Revista Exame

'Feito Pipa': a delicada redescoberta do sertão que busca uma vaga no Oscar 2027

Aposta do Brasil para o Oscar 2027, Feito Pipa contorna os clichês das narrativas do sertão brasileiro para falar de infância, memória e relações familiares

Feito Pipa: a aposta do Brasil para o Oscar 2027 (Biônica Filmes/Deberton Filmes/Paris Filmes/Divulgação)

Feito Pipa: a aposta do Brasil para o Oscar 2027 (Biônica Filmes/Deberton Filmes/Paris Filmes/Divulgação)

Luiza Vilela
Luiza Vilela

Repórter de Casual

Publicado em 28 de outubro de 2026 às 06h00.

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O sertão do Nordeste não é um pano de fundo estranho ao cinema brasileiro. Narrativas sobre a seca, a pobreza e as dificuldades do agreste fazem parte da história do país. Estão nos clássicos, de livros adaptados a novas séries contemporâneas. Em Feito Pipa, a nova aposta do Brasil para disputar o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2027, a região é tratada com muita doçura — e muitas nuances.

Gravado em Quixadá, no interior do Ceará, o novo longa de Allan Debertton (Pacarrete) foi lançado no Festival de Berlim, onde venceu dois prêmios. De lá para cá, tem conquistado estatuetas em outros festivais nacionais e internacionais. O filme conta a história de Gugu (Yuri Gomes), uma criança de 11 anos que começa a perceber que não cabe nos rótulos impostos ao próprio gênero. É apaixonado por futebol e tem também um amor profundo pela dança. Quer aprender a andar de moto e adora maquiagem, glitter e roupas cintilantes. É um menino complexo, descobrindo a própria identidade enquanto enfrenta as repressões de um pai conservador (Lázaro Ramos) e os olhares da cidade.

No centro da vida do garoto está a avó Dilma (Teca Pereira), com quem ele mora, um porto seguro de liberdade e afeto, que cuida dele e o acolhe sem julgamentos. Quando o Alzheimer começa a apagar as memórias da idosa — ao mesmo tempo que a seca faz emergir as ruínas de uma cidade submersa —, Gugu começa a entender que crescer abre espaço para novas perspectivas.

“Não é um filme de efeitos especiais ou grandes viradas; é um filme de conexão”, explicou Lázaro Ramos à ­Casual EXAME. “Olhar para esses personagens tão brasileiros sem colocá-los no lugar de estereótipo, respeitando a maneira como demonstram afeto, é um dos elementos que mais me comovem. Existe ali uma sensibilidade muito rara no cinema, que acredito que foi o que chamou a atenção do público internacional.”

A alma do filme está nas relações. Entre Gugu e a avó, claro, mas também e principalmente entre ele e o pai. Para Allan Debertton, a sutileza na interpretação dos personagens foi essencial para conectar essas relações com as metáforas que o filme apresenta na paisagem, nos figurinos e na trilha sonora, com destaque para Time after Time, de Cyndi Lauper.

“Eu gosto muito do cinema que se expõe por conta própria nos silêncios, na fotografia. E eu acho que Feito Pipa faz isso muito bem, parece muito mais simples do que realmente é”, contou o diretor. “O roteiro já trazia a fortaleza dessa história com personagens complexos. Quis trazer à direção esse toque de carinho, do crescer e da descoberta.”

Feito Pipa chega aos cinemas no dia 5 de novembro. Foi selecionado pela Academia de Cinema Brasileiro para uma vaga no Oscar do ano que vem. A organização do prêmio anuncia a short-list da categoria de Melhor Filme Internacional em dezembro.

Luiza Vilela, de Gramado (RS), a repórter viajou a convite da Persol


LIVRO

Meridiana, de Eliana Alves Cruz

Finalista do Prêmio Jabuti, a autora constrói aqui os detalhes profundos sobre o processo de ascensão social de uma família negra, com jornadas pessoais e distintas. Cada um dos personagens, da mãe aos filhos, conta a própria história em primeira pessoa e atravessa uma jornada em diferentes percepções e vivências.

Companhia das Letras — 52,40 reais (físico) e 34,90 reais (e-book)


MÚSICA

Best of Blues and Rock 2026

     

Chega ao Parque Ibirapuera, em São Paulo, o festival que celebra os gêneros blues e rock. Neste ano, a programação traz Chris Isaak, Christone “Kingfish” Ingram, Samuel Rosa, Artur Menezes e Vitor Kley.

20, 21 e 22 de novembro de 2026 — Parque Ibirapuera, Av. Pedro Álvares Cabral, s/n — Ingressos em http://www.ticketmaster.com.br/event/best-of-blues-and-rock-2026


TEATRO

Diálogo entre o tempo e o palco

Sob a direção de Elias Andreato, o clássico Quando Despertarmos de Entre os Mortos resgata a ficção tradicional das peças

Quando Despertarmos de Entre os Mortos: Maria Fernanda Cândido e Celso Frateschi em cena (João Caldas/Divulgação)

Cinco décadas depois de iniciar a trajetória no teatro, guiado pela crítica social, Celso Frateschi volta aos palcos com um olhar voltado para as dores da existência. Em Quando Despertarmos de Entre os Mortos, clássico derradeiro de Henrik Ibsen, em cartaz no Sesc Pinheiros, em São Paulo, o ator contracena com Maria Fernanda Cândido em uma reflexão sobre o tempo perdido, os custos da criação artística e as escolhas que anestesiam a vida.

Dirigido por Elias Andrea­to, o espetáculo marca o reencontro da dupla 25 anos depois de O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Na trama, o fracasso matrimonial de um escultor e o surgimento de sua antiga musa servem de pretexto para retomar o teatro narrativo e ficcional. A montagem aposta em cenografia clássica e atmosfera poética para discutir o desamor e a apatia.

A peça é dedicada à memória de Paulo Frateschi. Além dos dilemas individuais, a obra ganha contornos políticos ao expor o receio da classe cultural diante do avanço do conservadorismo no mundo e de novas ameaças à liberdade de expressão. Ex-preso político na ditadura, Celso Frateschi enxerga na obra de Ibsen um chamado urgente à humanidade, enquanto Maria Fernanda traz de Paris o incômodo com as fraturas da política internacional.


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