Revista Exame
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O maior risco econômico somos nós

Se não há nada que o Brasil possa fazer para evitar a tempestade lá fora, o mesmo não se aplica quanto ao que fazer — e o que não fazer — por aqui para fortalecer a economia

Inflação em alta: As expectativas de mercado para o IPCA em 2011 estão no limite do teto da meta perseguida pelo Banco Central, que é de 6,5% e, com a alta do dólar, as previsões são de mais aumento nos preços (Alexandre Battibugli/EXAME.com)

Inflação em alta: As expectativas de mercado para o IPCA em 2011 estão no limite do teto da meta perseguida pelo Banco Central, que é de 6,5% e, com a alta do dólar, as previsões são de mais aumento nos preços (Alexandre Battibugli/EXAME.com)

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Fabiane Stefano, Patrick Cruz

21 de novembro de 2011, 17h41

São Paulo - O Brasil enfileirou na última década anos de crescimento econômico, em uma sequência que não experimentava havia 30 anos. Foi assim que milhões de famílias ascenderam da pobreza à classe média, um fenômeno que ampliou o consumo no mercado interno — o motor que manteve a máquina girando mesmo em 2008, no estouro da crise bancária americana.

Essa capacidade inédita de gerar bonança em larga escala é novamente posta à prova agora, quando o mundo se vê apreensivo com o drama da crise da dívida grega, o risco de colapso do euro, a reticência com a saúde financeira dos bancos europeus e a possibilidade de recessão econômica nas grandes potências.

Não é uma crise brasileira, mas não é possível ficar imune a ela. Na turbulência de três anos atrás, a economia do país sofreu uma desaceleração súbita. Dois trimestres consecutivos de freada foram suficientes para produzir uma retração — a economia, que vinha rodando ao ritmo anual de 7% em 2008, estancou a ponto de o produto interno bruto cair 0,6% em 2009.

Se daquela vez fomos pegos de surpresa, hoje a nuvem cinza está visível no horizonte. E o desempenho do país dependerá mais do que nunca do que for feito desde já para resolver questões locais, como a da ameaça da inflação, para reforçar os pilares econômicos.

Na maioria das projeções para 2012, a economia brasileira mantém um ritmo de crescimento bem abaixo do patamar mais robusto dos últimos anos. O cenário tido como mais provável contempla expansão de 3,5% neste ano e 3,7% em 2012 — vale lembrar que a taxa do ano passado foi de quase 8%.

Mas não se trata de um prognóstico ruim. No melhor dos mundos, o Brasil não só passa pela tormenta como também promove ajustes coordenados para um voo de longo prazo.

“Se esse momento de incerteza ajudar a esfriar o ciclo e a reduzir a inflação brasileira, essa pode ser uma boa coisa”, diz Jim O’Neill, chefe de pesquisa global do Goldman Sachs e criador do termo Bric, em referência a Brasil, Rússia, Índia e China. “É engraçado, mas a crise talvez possa ajudar o Brasil de uma forma inusitada.” 


Segundo a maioria das previsões, a nossa taxa de inflação seguiria dentro da meta e o desemprego manteria-se próximo a 6%, uma das taxas mais baixas da história. O crédito aumentaria 12% — menos que a expansão de mais de 20% nos últimos anos, mas ainda assim um número de matar os europeus de inveja.

O Brasil, sempre segundo esse cenário base, atrairia mais de 50 bilhões de dólares de investimento estrangeiro. Num cenário mais pessimista (e menos provável, acreditam os analistas), espera-se o aumento do desemprego para perto de 8% e crescimento do PIB em torno de 2%.

Há ainda uma terceira via tida como pouco factível, mas é contra ela que os economistas beijam seus terços e recitam aves-marias. Esse enredo supõe não apenas a moratória grega, o baque retumbante do sistema bancário europeu e a consequente secura no crédito internacional mas também o erro nas medidas a ser tomadas pelo governo brasileiro.

Essa conjunção de desastre externo com inabilidade interna poderia não apenas manter a inflação em alta, próxima de 6,5% — o teto da meta perseguida pelo BC —, mas até levar à recessão. Nesse cenário-catástrofe, haveria uma retração do PIB de 0,7% nos cálculos da consultoria Tendências.

As empresas reagem

Tateando a antessala de 2012, as empresas já refazem contas, adaptam estratégias e ajustam expectativas. A Kimberly-Clark, fabricante americana de produtos de higiene e limpeza, calcula que a alta do dólar já elevou seus custos entre 12% e 15% — a empresa utiliza derivados de petróleo como matéria-prima.

Para contrabalançar a despesa adicional, a Kimberly ampliou sua carteira de fornecedores. É uma forma de tentar negociar preços melhores. “Estamos atentos a essa pressão internacional desde julho e nos adaptamos a ela também com cortes de custos internos”, diz João Damato, presidente da Kimberly-Clark.


Mesmo sob a intempérie, porém, a empresa não mudou seus planos para os próximos cinco anos, que incluem a abertura de uma fábrica no Nordeste.

Os executivos do Minerva, que forma com JBS e Marfrig a trinca dos maiores frigoríficos de carne bovina do país, acreditam que podem até se beneficiar com as mudanças do câmbio registradas nas últimas semanas. “Com a alta do dólar, nossa competitividade no exterior cresce”, afirma Fernando Queiroz, principal executivo da companhia.

Também o governo precisa reagir — mas é aí que mora o perigo. Até agora, o Brasil não fez nenhum plano de contingência, como o adotado recentemente pelo Chile.

