Répteis: estudo investigou origem da armadura óssea em lagartos (Unsplash)
Redatora
Publicado em 22 de maio de 2026 às 07h39.
Durante centenas de milhões de anos, diferentes grupos de répteis desenvolveram uma espécie de “armadura” natural formada por ossos na pele. A partir da nova descoberta, cientistas acreditam ter resolvido um antigo mistério evolutivo sobre como essa estrutura surgiu — e reapareceu — ao longo da história dos animais.
O estudo analisou mais de 600 espécies vivas e extintas e concluiu que os chamados osteodermos, placas ósseas que se formam na pele, evoluíram de maneira independente em diferentes grupos de lagartos e répteis, em vez de terem surgido apenas uma vez em um ancestral comum.
Os resultados da pesquisa foram divulgados na revista Biological Journal of the Linnean Society.
Os osteodermos são estruturas ósseas que se desenvolvem na pele de alguns animais, funcionando como uma espécie de proteção natural. Atualmente, eles podem ser encontrados em espécies como crocodilos, tartarugas e alguns lagartos.
No passado, estruturas semelhantes também existiam em dinossauros e em antigos vertebrados marinhos. Segundo os pesquisadores, os primeiros ossos desse tipo podem ter surgido há cerca de 475 milhões de anos — antes mesmo do desenvolvimento completo dos esqueletos internos dos vertebrados.
Para entender como essas estruturas evoluíram, os cientistas combinaram registros fósseis com modelos computacionais modernos capazes de reconstruir relações evolutivas ao longo de cerca de 320 milhões de anos.
A análise mostrou que diferentes grupos de lagartos desenvolveram osteodermos separadamente ao longo do tempo, principalmente entre os períodos Jurássico Superior e Cretáceo Inferior, há mais de 100 milhões de anos.
Segundo os autores, mudanças climáticas, novos predadores e ambientes mais hostis podem ter favorecido o surgimento dessa proteção óssea em várias linhagens diferentes.
Uma das descobertas mais curiosas do estudo envolve os varanos australianos, conhecidos popularmente como goannas. Os ancestrais desses lagartos teriam perdido completamente os osteodermos milhões de anos atrás. Mas, segundo os pesquisadores, a característica voltou a surgir posteriormente quando os animais passaram a ocupar ambientes mais secos na Austrália.
O estudo sugere que essa “re-evolução” da armadura pode ter ajudado os lagartos a reduzir perda de água e aumentar a proteção em regiões áridas.
Os cientistas afirmam que o caso dos varanos desafia parcialmente a chamada Lei de Dollo, hipótese clássica da biologia evolutiva segundo a qual estruturas complexas perdidas ao longo da evolução dificilmente voltariam a surgir.
Segundo os autores, os varanos australianos seriam um dos raros exemplos conhecidos de um grupo animal que perdeu uma característica anatômica complexa e posteriormente a readquiriu.
Para os resultados, os pesquisadores analisaram informações de 643 espécies, combinando dados anatômicos, fósseis e reconstruções evolutivas feitas por computador.
Segundo os autores, a computação moderna permitiu comparar milhares de cenários evolutivos diferentes até encontrar um modelo consistente para explicar o surgimento da armadura óssea nos répteis.
A equipe afirma que a descoberta pode ajudar futuras pesquisas sobre genética, desenvolvimento corporal e adaptação evolutiva em vertebrados.