Julia e Nadia Nasr, fundadoras do Café por Elas: “Nos frustrávamos com a qualidade horrorosa dos cafés que eram apresentados” (João Fenerich/Divulgação)
Repórter
Publicado em 19 de março de 2026 às 06h00.
No fim dos anos 1990, quando decidiu comprar uma fazenda e transformar uma área arrendada para cana em plantação de café, Abadia Nasr tomou uma decisão incomum para a época — especialmente para uma mulher no campo. Produtora no interior de São Paulo, ela enfrentou desconfiança de vizinhos, fornecedores e até de funcionários da própria fazenda. Ainda assim, insistiu.
“Era um meio extremamente masculino”, conta a filha de Abadia, Nadia Nasr. A propriedade que Abadia comprou estava arrendada para a produção de cana-de-açúcar, um modelo comum entre proprietários que preferem manter a terra produtiva sem assumir a gestão agrícola.
A empreendedora decidiu seguir o caminho oposto: encerrar o arrendamento e iniciar uma lavoura própria de café. A escolha significava assumir um negócio mais complexo e exposto a riscos climáticos e de mercado, além de enfrentar um setor historicamente dominado por homens.
Anos depois, a decisão moldou também a infância das filhas. Julia e Nadia cresceram entre São Paulo e a fazenda da família em Dourados, em Mato Grosso do Sul, acompanhando a mãe se consolidar como produtora.
Naquele momento, porém, o plano não era seguir no campo. As duas se formaram em direito e iniciaram carreira como advogadas na capital paulista. O café voltaria à história anos depois, e com um sabor diferente. Frequentando restaurantes, hotéis e escritórios na cidade, as duas percebiam que, mesmo em lugares sofisticados, o café servido raramente era bom.
“Nos frustrávamos com a qualidade horrorosa dos cafés que eram apresentados”, diz Julia.
Por isso, em 2018, as irmãs decidiram criar o Café por Elas, uma torrefação que conecta consumidores urbanos a cafés produzidos por mulheres. A ideia nasceu de um lote específico cultivado na fazenda da mãe e batizado com o nome da marca.
A mudança de carreira, no entanto, não aconteceu de uma vez. A ideia do negócio começou a ganhar forma em 2016, quando as duas passaram a estudar mais profundamente o universo do café especial.
Durante cerca de dois anos, o projeto avançou em paralelo à carreira jurídica. Nos fins de semana, elas iam à fazenda, participavam de provas sensoriais e experimentavam diferentes processos de torra até chegar ao resultado que buscavam.
A fazenda da mãe acabou se tornando um laboratório para os primeiros testes. Foi ali que as irmãs aprenderam mais sobre qualidade, análise sensorial e os processos que transformam o grão cru em café torrado.
No início, a torrefação produzia cerca de 20 quilos de café por mês. Hoje, a escala é outra. Torrando cerca de 4 toneladas por mês — em alguns períodos já chegando a 5 toneladas —, o Café por Elas compra grãos de mais de 25 produtoras, incluindo a própria mãe. Elas distribuem o café para mais de 200 pontos de venda pelo Brasil, de restaurantes e cafeterias a redes de varejo.
A maior parte das vendas ainda acontece no modelo B2B, responsável por cerca de 90% do faturamento, mas a empresa começou recentemente a investir também no consumidor final, com vendas online, clube de assinatura e a abertura de uma cafeteria própria em São Paulo.
O crescimento da marca acompanha uma mudança maior no mercado de café. Nos últimos anos, o consumo de cafés especiais avançou no Brasil, impulsionado por consumidores mais atentos à origem dos grãos, às técnicas de torra e à rastreabilidade da produção.
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção total para 2026 é estimada em 66,2 milhões de sacas de café, alta de 17,1% sobre 2025 e um recorde para o setor. Segundo estimativas citadas pelas fundadoras, cerca de 13% das produções de café no país são lideradas por mulheres. Nesse contexto, o Café por Elas funciona como uma ponte entre dois universos: o da produção rural e o do consumo urbano.
Ao levarem esses grãos para restaurantes, escritórios e cafeterias, as irmãs ajudam a contar histórias que normalmente ficam invisíveis para quem apenas segura a xícara. Histórias como a da própria mãe — que começou tudo décadas antes, quando decidiu que aquela fazenda não seria apenas terra arrendada, mas um negócio para liderar.