Por que Arminio Fraga está de volta à Gávea

Arminio Fraga está prestes a anunciar a recompra da Gávea, gestora que vendeu em 2010 para o banco JP Morgan — e que não vive seus melhores dias

São Paulo — Num ambiente como o mercado financeiro, em que tudo pode mudar em minutos, cinco anos são uma eternidade. Em novembro de 2010, o Ibovespa estava perto de bater sua máxima histórica. O índice beirava os 73 000 pontos (o recorde, de 73 516 pontos, havia sido atingido em maio de 2008, pouco depois de o Brasil receber o grau de investimento).

O número de investidores individuais na bolsa brasileira também bateu recorde naquele ano e 22 empresas lançaram ações no mercado — captando, ao todo, quase 150 bilhões de reais. Além disso, o PIB brasileiro cresceu 7,5%. Foi nesse ambiente que o banco JP Morgan comprou, por meio de seu fundo Highbridge, o controle da gestora Gávea, fundada em 2003 por Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central.

O objetivo, como declararam executivos do JP Morgan na época, era “acelerar o crescimento do banco” num mercado em expansão. Passados cinco anos, a situação mudou radicalmente. O Brasil piorou, o cenário internacional é outro e os sócios resolveram alterar o plano original. Fraga está recomprando a Gávea, mas a gestora que ele vai tocar é diferente da que foi vendida ao JP Morgan. 

A nova Gávea terá duas áreas principais, uma responsável pela gestão de fundos multimercados e outra pela de fundos de private equity. Outros departamentos, como os de fundos de ações e imobiliários, serão transferidos ao JP Morgan. “Foi uma decisão pessoal. Quero me concentrar nos negócios centrais da Gávea”, diz Fraga. “Quando o Brasil reencontrar o caminho do crescimento, o segmento de private equity vai ganhar importância.”

A dúvida de investidores e executivos do mercado ouvidos por ­EXAME é se a Gávea terá a mesma relevância que já teve nesse setor. Desde junho do ano passado, cinco dos dez sócios responsáveis pelos investimentos de private equity da gestora pediram demissão. Segundo pessoas próximas a eles, o principal motivo da saída dos executivos foi financeiro: estavam insatisfeitos com a distribuição dos ganhos gerados pelos fundos da Gávea.

Reclamavam, principalmente, da falta de regras claras e da lentidão para aumentar sua participação. “A Gávea sempre foi conservadora”, diz um executivo da concorrência. Para Amaury Bier, sócio que assumiu o comando da área de private equity da gestora em agosto, “a insatisfação não tem fundamento objetivo”. “Nossa estrutura de remuneração é clara desde 2011 e pagamos em linha com o mercado. Mas queixas são comuns”, diz.

A principal forma de remunerar executivos nesse mercado é dar a eles uma participação nos lucros obtidos com a venda das participações em empresas. É possível que alguns desses profissionais tivessem decidido ficar na Gávea se o mercado estivesse numa fase melhor — e houvesse alguma perspectiva de os fundos darem bons retornos em dólar, a moeda sonante no mundo do private equity.

Com a desvalorização do real, porém, atingir a meta de retorno — e receber bônus — ficou bem mais difícil. A Gávea captou seu maior fundo de private equity, de 1,9 bilhão de dólares, em novembro de 2011, quando o dólar estava abaixo de 2 reais (hoje, está em torno de 4 reais).

Bier e Fraga dizem que a saída dos executivos foi motivada por questões particulares de cada um — Piero Minardi, por exemplo, um dos antigos sócios responsáveis pela área, tornou-se o principal executivo da gestora de private equity Warburg Pincus no Brasil (“na estrutura societária da Gávea, ele não tinha chance de virar o número 1”, diz Bier).

Para recompor a equipe, a Gávea contratou apenas duas pessoas: um analista e o executivo Marcelo Albuquerque, que fazia parte da área de investimentos próprios do banco Santander. Também promoveu quatro analistas a gestores. Além disso, Fabio Barbosa, ex-presidente do Santander e da Abril Mídia (que publica EXAME), tornou-se sócio conselheiro da Gávea e passou a integrar o comitê de private equity, com a função de auxiliar na gestão das empresas que recebem investimentos. “É preciso ser ainda mais cuidadoso na escolha das empresas agora. Não temos mais aquele vento a favor, que favorecia o crescimento”, diz Barbosa.

O grande acerto do private equity da Gávea foi o investimento na Arcos Dorados, dona da rede de lanchonetes McDonald’s, em 2007: o valor inicial aplicado foi multiplicado por 10 na abertura de capital, quatro anos mais tarde. O maior prejuízo foi o aporte feito na empresa de transportes aéreos BRA, que está em recuperação judicial.

Mas a empresa tem outros investimentos que dificilmente darão o rendimento esperado — como a companhia de sondas Odebrecht Oil & Gas e a fabricante de alimentos Camil. A expectativa de retorno está no fundo captado em 2014, que já fez um investimento e está em meio a um processo de aporte numa companhia aberta. Hoje, a área de private equity tem 9 bilhões de reais sob gestão, e outros 7 bilhões de reais estão em fundos multimercados.

Estrela

A negociação para a recompra da Gávea mostra como é complicado comprar — e manter — uma empresa fortemente vinculada a alguma estrela do mercado. Pelo acordo fechado com o JP Morgan em 2010, Fraga deveria permanecer por cinco anos na gestora, prazo que termina agora.

Se decidisse sair, é possível que a Gávea perdesse clientes. Como ele resolveu recomprar, o JP Morgan achou melhor aceitar, e os detalhes da transação estão sendo negociados (procurado, o banco não deu entrevista). O banco Credit Suisse viu-se numa situa­ção parecida ao comprar a gestora Hedging-Griffo em 2006.

Luis Stuhlberger, sócio da Griffo e um dos melhores gestores de fundos do país, deveria permanecer no banco até 2015. Quando o prazo estava perto de terminar, negociou a criação de uma nova gestora, a Verde, que tem o Credit Suisse como sócio. O JP Morgan não deve virar sócio da Gávea, mas a recompra deverá ser paga com uma parcela das receitas da gestora, em alguns anos. “Essa recompra é um sinal de comprometimento, com o país e com a Gávea”, diz Fraga.

O JP Morgan, por sua vez, também está reavaliando sua participação em gestoras independentes e pode revender a Highbridge, adquirida em 2004. “Empresas de investimentos alternativos têm de ser capazes de tomar decisões rapidamente, o que é impossível numa instituição como o JP Morgan, que tem cerca de 240 000 funcionários”, afirma um executivo do banco. Isso não parecia ser um problema em 2010 — mas, como os brasileiros hão de atestar, tudo mudou de lá para cá.

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