Lá, o governo anunciou medidas adicionais de austeridade no gasto público para 2012 — isso num país exemplar em termos de rigor com as contas públicas. Ao mesmo tempo, nossos vizinhos lançaram no início de setembro um bônus no mercado externo para reforçar as reservas (algo que o Brasil, com seus 353 bilhões de dólares, não precisa replicar).

O governo do Peru, por sua vez, antecipou para 2012 obras de infraestrutura inicialmente previstas para 2013 e 2014. Nesse sentido, os peruanos claramente se inspiram no exemplo chinês, que na última crise lançou o mais espetacular pacote de obras públicas de sua história. 

Quando se pensa num plano mais estruturado para enfrentar a turbulência, vale olhar para o que foi feito por aqui em 2008. É unânime a aprovação dos economistas à liberação de recursos feita pelo Banco Central do dinheiro depositado compulsoriamente pelos bancos.

Naquela época, o BC injetou 80 bilhões de reais no sistema financeiro quando a liquidez secou. A medida evitou que as linhas de crédito minguassem de vez e ajudou a reanimar a economia. Atualmente, o depósito compulsório já representa uma formidável reserva de 400 bilhões de reais, um trunfo em tempos de incerteza.

Por outro lado, é cada vez mais claro que a combinação de políticas de 2008 legou um alto custo ao país. Naquela época, o governo optou por afrouxar os gastos e mexeu pouco na taxa de juro. Economistas como André Lara Resende, um dos membros da equipe econômica que criou o Plano Real, insistem na necessidade de que se faça agora o oposto.


De acordo com a tese defendida por Lara Resende e outros economistas, a redução do gasto público teria permitido cortes mais acentuados na taxa básica de juro três anos atrás, com resultados igualmente eficazes — e mais perenes.

A política sugerida por Lara Resende está sendo parcialmente posta em prática. O Banco Central anunciou um ambicioso corte de juros em sua última reunião. Mas a ausência de uma estratégia consistente no front fiscal serviu apenas para realimentar incertezas inflacionárias.

Em fevereiro, o governo ceifou 50 bilhões de reais do orçamento deste ano. Mas a alegria durou pouco. Já está prevista a criação de ao menos 55 000 vagas no funcionalismo federal em 2012. A isso se somará o reajuste nominal de 14,4% do salário mínimo acertado para 2012, que ampliará os gastos previdenciários e de pessoal do governo.

“Mexer na regra de reajuste do salário mínimo seria benéfico em um momento como o atual, mas é preciso encarar o custo político disso no Congresso”, diz André Loes, economista-chefe do banco HSBC para a América Latina.

Os demais salários também estão em alta. Está em curso uma onda de greves, como a do Judiciário e a dos funcionários dos Correios, reivindicando aumentos acima da inflação. “A melhor medida no curto prazo é pensar no longo prazo”, diz Márcio Garcia, professor de economia da PUC-RJ. “É errado expandir-se na área fiscal, que cria inflação no curto prazo e no longo aumenta o gasto público.”

E há um fator novo de preocupação, que se soma a problemas de longa data, como a infraestrutura precária do país: as novas lufadas de protecionismo. O governo decidiu recentemente elevar o imposto sobre carros importados. O argumento oficial foi que a decisão visa preservar empregos e estimular investimentos locais em inovação.

Mas fora do discurso governamental houve outras leituras. “Em outras épocas, fechar a economia com o pretexto de estimular a produção interna sempre acabou em atraso tecnológico e perda para empresas e consumidores”, diz Marcelo Moura, professor de economia da escola de negócios Insper, de São Paulo.

Os observadores temem que outras medidas do gênero ratifiquem a suspeita de que o país está mesmo em um momento protecionista, e muito em razão do flanco que se abre para retaliações.


A China, de onde chegam carros de montadoras como JAC e Chery, duas das mais prejudicadas pelo aumento do imposto, poderia, por exemplo, dar o troco sobre exportadores brasileiros. “A lógica protecionista é perversa”, diz Garcia. “Onde falta o pão, todos gritam e ninguém tem razão.”

O Brasil tem uma das economias mais fechadas do mundo. Segundo estudo do World Economic Forum, que leva em consideração os quesitos infraestrutura, acesso a mercados, administração de fronteiras e ambiente de negócios, Singapura, Hong Kong e Dinamarca são, nessa ordem, as três economias mais receptivas a estrangeiros.

No mesmo levantamento, que avalia 125 nações e leva em consideração dados de 2010, o Brasil aparece na 87a posição. “O Brasil já agia de forma protecionista antes do risco de recessão nos Estados Unidos.

Eu preferia ver o país promovendo o crescimento de suas indústrias por meio do investimento em capital humano, e não via política industrial”, afirma Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley. É nesse quesito que reside outra das exigências de longo prazo que a crise atual torna mais urgentes: o investimento em educação.

Nomes graúdos, como Eichengreen, dizem que o nível médio da mão de obra brasileira era um ponto frágil em 2008, continua como calcanhar de aquiles em 2011 e deverá permanecer com esse status pouco lisonjeiro por muitos anos se os avanços não forem mais rápidos.

A crise de 2011, nascida de problemas das dívidas de países europeus, tem raízes mais profundas do que a de 2008, deflagrada no sistema bancário americano. Mas nesta, como naquela, o Brasil tem ferramentas para agir no curto prazo e repensar seu caminho no longo.

Marco Stefanini, presidente da Stefanini, empresa de tecnologia da informação, diz que a turbulência externa não necessariamente é sinônimo de prejuízo para as empresas brasileiras.

“Crescemos 90% entre 2007 e 2009 e hoje temos 5 000 funcionários fora do Brasil.” Podem ser tempos de incredulidade, podem ser tempos de fé — e entre a primavera da esperança e o inverno do desespero, como escreveu Charles Dickens, o país tem um mundo de opções diante de si.