anos, nunca imaginou ser modelo. Marisqueira como a mãe, como se chama pescador na Bahia, teve sua vida transformada ao ser vista por um olheiro em um mercado de Encarnação de Salinas, cidade no interior baiano. “A realidade está tão distante que a gente não acredita que vai acontecer com a gente, sabe?”, diz a modelo, que estreou no Afro Fashion Day em 2018.

Zana Santos, 20 anos | Ex-marisqueira, desfilou pela primeira vez no Afro Fashion Day em 2018. No ano seguinte foi capa da Vogue Brasil e desfilou no São Paulo Fashion Week. No ano que vem deve se mudar para os Estados Unidos (Edgar Azevedo/Divulgação)

Representada por uma agência de Nova York, Zana está se preparando para se mudar definitivamente para os Estados Unidos no ano que vem. Enquanto isso, segue aprimorando o inglês e “fazendo meu nome aqui”. Zana quer no futuro fazer faculdade de moda. “O Afro é muito necessário, porque para nós, pretos, é muito difícil. O mercado, infelizmente, ainda tem racismo. Mas aqui a gente se sente em casa. Aprendi muita coisa”, afirma.

Zana dá um conselho a quem está começando: “Não é fácil, principalmente para os pretos. Mas o segredo é não desistir”. E foi isso o que Lia Neres, de 18 anos, fez: não desistiu. Depois de duas tentativas para entrar no Afro, decidiu participar da seletiva pelo TikTok neste ano. Gravou um vídeo em casa mesmo, no bairro Jardim das Margaridas, e garantiu seu lugar.

Lia está em negociação com uma agência de São Paulo. “Todos nós, jovens periféricos, conhecemos o Afro. “É uma oportunidade de mostrar nosso trabalho, mas também nossa essência, quem somos. Não são só modelos negros. Cada um tem sua história, seus sonhos. Vai além da beleza”, conclui.

Seleção nas periferias

Modelo de campanhas na Coreia e no Japão, onde vestiu a coleção da rapper Nicki Minaj, Sophia Laura, de 16 anos, também não passou de primeira na seleção para o evento. Mas não perdeu a esperança. “Sempre foi meu sonho participar do Afro, é uma oportunidade para nós, negros. Quando soube que passei, surtei”, lembra.

Criada em Massaranduba e com planos de se mudar para São Paulo em 2021, Sophia exalta as seletivas pelos bairros de Salvador. “O que acho mais incrível é o Afro dar oportunidade não só a modelos agenciados mas também a modelos periféricos”, afirma. Monique Lemos, de 16 anos, também está a caminho da capital paulista, onde trabalhará para a agência de Alessandra Ambrósio. Ela participou dos últimos quatro anos do evento e já trabalhou para marcas como Farm.

Trazer para a passarela o que se vê nas ruas de Salvador é algo de extrema importância para o fotógrafo Edgar Azevedo, de 26 anos, que assina a campanha do Afro Fashion Day neste ano. “É importante trazer essa vivência para uma pessoa que nunca imaginou ocupar o lugar como a passarela preta, que é de maior orgulho”, elogia Edgar, que já clicou nomes como Agnes Nunes e Emicida.

“O que muda na vida dessas mulheres é a autoestima, que elas já tinham e passaram a assumir para o mundo, entendendo o potencial delas enquanto corpo, pele, beleza, autorreferência. A partir daí, elas são vistas da forma como querem ser vistas. É importante as mulheres negras poderem viver isso, porque são sempre pautadas na depreciação”, afirma Azevedo.

Gordo, magro, alto, baixo...

Ao pisar na passarela do Afro Fashion Day em 2019, a modelo plus size Joice Simas, de 19 anos, sabia que “queria aqueles aplausos mais uma vez, queria aqueles gritos mais uma vez”. Moradora de Paripe, no subúrbio ferroviário de Salvador, Joice vê no evento um caminho de valorização da autoestima. Com o dendê como tema em 2020, o Afro Fashion Day mostra o que é que a Bahia tem.

Monique Lemos, 16 anos | Presença nos últimos quatro anos do evento e desfiles para a Farm (Divulgação/Divulgação)

Gordo, magro, alto, baixo... Tem gente de todo tipo na passarela do evento que carrega o DNA baiano. “Você não vê aquele modelo-padrão que o mundo da moda vem exigindo. Somos todos negros, e isso é uma representatividade muito importante”, diz Joice.

De acordo com a jovem modelo, muitas pessoas não se enxergam, não veem a capacidade de se dar bem no mundo da moda por não se acharem bonitas. “A gente, mesmo sendo de periferia, tem a capacidade de chegar longe, ser modelo internacional, fazer campanha nacional”, acredita Joice. “Ser preto, pobre e periférico é difícil, mas a gente vai conquistando espaço.”

