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Clubes de futebol: só falta dar dinheiro

No país da bola e da próxima Copa do Mundo, os clubes de futebol nunca faturaram tanto — duro é ter lucro

Fluminense, atual campeão brasileiro: gastos de até 100 000 reais por mês com água e luz (Daryan Dornelles/EXAME.com)

Fluminense, atual campeão brasileiro: gastos de até 100 000 reais por mês com água e luz (Daryan Dornelles/EXAME.com)

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Lucas Amorim

28 de maio de 2011, 08h00

O Fluminense terminou 2010 com dois títulos. O primeiro, de campeão brasileiro, foi alcançado graças aos dribles do meia argentino Dario Conca e aos gols da dupla de ataque Emerson e Fred. O segundo, conquistado longe dos olhos da torcida, não merece nenhuma comemoração.

Embora tenha terminado o ano com uma receita recorde, de 76 milhões de reais, o clube carioca registrou o maior prejuízo do futebol nacional: 42 milhões de reais. Com uma folha de pagamentos que inclui salários na casa dos 500 000 reais e dívidas de mais de 360 milhões de reais (quase cinco vezes sua receita), o Fluminense enfrenta uma das fases mais críticas de sua história.

Nem as vitórias em campo ajudaram a aliviar a barra. Toda a renda dos jogos decisivos foi usada para pagar débitos trabalhistas com mais de 500 ex-jogadores. O prêmio de 8 milhões de reais recebido pela conquista do campeonato brasileiro ficou retido por ordem judicial para quitar pendências com o Clube dos 13, a associação que negociava os direitos de transmissão com as emissoras de TV.

“O descontrole com as finanças é tão grande que, todos os meses, desperdiçamos mais de 100 000 reais em contas de água e luz”, diz Jackson Vasconcelos, que, em janeiro, assumiu o cargo de gerente executivo do Fluminense. “Reduzir os custos virou questão de sobrevivência.”

A situação vivida pelo Fluminense é crítica. Mas não é única. Um estudo elaborado pela auditoria BDO RCS, especializada em esporte, revela que os clubes brasileiros nunca ganharam tanto dinheiro. Em 2010, o faturamento somado das 25 maiores equipes do país avançou 15% em relação ao ano anterior, chegando ao inédito volume de 1,9 bilhão de reais.

O problema é que o reforço no caixa só serviu de combustível para alimentar uma ciranda perversa: quanto mais os clubes ganham, mais eles gastam. O prejuízo somado desses mesmos times no período chegou a 264 milhões de reais.

Apenas quatro deles fecharam o ano no azul: Atlético Paranaense, Corinthians, Cruzeiro e São Paulo. Somadas, as dívidas de todas as agremiações chegam a 3,6 bilhões de reais. No país da bola e da próxima Copa do Mundo, o futebol tem sido um péssimo negócio.

A má administração parece fazer parte da essência dos clubes brasileiros. Boa parte do rombo dos times foi causada por um desembolso sem precedentes na contratação de jogadores. Em dezembro de 2009, o Corinthians contratou o lateral Roberto Carlos, que jogava no Fenerbahçe, da Turquia, por um salário mensal de cerca de 300 000 reais.


Em agosto de 2010, foi a vez de o Fluminense oferecer uma remuneração estimada em 750 000 reais por mês ao brasileiro naturalizado português Deco, então no britânico Chelsea. Roberto Carlos deixou o Corinthians um ano depois, brigado com a torcida. Deco não foi decisivo para o título do Fluminense. Mas esses fatos não impediram que a farra dos craques continuasse.

Em janeiro deste ano, o Flamengo trouxe de volta Ronaldinho Gaúcho, então no italiano Milan, por um salário estimado em 950 000 reais — remuneração semelhante à do capitão Carles Puyol, do Barcelona. Um mês depois, o Corinthians recrutou o atacante naturalizado português Liedson por 5 milhões de reais (mais um salário de cerca de 400 000 reais por mês) e, logo em seguida, o atacante Adriano, que estava no Roma, por volta de 300 000 reais mensais.

Por fim, em março, o São Paulo desembolsou 20 milhões de reais para repatriar o atacante Luis Fabiano, que defendia o Sevilha. (Tanto Adriano quanto Luis Fabiano estão inativos por problemas físicos.) “Nos últimos anos, os clubes diversificaram suas fontes de receita e passaram a faturar tanto quanto empresas médias”, diz Amir Somoggi, sócio da BDO RCS. “Agora, precisam aprender a ser eficientes como elas.”

