GameStop e dogecoin são o rock da geração que está mudando o mercado

A adrenalina de uma guitarra a todo volume cedeu vez à emoção de ganhos ou perdas com ativos que não são levados a sério
 (Niege Borges/Exame)
(Niege Borges/Exame)
Por Por Michael P. Regan e Kriti Gupta da Bloomberg BusinessWeekPublicado em 17/06/2021 05:33 | Última atualização em 16/06/2021 18:43Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Foi um ano esquisito para a velha guarda da indústria dos mercados financeiros. Considere o que fez mais barulho: uma grande alta no dogecoin em meio a especulações de que o fundador da Tesla, Elon Musk, daria um impulso à criptomoeda durante sua participação como apresentador do programa Saturday Night Live. A pandemia e a recuperação nascente dela deram uma sacudida violenta nas bases de valores dos preços de ativos em todos os lugares. No entanto, ao mesmo tempo, outra coisa está acontecendo: o valor de diversão de alguns ativos está inegavelmente emergindo como um dos motivos pelos quais os investidores têm botado seus preços mais para cima.

O dogecoin, que começou como uma piada baseada em memes sobre um cão falante com um vocabulário limitado, não é nem de longe o primeiro caso. Memes engraçados também desempenharam um grande papel no frenesi nas ações da GameStop­ e de outras empresas que os participantes do fórum WallStreetBets, da rede social Reddit, prometeram mandar “até a Lua” no início deste ano. Mesmo depois de a mania do Reddit ter passado, a GameStop está em alta de mais de 750% neste ano — um retorno que teria exigido que um investidor no S&P 500 comprasse e segurasse o índice durante cerca de um quarto de século. Em outros lugares, a histeria sobre os tokens não fungíveis, ou peças de arte digital que vivem na tecnologia blockchain e, em alguns casos, são vendidas por milhões de dólares, talvez seja o exemplo mais puro.

O resultado é que os mercados financeiros de terno e gravata — com seus fundos de índice de ações puritanos e rendimentos de títulos quase zero a zero — parecem chatos comparados ao show que esses novos ativos dão. Mesmo depois de uma venda de ações de tecnologia chacoalhar os mercados tradicionais, o movimento nem se compara ao aumento e à queda das criptomoedas e das ações de memes desde o início deste ano.

“Bitcoin é o rock ‘n’ roll desta geração”, diz o título de um relatório do estrategista Marko Papic, do Clock­tower Group, que fornece capital semente a fundos de investimento. A comparação com os baby boomers pode causar olhares para o teto entre a geração mais jovem. No entanto, é fácil notar as semelhanças entre o proselitismo anti-statu quo dos adeptos da criptomoeda e aquele dos fanáticos “nunca confie em ninguém com mais de 30 anos” da era de ouro do rock. A adrenalina de uma guitarra a todo volume foi substituída pela emoção de ganhos ou perdas de investimentos superdimensionados. O dogecoin, por sua vez, é talvez a música disco desta geração — só está aqui pela bagunça e não está interessado em ser um revolucionário.

Na manhã em que Musk se preparava para apresentar o SNL, o valor total de mercado do dogecoin chegou a mais de 94 bilhões de dólares — mais do que cerca de quatro quintos das empresas no S&P 500. Quanto maiores esses tipos de ativos especulativos se tornam, mais influentes eles são nos mercados tradicionais. O impacto do dogecoin tem sido tão grande que muitos o culpam pelo enfraquecimento das ações da Coinbase Global, a maior bolsa de criptomoedas.

Embora provavelmente haja um fundo de verdade em uma metáfora como “rock ‘n’ roll desta geração”, também é verdade que os apetites por estratégias “fique-rico-agora” não respeitam os limites geracionais. A adoção do dogecoin por tipos como Musk, Mark Cuban e Snoop Dogg deixa claro que este estranho capítulo na história do mercado não é só uma história sobre os caprichos da juventude. A moral dessa história é principalmente o que acontece quando grandes quantidades de dólares descartáveis criadas por pagamentos de estímulos governamentais, auxílio-desemprego ampliado e taxas de juro no fundo do poço encontram um conjunto limitado de oportunidades para gastar nas fontes tradicionais de entretenimento. Um ano depois de começarem os lockdowns da covid-19, o índice de poupança pessoal nos Estados Unidos era cerca de três vezes maior do que o registrado antes da pandemia.

Quanto ao dogecoin, a explosão da criptomoeda não durou muito depois de Musk fazer sua aparição no SNL. No domingo de manhã, depois de um analista financeiro interpretado por Musk admitir no programa que “é uma aventura”, o valor da moeda tinha caído quase 40% de seu pico.

*Tradução de Fabrício Calado Moreira