Revista Exame

A indústria é prioridade

Santa Catarina é uma força industrial que se reinventa e abrE mercados globais, mesmo com mudanças geopolíticas

Fábrica da Weg em Jaraguá do Sul: equilíbrio entre o potencial local e a vocação global (Leandro Fonseca /Exame)

Fábrica da Weg em Jaraguá do Sul: equilíbrio entre o potencial local e a vocação global (Leandro Fonseca /Exame)

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Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h00.

Última atualização em 27 de janeiro de 2026 às 14h15.

Santa Catarina ocupa um espaço singular no mapa industrial brasileiro. Relativamente pequeno em território e população, mas denso em capital produtivo, o estado construiu uma economia industrial capaz de atravessar ciclos econômicos, absorver choques externos e manter presença relevante no comércio internacional — mesmo em um mundo marcado por tensões geopolíticas, disputas tarifárias e a reorganização das cadeias globais de valor.

O atual desenho industrial catarinense é resultado de um processo longo e incremental. Diferentemente de outros polos industriais brasileiros, muitas vezes moldados por grandes projetos estatais, a origem da base produtiva de Santa Catarina se deu a partir de pequenas e médias empresas familiares, muitas delas fundadas por imigrantes europeus no fim do século 19 e início do século 20. Empresas têxteis no Vale do Itajaí, metalmecânicas no Norte, cerâmicas e mineradoras de carvão no Sul, madeira e móveis no Planalto e agroindústria no Oeste cresceram de forma descentralizada, ancoradas em capital próprio, reinvestimento contínuo e forte vínculo com suas localidades.

Dessa forma nasceram marcas proeminentes em suas áreas de atuação e que estão por aí até hoje facilmente reconhecidas no mercado. Em alguns casos, o controle mudou de mãos – como é o caso da fabricante de roupas Hering, da metalúrgica Tupy e da camisaria Dudalina. Outras mantêm a presença da família dos fundadores, como a cerâmica Portobello, a indústria de equipamentos de telecomunicações Intelbras e a fabricante de equipamentos elétricos e de bens de capital Weg. De um jeito ou de outro, são raras as exceções de quem deixou de ter operações em território catarinense.

Alexandre Wiggers, presidente da Condor: Santa Catarina será prioridade em novo ciclo de investimentos (Leandro Fonseca /Exame)

Nas últimas décadas, o modelo industrial passou por transformações profundas. A abertura comercial dos anos 1990 forçou ganhos de produtividade. Depois, os anos 2000 consolidaram a vocação exportadora do estado. Mais recentemente, a indústria catarinense avançou em automação, digitalização e produtos de maior valor agregado.

O resultado é um estado industrializado, que não depende de uma única âncora setorial — uma característica que se tornou vantagem estratégica em um cenário global cada vez mais volátil.

Diversificação como vantagem competitiva

Hoje, Santa Catarina abriga uma das estruturas produtivas mais diversificadas do país. Essa heterogeneidade permite que o estado responda de forma mais equilibrada a mudanças de conjuntura: quando um setor sofre impacto externo, outros conseguem se manter em expansão. “A diversidade produtiva cria uma massa crítica local de fornecedores, clientes e prestadores de serviço que ajuda a reduzir custos, acelerar decisões de investimento e estimular novos empreendimentos”, diz Pablo Bittencourt, economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc).

Esse ambiente de negócios é reforçado por características regionais bem definidas e por uma rede logística acima da média nacional. Portos como Itapoá, São Francisco do Sul, Itajaí, Navegantes e Imbituba conectam diretamente a produção catarinense aos principais mercados globais — no momento, as rodovias do estado passam por um processo de modernização que vai contribuir para a redução de gargalos históricos. O estado também se beneficia de uma força de trabalho qualificada, abastecida por escolas técnicas e centros de formação profissional que dialogam diretamente com as necessidades da indústria.

O efeito combinado desses fatores aparece nos números. Nos últimos anos, a produção industrial catarinense tem crescido acima da média nacional. As exportações mantiveram uma trajetória positiva.

O tarifaço aplicado pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros foi um duro golpe à indústria catarinense em 2025, que tem no mercado americano seu principal parceiro comercial — diferentemente de outros estados brasileiros, cuja economia é fortemente sustentada pelas commodities e que têm na China o principal destino de suas exportações. “A indústria catarinense sofreu com as tarifas, mas continua forte”, diz Bittencourt, da Fiesc. Segundo ele, economias regionais diversificadas como a catarinense tendem a se recuperar rapidamente das crises. “Se houve um lado bom no tarifaço, foi o de fazer muitas empresas catarinenses irem em busca de novos mercados, e os resultados gradativamente começam a aparecer”, diz Bittencourt.

Empresas globais e locais

Poucas empresas sintetizam melhor a boa posição que as indústrias ocupam na economia catarinense do que a Weg. Multinacional brasileira com presença industrial em mais de 15 países, a companhia construiu nos últimos 25 anos uma estratégia de internacionalização baseada na produção regionalizada, com fábricas próximas aos seus principais mercados consumidores na América do Norte, na Europa e na Ásia — mas sem renunciar à sua base catarinense.

Nos últimos cinco anos, a empresa investiu cerca de 5 bilhões de reais em expansão de capacidade e aquisições globais, tornando-se líder mundial em motores elétricos industriais. Ainda assim, Santa Catarina permanece no centro de sua estratégia. No ano passado, a Weg anunciou o maior investimento de sua história em uma única unidade produtiva, justamente no estado onde foi fundada. Será aplicado 1,1 bilhão de reais na construção de um novo parque fabril no Norte de Santa Catarina e no aumento da capacidade das fábricas de Jaraguá do Sul. Esses projetos têm o objetivo de ampliar o portfólio e a capacidade instalada da Weg Energia.

