Dados da Anbima mostram que os FIDCs obtiveram uma captação líquida de R$ 57,6 bilhões em 2025. (Stock Exchange)
Repórter de Invest
Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 06h00.
O investidor parece ter se sentido confortável em mais um espaço do mercado financeiro e resolveu mudar a rota habitual para estacionar seu capital em uma vaga diferente: nos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), títulos que envolvem direitos a receber de empresas. Esse instrumentou liderou a captação fora dos fundos tradicionais no Brasil.
Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que os FIDCs obtiveram uma captação líquida de R$ 57,6 bilhões em 2025, com alta de 92,5% no número de contas de investidores, saindo de 172,2 mil em janeiro para 331,4 mil em dezembro. As projeções também são positivas para 2026.
A diretora da Anbima, Julya Wellisch, complementa essa visão: "depois dos fundos de renda fixa, FIPs e FIDCs apresentaram os melhores resultados, o que reforça o papel desses produtos como importantes financiadores da economia real e como destino de uma parcela crescente dos recursos dos investidores."
Esse fluxo acontece em um momento em que as prateleiras mais tradicionais, como fundos de ações e multimercados, sofreram com resgates bilionários, consolidando os FIDCs não apenas como uma alternativa de ocasião, mas como o destino estrutural do dinheiro. Não trata-se, então, de dinheiro novo, mas de uma migração dos investidores.
Grande parte dessa migração para os FIDCs só foi possível porque as regras do jogo também ficaram mais claras. O fator regulatório, com novas normas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), foi decisivo para reduzir a assimetria de informação que afastava os grandes investidores, na visão de especialistas ouvidos pela EXAME.
O gestor da Hike Capital, Ângelo Belitardo, enxerga o cenário dos FIDCs como um momento de amadurecimento e de consolidação institucional. Ele acredita que a maior parte do fluxo financeiro atual venha de gigantes fundos de pensão, seguradoras e grandes bancos, o que funciona como um "selo de confiança" para os investidores.
"Os FIDCs estão retirando a demanda e substituindo, principalmente, os títulos públicos e os títulos de crédito privado com pouca ou nenhuma transparência, como é o caso dos CRIs (Certificado de Recebíveis Imobiliários), CRAs (Certificado de Recebíveis do Agronegócio), LCIs (Letra de Crédito Imobiliário), LCAs (Letra de Crédito do Agronegócio) e, até mesmo, dos fundos imobiliários", detalha Belitardo.
O gestor defende que os FIDCs e os Fundo de Investimento em Cotas (FICs FIDCs) oferecem algo mais vantajoso: agilidade e ausência do mecanismo de antecipação do Imposto de Renda "come-cotas", o que acelera o ganho de capital por meio dos juros sobre juros, na contramão do feijão com arroz de outras opções da renda fixa.
A "joia da coroa", na sua visão, é hoje as estruturas dos FIDCs "multicedente e multisacado", que diluem o risco ao espalhar o crédito entre milhares de fornecedores e pagadores. Belitardo explica que, ao antecipar recebíveis de milhares de fornecedores e pagadores, os fundos diluem o risco de inadimplência.
O FIDC deixou, assim, de ser um "instrumento oportunístico", usado em janelas de juros elevados, para ocupar um papel mais estrutural dentro da alocação na renda fixa e do crédito privado, funcionando como uma ponte entre a renda fixa comum e esse crédito privado sofisticado, segundo o CEO da IOX, Richard Ionescu.
Além disso, o perfil de quem coloca dinheiro nos FIDCs está em plena transformação. "Os fluxos mais consistentes se concentram em FIDCs pulverizados de alta qualidade, estruturas ligadas a supply chain, crédito corporativo middle market e operações híbridas com garantias reais ou colaterais financeiras", na opinião de Ionescu.
"A preferência se explica pela combinação de três fatores: maior previsibilidade de fluxo, capacidade de diversificação do risco e estruturas de proteção mais sofisticadas", acrescenta o CEO da IOX. "Segmentos como agro e consignado continuam relevantes, mas passaram a ser analisados com muito mais granularidade."
Já a classificação "FIDC Outros" virou um "guarda-chuva de inovação", fugindo do crédito tradicional pulverizado, a exemplo dos FIDCs com lastro em contratos bussiness to bussiness (B2B, na sigla em inglês), recebíveis financeiros estruturados, operações híbridas, entre outros, pondera o especialista.
Embora o capital pesado ainda venha de investidores profissionais, bancos e family offices, houve, também, entrada do varejo no número de cotistas recentemente, de acordo com o CEO da Ouro Preto Investimentos, João Baptista Peixoto Neto. "Eu acredito que o FDIC logo vai ser o 2º fundo a ter maior número de cotistas, só não deve superar os fundos de renda fixa."
Peixoto Neto não deixa, no entanto, de fazer um alerta em relação ao risco e retorno dos FIDCs, reforçando que a operação é nichada e tem uma política própria, tornando necessário que os investidores analisem a estrutura da operação. FIDCs com concentração grande em devedores têm um risco grande também, com retorno desproporcional.
"A IOX vê maior risco justamente em fundos que reduziram a subordinação, afrouxaram critérios de originação ou passaram a aceitar estruturas mais frágeis para manter volume. Por outro lado, gestores disciplinados, que preservam governança e proteção ao investidor, conseguem entregar retornos consistentes sem assumir riscos desproporcionais", adiciona Ionescu.