Em 2025 o Brasil superou as próprias expectativas, apresentando crescimento sustentado, desemprego no menor nível já registrado, exportações recordes apesar de tarifas hostis, e uma bolsa de valores que decidiu, por conta própria, que o país merecia mais confiança do que o próprio país costuma depositar em si (Germano Lüders/Exame)
Doutor em Administração, professor de Finanças e Diretor de Educação Continuada do Ibmec
Publicado em 25 de setembro de 2026 às 06h00.
Todo início de ano o Brasil se apresenta ao mundo com um discurso de cautela. Juros altos, ambiente fiscal desafiador, geopolítica incerta, tarifas americanas. A lista de motivos para pessimismo nunca falta, e normalmente é longa o suficiente para preencher qualquer painel de conferência. E, ainda assim, todo ano o país insiste em fechar as contas melhor do que o discurso sugeria. Se isso não é uma vocação nacional, é pelo menos uma coincidência estatisticamente improvável, repetida com uma regularidade digna de observação.
O ano de 2025 seguiu esse roteiro à risca. Terminamos com o PIB crescendo 2,3%, o quinto ano consecutivo de expansão da economia. Foi um desempenho que desacelerou ante os 3,4% de 2024, mas que ocorreu sob uma Selic em patamar contracionista durante praticamente todo o período. Crescer com juros reais nesse nível não é simples ou trivial. Junto com isso temos o cenário de emprego, que, na minha visão, ninguém está comentando o suficiente.
Vamos começar pelo dado que, silenciosamente, foi o mais notável do ano: a taxa de desemprego fechou 2025 em 5,6% na média anual (a menor da série histórica iniciada em 2012), depois de chegar a 5,1% no trimestre encerrado em dezembro, também recorde. A população ocupada bateu 103 milhões de pessoas, o rendimento médio do trabalhador atingiu o maior patamar já registrado, e o contingente de emprego formal cresceu quase 3% no ano, segundo dados do IBGE. Para um país que passou boa parte da última década sendo descrito como estruturalmente incapaz de gerar emprego, é um resultado que pode ser lido com atenção e sem o ceticismo automático reservado a boas notícias econômicas brasileiras.
Para o comércio exterior nos deparamos com o tarifaço que, por sorte, milagre ou competência, não tarifou o resultado. Um roteiro pronto para 2025 era de que as tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, que estariam válidas a partir de agosto do ano passado, derrubariam as exportações e comprometeriam o saldo comercial do ano. Esse roteiro não se confirmou. O Brasil fechou 2025 com exportações recordes de 348,7 bilhões de dólares, o maior valor da série histórica, superando até mesmo o recorde anterior, de 2023, e superávit comercial de 68,3 bilhões de dólares, o terceiro melhor resultado já registrado. A carne bovina cresceu 42,5% em valor exportado; o café, mais de 31%. Com isso, a tarifa chegou, criou ruído, ocupou espaço editorial considerável, e o comércio exterior brasileiro, driblando-a como quem já está acostumado a driblar coisa pior, simplesmente bateu recorde.
Há uma ironia elegante nisso. Um país frequentemente descrito como refém da conjuntura internacional encontrou, justamente na conjuntura internacional mais hostil do passado recente, um dos seus melhores resultados de comércio exterior da história.
E a bolsa? O que ninguém esperava: batendo recorde atrás de recorde!
No mercado de capitais, o exercício de humildade continuou. O Ibovespa fechou 2025 com valorização acumulada de cerca de 34%, batendo 32 recordes históricos nominais ao longo do ano. A festa não parou por aí, já que nos primeiros meses de 2026 o índice acumulou mais de uma dezena de novos recordes, superando pela primeira vez a marca dos 190.000 pontos. O motor principal foi o fluxo de capital estrangeiro, atraído por valuations que o restante do mundo considerou baratos demais para ignorar, num movimento de rotação global para mercados emergentes. Quando o dinheiro estrangeiro decide que vale a pena apostar no Brasil apesar do Brasil, talvez seja hora de o próprio Brasil rever um pouco o próprio pessimismo crônico.