Obras da Casan, concessionária de água e esgoto do estado: investimentos para reduzir gargalos de infraestrutura em áreas como saneamento e rodovias (Leo Munhoz/Divulgação)

A lógica da empresa é pragmática: fábricas no exterior reduzem a exposição a barreiras tarifárias e conflitos comerciais, enquanto a base catarinense concentra engenharia, pesquisa e produção de alto valor agregado. Hoje, mais de dois terços das unidades fabris da empresa estão fora do Brasil, mas Jaraguá do Sul continua como núcleo tecnológico e estratégico. Em um ambiente global incerto, a combinação entre presença -internacional e enraizamento- local tornou-se uma vantagem competitiva.

A Condor, tradicional fabricante de produtos de higiene e limpeza com quase um século de história e sede em São Bento do Sul, no Planalto Norte de Santa Catarina, também se prepara para um novo ciclo de investimentos, focado na ampliação de centros de distribuição e unidades industriais. “Esses projetos ainda estão em fase de aprovação pelos nossos acionistas”, diz Alexandre Wiggers, presidente da empresa. “Santa Catarina é a prioridade absoluta para esses investimentos.”

Wiggers destaca os principais fatores que o fazem dar prioridade a Santa Catarina: previsibilidade regulatória, incentivos alinhados à economia circular e qualidade da mão de obra. Atualmente, cerca de 57% dos insumos utilizados pela Condor são reciclados, e contam com os benefícios fiscais de políticas estaduais que reduzem custos tributários e estimulam práticas sustentáveis. A proximidade entre as unidades produtivas, especialmente na região de São Bento do Sul, também gera ganhos logísticos e operacionais relevantes.

Mesmo avaliando alternativas fora do estado, a empresa mantém Santa Catarina como eixo central de sua estratégia de expansão. “É onde conseguimos combinar eficiência produtiva, capital humano e apoio institucional”, diz Wiggers.

Escritório da Intelbras em São José: empresas catarinenses crescem sem perder as raízes (Leandro Fonseca /Exame)

Política industrial pragmática

Do ponto de vista institucional, Santa Catarina se distingue por uma política industrial menos ruidosa e mais pragmática. Programas como Prodec e Pró-Emprego, aliados a regimes tributários voltados para a importação de insumos e a expansão produtiva, ajudam a reduzir incertezas em projetos de longo prazo — mesmo em um contexto nacional em que os incentivos fiscais são crescentemente limitados por acordos fiscais no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) e pela reforma tributária.

Para Bittencourt, da Fiesc, o diferencial está não apenas nos incentivos, mas na previsibilidade e na capacidade de diálogo entre governo e setor produtivo. Essa interação entre governo e setor produtivo tem sido particularmente relevante em momentos de choque externo, como o recente endurecimento tarifário dos Estados Unidos. Em vez de respostas genéricas, o estado buscou soluções setoriais e temporárias, reduzindo danos sem distorcer o ambiente econômico.

O resultado é um paradoxo raro no Brasil: Santa Catarina combina baixo desemprego, crescimento industrial acima da média nacional e forte inserção internacional, apesar de não contar com grandes metrópoles nem com a escala de estados mais populosos.

Um indicador ajuda a demonstrar como, na prática, se revela a força da indústria catarinense. No Atlas da Competitividade Catarinense, a Fiesc adaptou o Índice de Competitividade Industrial (ICI), desenvolvido pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido, na sigla em inglês), para comparar os estados brasileiros. Esse índice considera que o nível de competitividade industrial é a capacidade de ampliar presença nos mercados, avançar tecnologicamente e gerar valor econômico, conciliando produtividade, qualidade de vida e sustentabilidade ambiental. O índice combina duas dimensões centrais: a capacidade de produzir e exportar bens manufaturados e o grau de aprofundamento e sofisticação tecnológica da indústria.

Os resultados colocam Santa Catarina no topo do ranking nacional. Segundo a Fiesc, em 2021 o estado liderou o ICI, superando estados como São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná. Santa Catarina apresenta o maior valor adicionado da manufatura per capita do Brasil, estimado em 1.736 dólares por habitante (base 2015), além de exportações industriais per capita acima da média nacional. Em 2021, a indústria respondeu por 27,5% do Valor Adicionado Bruto (VAB) estadual, com a manufatura concentrando cerca de 78% desse total — a segunda maior participação industrial do país, atrás apenas do Amazonas, cuja estrutura é fortemente influenciada pela Zona Franca de Manaus.

De acordo com o mesmo estudo, o perfil industrial catarinense se aproxima do de economias emergentes e bastante competitivas, como Turquia, Índia e Indonésia — mercados com manufatura relevante e boa inserção externa, apesar de desafios persistentes em infraestrutura e avanço tecnológico. O diagnóstico sugere que Santa Catarina já opera em um patamar competitivo comparável ao de países em crescimento, com uma economia industrial integrada ao mercado global.

Até aqui, Santa Catarina foi capaz de sustentar um setor industrial competitivo e ágil para se adaptar às grandes transformações do mercado nas últimas décadas — e essas habilidades serão ainda mais necessárias nos próximos anos, num mundo cada vez mais complexo.

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