Na avaliação das casas, uma guinada na indústria dos fundos também passa pelo ambiente político (Diarlle Carvalho)
Repórter
Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 06h00.
Indicadores de janeiro costumam ser lidos como fotografia de um momento, não como tendência. Mas, desta vez, o retrato deste início de 2026 dos fundos multimercados foi forte o bastante para mexer nas expectativas do mercado. A classe capturou 17,3 bilhões de reais no mês, o melhor resultado desde 2021.
O volume contribuiu para que a indústria de fundos somasse 75,3 bilhões de reais em entradas líquidas, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Após dois anos de profunda retração, a pergunta deixou de ser “quem ainda resgata?” para virar “quem começa a voltar?”.
Em 2024, os fundos multimercados bateram recorde de resgates e perderam 349,1 bilhões de reais. Um ano depois, as saídas desaceleraram, mas ainda assim tiveram uma soma expressiva, de 58,9 bilhões. A renda fixa vem drenando uma boa parte desses recursos e captou 84,3 bilhões de reais en 2025, embalada por uma Selic de 15% ao ano, a maior desde 2006.
Mário Schalch, sócio-fundador da Neo Investimentos, afirma que a indústria de multimercados passou a ter um terço do tamanho que tinha. Juros elevados, dificuldade de superar o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) e tributação menos favorável — com a ampliação do sistema "come-cotas" no fim de 2023 e a forte concorrência com títulos isentos — levaram a uma contração próxima de 60% no segmento.
Um período que funcionou como um processo de "seleção natural", nas palavras de Letícia Albuquerque, head de investments solutions da Tivio Capital. Enquanto algumas gestoras desses fundos quebraram e outras se fundiram, sobreviveram as com fôlego financeiro e escala para preservar equipes e capacidade de "geração de alfa", retornos acima da média do mercado, apesar da pressão sobre o patrimônio.
Agora, os gestores dizem que o movimento de redução nas carteiras "está muito próximo do fim".
"Chama atenção que a categoria multimercado, que vinha performando mal do ponto de vista de resgates, registre um fluxo grande de quase 18 bilhões de reais somente no mês de janeiro. Isso, definitivamente, é uma mudança de comportamento do investidor já tentando antecipar-se ao processo de afrouxamento monetário", diz Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Vida, Previdência e Investimentos.
A dinâmica está só no começo, mas, de acordo com os especialistas, dificilmente repetirá o ciclo visto entre os anos de 2018 e 2021. Nesse período, com a queda consistente da Selic, que chegou a 2% ao ano, multimercados e ações registraram captação positiva contínua.
O investidor foi forçado a sofisticar a carteira. "O fundo multimercado é um fundo coringa", afirma Pedro Rudge, diretor da Anbima. "Ele permite terceirizar a decisão de alocação num ambiente em que a renda fixa deixa de se resolver sozinha."
A diferença é que, hoje, a taxa básica de juros caminha para 12% até o final do ano, o que ainda é "muito juro", segundo Albuquerque.
A Selic no atual patamar se soma a mudanças estruturais na dinâmica dos fundos de ações, com a tributação de fundos exclusivos via come-cotas, além da expansão de títulos incentivados isentos na renda fixa. Isso muda de forma permanente a forma como as alocações são feitas e dificultam que o cenário atual replique o passado.
"A indústria passou por uma 'tempestade perfeita'", diz Albuquerque. Veio de uma alocação historicamente elevada, que abriu espaço significativo para resgates quando o cenário mudou, passando pela tributação de fundos exclusivos e dificuldade de entregar retornos consistentes. A concorrência crescente de produtos estruturados e internacionais jogou contra a indústria nesse sentido. "Dificilmente veremos o mesmo nível de alocação de quatro anos atrás", afirma.
Apesar do rali da bolsa neste começo de ano, os fundos de ações continuam pressionados. A classe acumula saídas de 52,8 bilhões de reais em 2025 e também começou 2026 negativa em 2,4 bilhões, apesar de rentabilidades expressivas e inesperadas no ano passado.
"Podemos ver uma diminuição das saídas ou até alguma entrada, mas não há, neste momento, condições para uma retomada forte", afirma o gestor da Neo Investimentos.
Na avaliação das casas, uma guinada na indústria dos fundos também passa pelo ambiente político. A proximidade das eleições tende a elevar a volatilidade e reduzir a previsibilidade fiscal, o que costuma adiar decisões de alocação mais estruturais.
O que se desenha, portanto, não é uma rotação abrupta, mas uma recomposição gradual de portfólio, em que renda fixa tende a perder protagonismo relativo, mas não relevância. "A renda fixa continua relevante, embora estejamos reduzindo crédito pós-fixado e aumentando posição em prefixados e NTN-Bs [títulos atrelados à inflação mais juros]", diz a head do Tivio Capital.
Dentre os fundos não tradicionais, Marcelo Mello, CEO da SulAmérica, vê na infraestrutura "o mercado com mais potencial", dada a preservação da isenção fiscal desse tipo de investimento e o volume de concessões previsto para o setor.
Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) seguem em expansão e superaram 800 bilhões de reais em patrimônio líquido no ano passado. Porém, ainda que acessível ao investidor do varejo, é um ativo sofisticado, que traz mais retorno, mas tem um lastro de maior risco (recebíveis de cartão de crédito e duplicatas, por exemplo).
Fundos imobiliários também entram no radar com a perspectiva de juros menores, sobretudo os de tijolo, os que mais remuneram em ciclos de alívio monetário. Mas a validação de todas essas tendências também passa pelo debate fiscal e pelo ambiente institucional.
"Janeiro é apenas o primeiro mês de 2026, então temos que ver mais fotografias para confirmar se o filme é de uma recuperação de multimercados", conclui Rudge.