Responsável por garimpar muitos dos talentos invisibilizados, como a ex-marisqueira Zana Santos, e servir de ponte para agências nacionais e internacionais, o agente de modelos Vivaldo Marques concorda. “A gente vê a beleza que as meninas não veem. Mas, pisou no Afro, babadou. Elas dizem: ‘É isto que quero para minha vida’.”

Para o agente, o Afro é o xeque-mate que comprova que essas meninas nasceram para isso. “É o pontapé inicial para que tenham certeza de tudo o que eu já sabia antes mesmo de elas imaginarem. O Afro é o que lança, é o que acolhe. Elas entram meninas e saem mulheres”, afirma.

Sophia Laura,16 anos | Estreou no evento de Salvador em 2019. Posou para Vogue Coreia do Sul e Vogue Japão, quando vestiu a coleção da cantora Nicki Minaj. Será agenciada em São Paulo (Edgar Azevedo/Divulgação)

Mercado em alta

Desfilar na passarela do Afro Fashion Day virou o sonho de meninas e meninos baianos, segundo o produtor de elenco Pepê Santos. Coordenador da agência One Models e responsável por levar nomes para as seletivas de bairro, Pepê afirma que o evento consolidado no calendário de Salvador é colocado como meta de vida por esses jovens negros.

“O modelo preto de periferia tem sonhos, e pisar naquela passarela é uma conquista imensa. Tem gente que trabalha o ano todo para isso”, comenta. “Muitos deles depois criam gosto pela carreira e levam a experiência que viveram aqui. É o único evento preto de moda em que estão inseridos, têm orgulho de dizer que faz parte do currículo deles”, aponta Pepê.

O Afro Fashion Day foi criado em 2015 pelo então diretor executivo do jornal Correio, morto no ano seguinte. O evento deste ano conta com patrocínio do Hapvida, parceria do Sebrae, apoio do Shopping Barra, Lagares e Drogaria São Paulo e apoio institucional da prefeitura de Salvador. Do início até agora, o evento se consolidou como um dos principais motores do mercado da moda baiano.

“Em 2015, partimos do zero e fizemos o desfile em 40 dias. A cada edição, nosso sonho e nossa ambição só crescem, com mais público, mais marcas, mais modelos. Passamos de 100 pessoas desfilando no ano passado. Isso sem abrir mão de dois critérios: talento e atitude”, afirma Gabriela Cruz, curadora do evento ao lado de Fagner Bispo.

Neste ano foram 31 modelos e 37 marcas baianas parceiras que desfilaram para o Fashion Film, produto audiovisual que transformou bairros de Salvador em passarelas. Plataforma, São Tomé de Paripe, Candeal, Gamboa e Rio Vermelho serviram de cenário para o filme, com direção de Renan Benedito e trilha sonora de Telefunk Soul.

Além da moda

A passarela é o foco, mas o Afro Fashion Day vai além do desfile. Existe toda uma cadeia criativa que movimenta o evento e transforma o mercado de moda baiano desde o começo: encontro de marcas, estilistas, realização de oficinas, fomento ao empreendedorismo e à produção de moda.

Amanda Santana, 31 anos | Ela já escutou de uma agência que “ia ficar gorda” depois de ter filho. Depois disso, já desfilou em Paris e Nova York. Foi um dos nomes do Afro Fashion deste ano (Edgar Azevedo/Divulgação)

Com mais de 20 patrocinadores nesse período, o Afro Fashion Day é um gerador de oportunidades para o empreendedorismo local, em que mais de 50 marcas já apresentaram seu trabalho na passarela. Saíram de lá nomes como João Damapeju, Filipe Dias, Katuka Africanidades, Negrif, Mônica Anjos, Sou Diva! Tá Bom Pra Vc? e Meninos Rei.

Lu Samarato, um dos estilistas deste ano que assinam a marca de mesmo nome, trabalhava como produtor de moda dando suporte ao desfile de outros criadores. Há quatro anos envolvido com o Afro, viu no evento a oportunidade para consolidar sua marca. “Foi minha chance de me lançar como criador”, diz. “A gente não tinha essa visibilidade porque a moda por muito tempo segregou. O Afro inclui criadores, modelos, agenciadores, toda uma equipe de moda. A gente tem talento, potencial, o que faltava era oportunidade.”

Ainda são poucas as oportunidades para modelos negras e negros, ressalta a modativista Carol Barreto, professora do departamento de estudos de gênero e feminismo da Universidade Federal da Bahia. “Além da histórica exclusão dessa população de todos os espaços de representatividade e poder, a produção de estereó­tipos é algo que afeta muito nossa comunidade”, alerta.

Ciente de que há um longo caminho pela frente, o curador Fagner Bispo ressalta que o Afro Fashion Day é pioneiro por ser o primeiro evento do Brasil todo focado no público negro. “Muitos desses modelos não teriam oportunidade”, pondera. “É um trabalho de formiguinha. Diante de toda a reparação histórica que deve ser feita, estamos cumprindo nosso papel.”