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Fertilizantes sobem 30% e reacendem alerta sobre dependência do Brasil

A alta no preço dos fertilizantes com a guerra no Irã reacende o debate sobre a ambiciosa produção nacional

Aplicação de fertilizante no campo: soja, milho e cana-de-açúcar respondem por 73% do consumo no Brasil (Evaristo Sa/AFP/Getty Images)

Aplicação de fertilizante no campo: soja, milho e cana-de-açúcar respondem por 73% do consumo no Brasil (Evaristo Sa/AFP/Getty Images)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 19 de março de 2026 às 06h00.

Uma sensação de déjà vu tomou conta do agronegócio brasileiro no início de março. Uma guerra em um país distante fez os preços dos fertilizantes — principalmente da ureia — saltarem mais de 30%.

A situação remete a 2022, quando a Rússia, um dos principais fornecedores globais de insumos, invadiu a Ucrânia. Agora, o tema volta ao radar com a escalada do conflito no Irã. À medida que os preços avançam, um assunto que também ganhou força há quatro anos volta à tona: o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF).

Lançado em 2022 como resposta do Brasil para reduzir a dependência das importações de fertilizantes, o PNF tem uma meta ambiciosa: diminuir de 85% para 50% a participação dos insumos importados no consumo nacional até 2050. Mas, se a meta é ambiciosa, os passos para alcançá-la foram modestos nos últimos anos, avalia Bruno Fonseca, analista de insumos do Rabobank Brasil.

“Algum avanço o país e o setor tiveram, mas menos do que era preciso”, diz. Segundo ele, a construção de fábricas de fertilizantes exige grandes investimentos, e o contexto de juros altos no Brasil, na casa dos dois dígitos desde 2022, atrelado à agenda política, fez o PNF andar a passos curtos. Mas ainda assim andar.

“Foi um grande acerto não tentar mirar a autossuficiência. Mirar a redução total das importações faria o plano nascer quase inviá-vel”, afirma.

Daqui a 2050

O tamanho da produção agrícola do Brasil ajuda a dimensionar a magnitude dessa dependência.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima em 353 milhões de toneladas a safra brasileira de 2025/26, com soja e milho liderando a produção de grãos. Essas culturas, somadas à cana-de-açúcar, respondem por 73% do consumo total de fertilizantes no país.

Em 2025, o emprego total desses insumos chegou a 49 milhões de toneladas, alta de 7,7% em relação a 2024. Desse volume, 43 milhões de toneladas foram importadas, segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).

A produção nacional, por sua vez, somou 7 milhões de toneladas, avanço de 2,5% em relação ao ano anterior, mas ainda 6,5% abaixo do registrado em 2022 (veja quadro). Entre os principais fornecedores para o Brasil estão China, Rússia, Nigéria e Oriente Médio.

Para o diretor-executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), Bernardo Silva, o PNF avançou em frentes institucionais, mas ainda sem efeitos imediatos sobre a oferta doméstica.

“O que existe é uma combinação entre avanços institucionais reais e uma conjuntura internacional extremamente adversa, que exige, além da agenda estrutural, medidas emergenciais de alívio de custo e estímulo ao investimento”, diz.

Nos cálculos do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), há previsão de investimentos públicos e privados acima de 25 bilhões de reais até 2030, montante que deve reduzir a dependência externa para menos de 70% até o fim desta década. Para Silva, do Sinprifert, o avanço do plano depende de movimento político para atingir a meta.

“É preciso coordenação política de alto nível e um ambiente que favoreça investimentos. Fertilizantes não são tema de um único ministério e exigem integração entre áreas”, diz. A proposta do PNF tem potencial; agora resta saber se germinará até 2050.  

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