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Dois jeitos de ver a globalização

Em duas obras de fôlego, os economistas Stiglitz e Mishkin duelam sobre benefícios e malefícios da integração dos mercados

Distrito financeiro de Xangai: conectado com o mundo

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Da Redação

Publicado em 19 de junho de 2012 às 14h33.

São Paulo - Poucos metros separam os escritórios dos professores Joseph Stiglitz e Frederic Mishkin no elegante prédio que abriga a faculdade de economia da Universidade Columbia, em Nova York. A distância que os divide no mundo das idéias, no entanto, não poderia ser maior, como atestam os livros que ambos acabam de lançar sobre o mesmo fenômeno, a globalização. </p>

Pesos pesados do meio acadêmico americano -- destaque para Stiglitz, detentor do prêmio Nobel de economia de 2001 --, os economistas traçaram um retrato de como enxergam o momento atual, mas a fotografia que apresentam ao leitor é das mais distintas. Sob a ótica de Stiglitz, o avanço acelerado da globalização na última década terminou por produzir um mundo mais instável e injusto.

Já Mishkin apresenta uma visão francamente positiva dos rumos do planeta -- para ele, a crítica que se pode fazer é que a globalização está demorando para chegar a todos os campos da vida econômica.

Certamente será a obra de Stiglitz a que mexerá mais com os ânimos nos debates sobre a globalização. Nos últimos anos, o economista tornou-se uma das principais vozes contra os tradicionais alvos da esquerda: o governo americano, o Fundo Monetário Internacional, as multinacionais e os financistas de Wall Street. Sua fama decorre da posição única que desfruta.

Stiglitz é um economista do primeiro time -- a pesquisa que lhe rendeu o Nobel, sobre economia da informação, é leitura obrigatória para os profissionais do ramo. Além disso, esteve em posições de destaque nos últimos anos, tendo sido o principal assessor econômico do ex-presidente Bill Clinton e economista-chefe do Banco Mundial.

Mais recentemente, vem percorrendo o globo para divulgar suas idéias a governantes e organizações. A combinação de rigor acadêmico com experiência de poder faz dele um dos pensadores mais interessantes no campo dos críticos do sistema.

O principal argumento de seu novo livro, Making Globalization Work ("Fazendo a globalização funcionar", ainda não traduzido no país), diz respeito à forma como a globalização vem sendo comandada. Não sem uma boa dose de exagero, ele afirma que todas as decisões que importam hoje são determinadas pelas entidades mais poderosas do capitalismo, o que vem retirando a legitimidade do processo de integração em escala mundial.


Esse "déficit democrático" estaria na raiz dos muitos desequilíbrios atuais, uma vez que tudo estaria sendo feito para favorecer um mesmo grupo de países, empresas e pessoas. "Há algo de muito errado na forma como as decisões são tomadas no nível global", escreve Stiglitz. "O colonialismo morreu, e apesar disso os países em desenvolvimento não conseguem ter a representação que deveriam."

É o que se observa, diz ele, na forma como o comércio internacional tem funcionado. Todos os mercados que interessam às nações desenvolvidas tiveram reduzidos os obstáculos ao fluxo comercial nos últimos anos. Muito pouco se viu em termos de queda de barreiras em áreas que importam aos países emergentes, como na agricultura.

Como não há interesse por parte das potências econômicas -- Estados Unidos, União Européia e Japão -- em mudar essa situação, a aposta do autor é no fracasso de qualquer nova tentativa de liberalização. Na mesma toada, Stiglitz vê as demandas para avançar leis que protejam a propriedade intelectual como uma forma de as grandes multinacionais defenderem seus lucros. No caso da indústria farmacêutica, afirma, essa defesa tem levado à morte de milhões.

Um ponto forte do livro é o fato de ser propositivo. Stiglitz não apenas aponta o que enxerga de errado, mas arrisca várias soluções para os males do planeta -- ainda que muitas pareçam improváveis. Algumas idéias incluem abertura comercial unilateral de países ricos para os bens de nações mais pobres, maior flexibilidade para que trabalhadores possam migrar para os países líderes e criação de um tribunal internacional que julgue as acusações de dumping feitas às empresas do mundo emergente (muitas vezes mera desculpa para o protecionismo). Nem tudo se salva de suas sugestões.

O economista faz uma firme defesa do protecionismo como forma de apoio à indústria nascente do mundo emergente. Ignora, assim, décadas de malfadada experiência, especialmente na América Latina, onde o nacional-desenvolvimentismo feneceu pela absoluta incapacidade de produzir empresas aptas a competir na globalização -- não sem antes drenar um caminhão de dinheiro que poderia ter sido usado na melhoria de vida da população.

O livro de Mishkin, The Next Great Globalization ("A próxima grande globalização", também sem tradução para o português), é bem menos ambicioso e deve agradar a um público mais restrito. Seu foco é a abertura financeira, talvez a mais polêmica faceta no processo de integração dos mercados. A idéia central do livro é que a globalização não se completará enquanto não abarcar o setor financeiro, especialmente nos países em desenvolvimento.

É uma idéia provocativa, já que até mesmo economistas ortodoxos tendem a temer os efeitos da liberalização financeira num mundo de amplo movimento de capitais. O que os críticos não enxergam, diz Mishkin, são os benefícios potenciais da abertura financeira -- maior investimento por parte das empresas multinacionais, melhor alocação do capital entre as oportunidades oferecidas nas economias emergentes, evolução nas instituições econômicas necessárias para o capitalismo de ponta.

"Países em desenvolvimento não podem enriquecer a menos que se globalizem; precisam, em especial, globalizar o setor financeiro", escreve. Num ponto, pelo menos, os dois autores põem-se de acordo -- a globalização embute riscos que não devem ser subestimados. Como a experiência recente demonstrou repetidas vezes, se mal conduzida, ela efetivamente tem potencial de produzir desastres.

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