Com isso, o ano de transição passou a ser 2026, sob o peso e o alívio dos juros. O quadro para 2026 é de continuidade cautelosa, e aqui a ironia dá lugar à aritmética. As projeções mais recentes do mercado (segundo o Boletim Focus) apontam PIB em torno de 1,98% para o ano, uma desaceleração natural depois de cinco anos seguidos de crescimento sob juros elevados. A Selic, que está em patamares de dois dígitos, deve fechar 2026 perto de 13,75%, com viés declinante, se tudo mais caminhar bem até dezembro. A inflação continua em trajetória de acomodação, com o IPCA projetado ao redor de 5% para o ano, ainda acima do centro da meta, mas em queda há semanas seguidas nas leituras mais recentes do Focus.
Em outras palavras, 2026 é o ano em que o Brasil paga a conta dos juros altos que sustentaram a inflação sob controle e, ao mesmo tempo, começa a ver essa conta ficar mais barata. Para 2027, será que teremos um ano em que os juros finalmente poderão fazer as pazes com a economia?
As projeções indicam Selic recuando para cerca de 12% em 2027 e a inflação convergindo para perto de 4,2%, ainda longe do centro da meta, mas em direção a alguma normalização. O crescimento do PIB projetado, em torno de 1,5%, é modesto se comparado a economias emergentes mais aceleradas, mas é o tipo de modéstia que costuma vir acompanhada de alguma qualidade, como, por exemplo, menos estímulos artificiais, mais espaço para o crédito voltar a fluir e para o investimento produtivo, que recuou em 2025 justamente por causa do custo de capital, retomar fôlego.
Se a trajetória de corte de juros se confirmar, 2027 tende a ser o ano em que a economia brasileira finalmente colherá, de forma mais ampla, os frutos da disciplina monetária que pagou um preço alto em crescimento nos últimos exercícios. Longe de ser um cenário de euforia, mas vale como cenário de normalização. E, depois de anos ouvindo falar em choques, crises e ajustes, normalização já soa como um tipo raro e bem-vindo de notícia. A pauta do ajuste fiscal, esperamos todos, terá de se impor como uma prioridade em Brasília.
É nesse contexto que vale observar o desempenho do universo corporativo brasileiro como um todo. As grandes empresas do país, protagonistas de MELHORES E MAIORES, atravessaram 2025 registrando crescimento de receita em praticamente todos os setores. Também apresentaram lucratividade acima do que o cenário macro isoladamente sugeria. Isso não é coincidência; é claro reflexo direto de um ambiente em que o crédito caro filtrou ineficiência, o câmbio e o comércio exterior favoreceram exportadores, o mercado de capitais recompensou disciplina de capital, tudo isso com um mercado de trabalho aquecido sustentando o consumo em nível suficiente para manter a demanda doméstica funcionando, mesmo sem grandes estímulos.
Empresas que conseguiram converter esse ambiente em margem, não apenas em faturamento, chegam a 2026 e 2027 em posição de relativa vantagem. Quando o custo de capital ceder de forma mais consistente, como indicam as projeções, serão essas companhias, as que já provaram capacidade de gestão sob pressão, as primeiras a capturar o espaço adicional para investimento e expansão.
O Brasil tem o hábito curioso de superar as próprias expectativas justamente quando menos se espera. O ano de 2025 foi mais um capítulo dessa coleção, apresentando crescimento sustentado, desemprego no menor nível já registrado, exportações recordes apesar de tarifas hostis, e uma bolsa de valores que decidiu, por conta própria, que o país merecia mais confiança do que o próprio país costuma depositar em si.
Para 2026 e 2027, o cenário que se desenha não é de euforia, mas de convergência, com juros caindo, inflação recuando, investimento voltando a ganhar espaço. Se a história recente ensina algo, é que subestimar a capacidade do Brasil de crescer sob pressão tem sido, ano após ano, uma aposta arriscada e, frequentemente, perdedora, graças à resiliência e à criatividade das empresas e dos empresários brasileiros.
Samuel de Jesus Monteiro de Barros, Ph.D., Coordenador Técnico do Prêmio Melhores e Maiores, Doutor em Administração, professor de Finanças e Diretor de Educação Continuada do Ibmec