“O sinal é a verdade. O ruído é o que nos distrai da verdade". O famoso autor norte-americano Nate Silver descrevia assim o ruído estatístico, o acaso que confunde quem tenta prever. Mas, hoje, temos barulho e ele não é aleatório. Ele tem autor. E a nossa realidade geopolítica está cheia dele. Tweets, declarações bombásticas, clips de IA. Trump é exuberante no barulho.
Há outras forças políticas no mundo que também o usam como forma de submergir a realidade o que num tempo dominado pela mídia social se revela uma fórmula política extremamente eficaz.
Mas em matérias de guerra e paz e dinheiro são os sinais que contam e eles estão apontando claramente para um colapso continuado da confiança na liderança global dos EUA em várias dimensões e um agravamento das tensões geopolíticas que pressagiam mais conflito no mundo.
Enquanto Scott Bessent se multiplicava em agosto em entrevistas falando sobre o Dia D das sanções financeiras sobre o Irã, da fortaleza do mercado financeiro norte-americano e de que a marca a que se chegou de 40 Trilhões de dólares de dívida não tinha “nada de mágico”, o Banco Central Holandês retirou as suas reservas de ouro dos EUA se juntando a franceses que o tinham feito no início do ano.
O fundo soberano norueguês, o maior do mundo, quer reduzir de forma expressiva a sua alocação de títulos de tesouro norte-americanos. Os dois atos escondidos atrás de linguagem técnica e anódina são sinais claros. O risco de confisco de reservas soberanas de aliados deixou de ser visto como impossibilidade bem como investidores de primeira linha começam a achar que a política económica dos EUA está de fato no terreno do realismo mágico.
No dia seguinte à declaração de Bessent, o Tesouro duplicou as recompras de títulos de longo prazo para conter o mercado. O barulho e o sinal, no mesmo prédio, com vinte e quatro horas de intervalo. Mas eles estão também seguindo outros sinais do país.
Não estão reagindo a declarações especificas sobre a Groenlândia, mas à chegada recente à revelia das autoridades locais de equipamento de exploração petrolífera de uma empresa dos EUA, não à mudança do nome do Lago Ontário, mas ao apoio político aos independentistas da província de Alberta e não também aos insultos diplomáticos aos países europeus, mas ao financiamento de entidades no Continente que são ostensivamente contra a existência da própria União Europeia. Para um tesoureiro brasileiro que tenta avaliar o risco de custódia sobre ativos americanos, três investidores soberanos europeus têm a resposta.
Em agosto, o porta aviões Abraham Lincoln foi finalmente revezado no Golfo Pérsico. Quase dez meses ininterruptos no mar, entre queixas da tripulação sobre esgotamento e falta de suprimentos essenciais. Não há maior símbolo da projeção de poder dos EUA que os 11 porta aviões da sua marinha e é com eles que Trump conta para bombardear o Irã ou diariamente anunciar o estrangulamento econômico daquele país. Mas porta aviões dependem de logística e de bases pelo mundo que aliados dos EUA disponibilizam acesso.
Só no Oriente Médio estão em 7 países e neste momento o Irã interditou ou danificou todas elas obrigando a frota a ser abastecida a mais de 4000 km de distância a partir da longínqua base de Diego Garcia. Existe um velho ditado militar que amadores falam de estratégia e profissionais de logística. E os profissionais da cúpula militar norte-americana vazaram na imprensa que o presente esforço militar no Golfo é insustentável. A logística é o sinal.
Alianças e compromissos militares vivem de credibilidade. De sinais claros. Elas são dissuasoras quando o adversário acredita nos compromissos que as ligam. Para os fundadores da OTAN, as ambiguidades e falta de compromisso de passadas alianças tinham conduzido o continente para duas guerras mundiais.
Em 1914, a ambivalência do compromisso militar britânico com a Bélgica iludiu os alemães sobre a possibilidade de uma guerra limitada a Oeste. Na antecâmara da segunda guerra, Hitler explorou com habilidade a falta de firmeza estratégica e de solidez das garantias à soberania da Tchecoslováquia. Por isso, quando a OTAN foi criada, vários mecanismos foram desenhados para a tornar crível.
Comando militar único, equipamento integrado e tropas dos EUA baseadas no Continente que sinalizavam com o seu potencial sacrifício o compromisso dos EUA. Durante 80 anos, este edifício manteve frio um potencial conflito com a URSS e mesmo agora com a invasão total da Ucrânia, uma guerra com países da OTAN se manteve como um risco possível, mas não iminente. Mas a situação está mudando.
O ruído de ameaças russas sempre esteve presente desde 2022, nas declarações histriônicas do ex-presidente Medvedev ou dos propagandistas de plantão da TV russa. Mas agora os sinais estão mudando. Potencial mobilização em larga escala, o regime entender que um estado de guerra permanente é mais favorável à sua sobrevivência que a paz, tropas norte coreanas envolvidas na guerra e operações cada vez mais arriscadas contra o Ocidente como aquela que ocorreu no aeroporto de Leipzig onde a sorte evitou o pior.
Mais do que o conteúdo da visita do Diretor da CIA a Moscou no final de agosto, a sua visita pretendia ser o sinal de que um ataque a território da OTAN não seria tolerado. Mas os russos estão olhando outros sinais da Administração e todos eles apontam para outro lado. E é na volta da ambiguidade que arriscar um alargamento da guerra contra a Ucrânia se torna atrativo para a Rússia.
Em Bletchley Park, durante a Segunda Guerra, a máquina alemã Enigma era tida como indecifrável. Alan Turing e a sua equipe não a quebraram atacando a matemática do sistema. Exploraram os hábitos previsíveis dos operadores alemães. A saudação que abria cada mensagem, o boletim meteorológico que repetia a palavra "tempo" na mesma posição todos os dias. Onde o inimigo julgava produzir ruído perfeito, deixava afinal um sinal. A vitória não esteve em ter mais informação. Esteve em saber, no meio do ruído, onde olhar. Para empresas e investidores hoje, o desafio é hoje o mesmo.