Administrar um clube de futebol é muito diferente de gerir uma empresa. Para começar, as 20 equipes que disputam a primeira divisão do campeonato brasileiro são associações sem fins lucrativos.

Daí os investimentos generosos na contratação de jogadores, mesmo que isso por vezes extrapole o bom senso financeiro — estima-se que os gastos com a folha de pagamentos respondam por algo entre 50% e 80% do total. É por isso que casos como o do Real Madrid, do técnico José Mourinho, são tão raros.

Na temporada 2009-2010, o Real registrou um superávit de 30 milhões de euros — um valor alto mesmo para as agremiações europeias. O Barcelona, por exemplo, campeão mundial de clubes em 2009, teve um prejuízo de 79 milhões de euros na última temporada devido, em grande parte, ao pagamento de quase 200 milhões de euros em salários.

“O esporte vi­ve em uma exuberância irracional. Ba­lancear vitórias e lucratividade é mui­to difícil”, diz o americano Kenneth Shropshire, diretor do centro de esportes da escola de negócios Wharton.


O caso do Atlético Paranaense, o clube mais lucrativo do Brasil, revela quanto esse equilíbrio é delicado. Em 2009, o Atlético segurou a contratação de grandes jogadores e conseguiu encerrar o ano com um superávit de 10 milhões de reais — mas teve de lutar contra o rebaixamento até a última rodada do campeonato brasileiro.

Para evitar que a agonia se repetisse, seus dirigentes decidiram investir na contratação de atletas mais experientes na temporada seguinte. Feitas as contas, o Atlético destinou 2,5 milhões de reais a mais para o pagamento de salários, sacrificando suas margens em 40%. O lucro caiu para 6,2 milhões de reais, mas a torcida nem ligou — o clube encerrou o torneio na quinta posição.

Para manter o superávit, o Atlético conta com um controle de custos raro no futebol brasileiro. Apenas um jogador, o meia Paulo Baier, recebe mais de 100 000 reais por mês, o que faz a folha mensal ficar em torno de 2 milhões de reais, cerca de um terço do que gastam os principais clubes de São Paulo e do Rio de Janeiro. Para 2011, o orçamento do clube prevê receitas de 70 milhões de reais. “Não vamos tomar um único centavo em empréstimos neste ano”, diz Marcos Malucelli, presidente do Atlético Paranaense.

Novos patrocinadores

Para seguir contratando novos jogadores sem provocar um buraco no orçamento, alguns clubes têm procurado maneiras de gerenciar melhor uma importante fonte de receita, os patrocínios. Entre 2009 e 2010, o faturamento com publicidade e patrocínio das dez maiores equipes do país cresceu 59%, alcançando 269 milhões de reais.

O Santos Futebol Clube, que no ano passado recebeu 29 milhões de reais dos patrocinadores, oferece um dos exemplos mais contundentes dessa nova mentalidade. Foram contratados oito gerentes, oriundos do mercado financeiro e de agências de propaganda, com a missão de propor formas inovadoras de atrair investidores.

Eles têm metas trimestrais de resultados e são cobrados por um comitê de gestão, composto de sete torcedores que passaram por altos cargos em empresas como Santander, Itaú e Votorantim.


Foi esse grupo que bolou a engenharia financeira que permitiu ao Santos manter o craque Neymar. O jogador recebe “apenas” 150 000 reais por mês do Santos, que se compromete a levantar outros 300 000 mensais com patrocinadores.

Contar com uma gestão profissional será ainda mais crucial daqui para a frente. A previsão de especialistas é que a receita dos 25 maiores clubes do país aumente 10% neste ano, chegando a 2 bilhões de reais.

O novo contrato de transmissão dos jogos com a Rede Globo para o triênio 2012-2014 deve mais que dobrar a receita das grandes equipes com televisão — Flamengo e Corinthians, donos das maiores torcidas do país, deverão receber mais de 100 milhões de reais ao ano.

Além disso, as novas arenas que serão construídas para a Copa de 2014 devem elevar a renda com bilheteria dos clubes, aproximando-os da realidade do futebol europeu. A Alemanha, por exemplo, alcançou a maior média de público da Europa depois de sediar a Copa de 2006 — atualmente são mais de 40 000 pessoas por jogo.

Na Inglaterra, de acordo com a consultoria Deloitte, os gastos dos torcedores, entre ingressos, alimentação e camisetas, representam 40% da receita de equipes como Arsenal e Manchester United, mais que o dobro da média brasileira. Lá, expressões como investidor privado, metas e IPO são tão comuns no meio futebolístico quanto no mercado financeiro. Nesse quesito, porém, os clubes brasileiros continuam na segunda divisão do futebol mundial.