O impacto de homens tomarem as decisões monetárias – e não as mulheres

Decisões monetárias, como pacotes de auxílio e incentivo a crédito, precisam ser tomadas com a consciência de que a pandemia afetou as mulheres. o problema: essa decisão está nas mãos dos homens
 (Cris Faga / Anadolu Agency/Getty Images)
(Cris Faga / Anadolu Agency/Getty Images)
Por Anita BhatiaPublicado em 29/07/2021 06:00 | Última atualização em 28/07/2021 22:36Tempo de Leitura: 6 min de leitura

A pandemia do novo coronavírus atingiu as mulheres de maneira especialmente dura, especificamente onde elas são mais vulneráveis: renda, saúde e segurança. As mulheres constituem a maioria dos trabalhadores em muitos dos setores de nossas economias que pararam no ano passado. Para piorar as coisas para elas, os sistemas de saúde cortaram ou atrasaram os serviços de saúde ginecológica e reprodutiva para agilizar o tratamento dos casos de covid-19. E os bloqueios e os toques de recolher coincidiram com o aumento nos números de violência doméstica.

Esses problemas prenunciam uma prolongada redução na capacidade das mulheres de ingressar na força de trabalho, pagar empréstimos, oferecer garantias ou abrir negócios. Pior, essas ameaças às economias nacionais podem se tornar permanentes, a menos que os formuladores de políticas ajam rapidamente. Isso inclui os bancos centrais, que possuem uma série de ferramentas eficazes para combater os piores efeitos da pandemia sobre as mulheres.

O problema, é claro, é que os bancos centrais são instituições notoriamente dominadas por homens. Historicamente, eles nunca fizeram do gênero uma prioridade na formulação e na execução de políticas que afetam as posições monetárias, a regulamentação bancária, o seguro de depósito bancário ou a emissão de títulos. A mudança desse padrão exigirá quatro mudanças no processo de formulação de políticas.

Primeiro, precisamos de pacotes de estímulos que atendam o gênero. Os governos responderam à crise com pacotes fiscais e auxílios monetários destinados a estabilizar a demanda agregada. Isso incluiu cortes de impostos, garantias de empréstimos, proteções salariais, descontos em contas de serviços públicos, suspensão de contribuições para a Previdência Social e transferências diretas de dinheiro. Os bancos centrais, por sua vez, expandiram seus balanços em níveis sem precedentes e em velocidade impressionante, emitindo dinheiro para comprar não apenas títulos do governo mas também ativos financeiros corporativos. Em muitos países, especialmente nas economias avançadas, a resposta geral foi maciça porque precisava ser.

Mas os dados coletados por meio do Rastreador de Resposta Global de Gênero da ­Covid-19 da ONU mostram que apenas alguns poucos países adaptaram suas políticas para atender às necessidades específicas das mulheres. O resultado foi uma recuperação mais lenta para todos. Enquanto o mundo se prepara para outra onda de estímulos e investimentos em reconstrução, é crucial que essas intervenções sejam planejadas não apenas com as mulheres em mente, mas com a participação das mulheres.

Em segundo lugar, as mulheres precisam de empréstimos, e os bancos centrais têm um importante papel a desempenhar na maneira como o crédito é direcionado a setores específicos. Portanto, é importante garantir que o financiamento chegue a setores onde a maioria das mulheres trabalha. À medida que mais mulheres perderem ou forem deslocadas em seus empregos — mesmo na economia informal —, os bancos terão de reavaliar e possivelmente reclassificar os segmentos de suas carteiras de empréstimos que atendem a mutuários do sexo feminino.

Esses segmentos — que abrangem hotelaria, hospedagem, alimentação, varejo, turismo, serviços domésticos, vestuário e outros setores em que as mulheres constituem a maioria da força de trabalho — são geralmente concebidos para ser “menos garantidos”. Mas, antes da pandemia, eles cresciam rapidamente nas economias emergentes e em desenvolvimento, especialmente entre os bancos locais. Esse crescimento foi impulsionado tanto por um compromisso com a igualdade quanto pelo potencial comercial de um grupo de clientes anteriormente ignorado. Se a recuperação falhar com as mulheres, a lucratividade dos bancos sofrerá.

Terceiro, os governos precisam de novas fontes de financiamento, porque os balanços fiscais foram dizimados pela pandemia. As dívidas públicas cresceram exponencialmente e precisarão ser roladas nos próximos anos, com os países soberanos competindo por financiamento nos mercados internacionais de títulos. Em busca de uma vantagem nessa competição, muitos recorrerão a títulos temáticos destinados às questões ambientais e de desenvolvimento social.

A secretária de Tesouro americano, Janet Yellen: exceção (Justin Talli / WPA Pool/Getty Images)

A demanda por esses títulos é grande e crescente, agora que mais de 3.000 instituições de investimento (com um total de 100 trilhões de dólares sob administração) assinaram os Princípios de Investimento Responsável patrocinados pela ONU. Mas, embora muitas empresas privadas e estatais tenham emitido “títulos de gênero”, nenhum país soberano ainda o fez. Isso deve mudar e, quando isso acontecer, os bancos centrais devem fazer parte do processo.

Finalmente, precisamos de melhores projetos. Os modelos de bancos centrais e as políticas que deles derivam podem ser tendenciosos e incompletos, porque se baseiam em suposições que ignoram as realidades de como as famílias consomem, poupam, investem, emprestam e trabalham. Por exemplo, a maioria desses modelos trata a participação feminina na força de trabalho como uma escolha binária entre trabalho e lazer, em vez de uma escolha ternária também envolvendo trabalho não remunerado, como cuidados infantis e domésticos.

Da mesma forma, as projeções de crescimento — e, portanto, de demanda por moeda e transmissão de taxas de juro — são construídas em sistemas de contas nacionais que não medem adequadamente a economia do setor de cuidados, em rápido crescimento, mas principalmente fora do mercado, onde as mulheres constituem a maior parte da força de trabalho. A pandemia, que levou a uma explosão da demanda por atendimento, transformou esse ponto fraco em uma grande lacuna.

Fed, nos EUA: manifestação (Stefani Reynolds / Bloomberg/Getty Images)

Em seu favor, os bancos centrais foram rápidos em reconhecer os desafios colocados pela mudança climática; e alguns já estão até mesmo defendendo soluções e liderando os esforços iniciais de reforma. Mas, embora as disparidades de gênero sejam um desafio igualmente sistêmico, os bancos centrais ainda precisam estabelecer parcerias semelhantes com defensores da causa da equidade de gênero. Essas parcerias são urgentemente necessárias para informar a concepção e a implementação de reformas globais e em nível nacional. Os benefícios — para mulheres e para homens — seriam enormes.

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(Arte/Exame)