No pico da sua força, na Segunda Guerra, o Estado detinha o monopólio da informação, da economia e da violência legítima. Não tem mais (Tatiana Lobanova/Getty Images)
Economista
Publicado em 27 de maio de 2026 às 06h00.
Almere, pequena cidade holandesa, 15 de dezembro de 2015. Ali Motamed, um eletricista na empresa de energia Eneco, saía para trabalhar quando foi baleado na nuca numa execução profissional que deixou a polícia local atônita. Anos mais tarde, a investigação daria respostas surpreendentes. Ali Motamed não era um simples eletricista. Era um oposicionista iraniano que tinha vivido discretamente em Almere por mais de 15 anos, descoberto e executado por sicários ligados a traficantes de drogas locais. E quem teria ordenado a morte? O regime de Teerã.
Em 2022, a Ucrânia pediu a Elon Musk que ativasse o Starlink na costa da Crimeia para guiar um ataque de drones submarinos contra a frota russa. Musk recusou. Um Estado soberano em guerra de sobrevivência viu uma operação militar crítica bloqueada pela decisão unilateral de um empresário privado. Uma decisão sem recurso.
Quando os EUA e Israel lançaram a Operação Epic Fury, em 28 de fevereiro de 2026, o Irã respondeu atingindo mais de 100 alvos em pelo menos 11 instalações militares americanas em sete países. Pistas de aterragem, sistemas de radar avançados, dezenas de aeronaves, hangares, quartéis-generais e infraestrutura de comunicações por satélite foram destruídos.
Os Estados estão sendo espremidos num sanduíche. Por cima, conflitos militares entre grandes potências regressam com uma frequência que não víamos desde meados do século 20. Por baixo, o poder que os Estados acumularam durante 200 anos escoa silenciosamente para outros. Os grandes Estados drenam poder para os menores. E todos eles perdem poder para entidades que não respondem perante ninguém.
O grande paradoxo do conflito entre Estados é que nunca na história o retorno de conquista foi tão baixo. A grande riqueza de Taiwan é a sua produção de chips avançados. Se a China conquistar o país, tomará posse das plantas industriais. Mas elas, mesmo se intactas, são uma pequena fração do ecossistema tecnológico que permitiu a Taiwan liderar esse setor. Esse ecossistema é intangível, constituído por pessoas e conexões que desaparecerão ao primeiro sinal de conflito. O “hardware” dos países é o seu território, recursos e infraestrutura. Mas o seu valor depende do “software” — talento, capital e ligações globais que são elementos de grande mobilidade e que escapam por entre os dedos do invasor.
Ao mesmo tempo que Estados concentram crescentemente recursos numa competição cada vez mais abertamente confrontacional entre si, ameaças e atores fora de qualquer controle emergem no horizonte. Entre 602 e 628 d.C., Bizâncio e a Pérsia Sassânida, as duas superpotências do mundo mediterrânico, destruíram-se mutuamente numa guerra de 26 anos drenando exércitos, tesouros e legitimidade de ambos os lados. A Pérsia chegou a ocupar Jerusalém e o Egito; Bizâncio recuperou tudo num contra-ataque épico. Quando os exércitos árabes saíram da Península Arábica, na década de 630, encontraram dois impérios exaustos e incapazes de resistir.
Hoje, à escala global, não é um povo carregando uma ideo-logia nova que ameaça o poder existente, e sim tecnologias que baixam dramaticamente a barreira de entrada para o exercício de poder econômico e bélico por parte de atores não estatais, sejam eles corporações trilionárias na vanguarda- da inovação tecnológica, sejam entidades criminais que têm ao alcance da sua mão recursos e um poder de causar dano à sociedade sem paralelo. Por exemplo, e trazendo para a nossa realidade, o PCC, que durante décadas exerceu domínio territorial por meio da violência física, tem hoje ao seu alcance drones de ataque, ferramentas de IA para planejamento operacional e cripto para financiamento que escapam a qualquer rastreio. O que era monopólio de Estados e exércitos está se tornando acessível a qualquer organização com recursos e determinação suficientes.
Os Estados sofrem hoje para regular, taxar e, acima de tudo, mobilizar. A Ucrânia, numa guerra de sobrevivência existencial, não chegou sequer a tentar a mobilização geral. Em 2024, dos 11 milhões de homens em idade militar obrigados a atualizar o registro, 6 milhões ignoraram a obrigação. Putin chama a invasão total de “operação militar especial”. Trump nunca declarou guerra ao Irã. Nenhum quer pedir à sua população o sacrifício que a guerra real exige — porque sabem qual será a resposta. Estamos regressando, à escala global, a algo que se assemelha ao mundo medieval: reis que controlavam pouco território, dependiam de senhores feudais para mobilizar exércitos e coexistiam com atores não estatais — a Igreja, as ordens militares, as cidades-estados comerciais — com poder autônomo e lealdades próprias.
O Estado absolutista e, depois, com Napoleão, o Estado-nação foram a resposta histórica a essa fragmentação. No pico da sua força, na Segunda Guerra Mundial, o Estado detinha simultaneamente o monopólio da informação, da economia e da violência legítima. Hoje, detém apenas parcialmente o terceiro. Os dois primeiros escaparam-lhe — para corporações, para atores não estatais e para a economia global integrada.
Para empresas e investidores, o enquadramento mais útil para navegar este mundo é reconhecer que existem hoje duas realidades paralelas. Uma organizada, regulada e relativamente previsível, herança dos últimos 80 anos. E outra caótica, sem hierarquia clara e profundamente instável, que cresce alimentada pela tecnologia e pela erosão do poder estatal. A fronteira entre as duas é cada vez mais porosa. Ignorar a segunda porque os negócios ainda decorrem majoritariamente da primeira é o erro estratégico mais comum — e mais caro — do momento. O que acontece com impérios e ordens estabelecidas raramente é um novo equilíbrio, mas, pelo contrário, caos e instabilidade numa jornada que ainda tem um longo caminho a percorrer.
Num dos livros mais proféticos deste século, O Fim do Poder, publicado em 2013 — bem antes do surgimento em força da inteligência artificial —, o venezuelano Moisés Naím argumenta que o poder está se tornando simultaneamente mais fácil de obter, mais difícil de exercer e mais fácil de perder. Em 1938, o filósofo britânico Bertrand Russell escrevia que “o conceito fundamental nas ciências sociais é o Poder, do mesmo modo que a Energia é o conceito fundamental na física”. Se Russell tiver razão, o que estamos vivendo não é apenas uma crise geopolítica. É uma crise de física social. E ainda estamos por descobrir as equações deste novo mundo.