Plantação de arroz no Rio Grande do Sul: no Sul do Brasil, o El Niño costuma trazer volumes maiores de chuva, o que pode provocar inundações, erosão do solo e aumento de doenças nas lavouras (Nelson Almeida/AFP/Getty Images)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 19 de março de 2026 às 06h00.
As primeiras projeções para a safra 2025/26 indicavam apenas a presença de La Niña, o resfriamento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. O cenário se confirmou e a La Niña deve persistir até julho.
Mas o que ninguém esperava nem queria aconteceu: no começo de março, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou a projeção da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) e afirmou que haverá o El Niño, aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, a partir do segundo semestre de 2026.
Caso se confirme, o fenômeno pode afetar negativamente tanto a reta final da safra atual quanto o início do ciclo agrícola 2026/27, que começa oficialmente em 1o de julho. O efeito pode ir de quebra de safras a uma pressão nos preços dos alimentos — em pleno ano eleitoral.
No Brasil, um país continental, os desdobramentos do fenômeno não são uniformes. “Podemos ter chuvas mais excessivas, uma vez que os extremos climáticos ficam mais exacerbados”, diz Bárbara Sentelhas, CEO da Agrymet.
No Sul do país, aponta Sentelhas, o El Niño costuma trazer volumes maiores de chuva, o que pode provocar inundações, erosão do solo e aumento de doenças nas lavouras, e até mesmo perda de produtividade, em decorrência da maior incidência de pragas e do excesso de água.
No Nordeste, por outro lado, o fenômeno tende a reduzir as chuvas e a provocar seca, degradação de pastagens e queda na disponibilidade de água para irrigação, afetando culturas como feijão e milho. No Centro-Oeste, o impacto direto costuma ser menor – embora as temperaturas mais elevadas possam intensificar períodos secos e aumentar o risco de incêndios.
Segundo o meteorologista Willians Bini, diretor da Metos, os modelos mostram que o Pacífico já apresenta uma tendência de aquecimento, mas o fenômeno ainda está em formação.
“Mesmo quando existe um padrão histórico, os efeitos não se repetem exatamente da mesma forma a cada evento. É preciso cautela ao interpretar os impactos do fenômeno”, diz. Seja como for, o impacto pode acabar na mesa. Ao destrinchar os fatores de pressão para a inflação neste ano, o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) destacou o clima — e o possível El Niño — como um dos elementos de atenção para a subida dos preços dos alimentos.
O cenário ainda é de atenção e incerteza. O que dá para dizer com certeza: é mais uma camada de complexidade para quem está no campo.