Revista Exame

Como a Nomad dobrou sua base de clientes em dois anos

Fintech passou de 1,5 milhão para 3,5 milhões de usuários ativos, reduziu o CAC e ampliou a receita no período

Thaís Souza Nicolau, diretora de marketing da Nomad (Leandro Fonseca /Exame)

Thaís Souza Nicolau, diretora de marketing da Nomad (Leandro Fonseca /Exame)

Juliana Pio
Juliana Pio

Editora-assistente de Marketing e Projetos Especiais

Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h00.

Em dois anos, a Nomad mais que dobrou sua base de clientes, de cerca de 1,5 milhão para 3,5 milhões de usuários ativos. O crescimento acompanha uma inflexão estratégica: a fintech deixou de se apresentar apenas como um cartão para viagens internacionais e passou a se posicionar como uma plataforma de gestão da vida financeira fora do Brasil, com foco também em investimentos.

À frente do marketing desde 2023, Thaís Souza Nicolau afirma que a mudança exigiu uma virada de marca, com o desafio de construir confiança em um setor regulado e altamente competitivo. Campanhas de maior alcance, com presença em TV aberta, mídia exterior e uso de inteligência artificial, sustentaram esse reposicionamento.

A escala, porém, veio com o filme estrelado por Will Smith, em 2024, que ampliou o reconhecimento da marca e contribuiu para uma redução superior a 20% no custo de aquisição de clientes (CAC), além de acelerar a abertura de contas para investimentos no exterior.

No ano passado, a Nomad alcançou uma receita recorrente anualizada (ARR) de 500 milhões de reais e atingiu o breakeven. Para Nicolau, jurada do Cannes Lions 2025, o caso reforça uma tese que, não raro, encontra resistência no ecossistema de startups: marca e performance não competem. Quando integradas, afirma, campanhas criativas deixam de ser apenas um custo de visibilidade e começam a funcionar como alavancas diretas de crescimento, conversão e eficiência do negócio. Acompanhe a entrevista.

Ao longo de 20 anos de carreira, com passagens por empresas como Mattel, Burger King e Mercado Livre, o que mudou na forma de fazer marketing e o que permanece?

Quase tudo. Hoje é muito mais difícil e complexo. Antes eram poucos meios, com tiros certeiros e uma conversa de mão única. Agora, é um diálogo, com consumidores demandando e esperando mais, em meio a uma disputa de atenção absurda. A maneira de impactar continua evoluindo: internet, social, retail e IA. O que permanece é a criatividade para engajar.

Quem é o público-alvo da Nomad? Com a ampliação do foco em investimentos, há risco de afastar a base original?

A Nomad trabalha com o que chama de cliente de alta renda. Esse é um conceito subjetivo, mas envolve renda mensal acima de 15.000 reais, patrimônio a partir de 300.000 reais, repertório internacional, viagens ao exterior e capacidade de comunicação em outros idiomas. Não queremos repelir ninguém: atendemos diferentes perfis, mas o foco está no cliente com maior potencial de renda e estratégias mais amplas de diversificação.

Em um mercado cada vez mais competitivo, com players como Wise, C6 Bank e Avenue, o que diferencia a Nomad?

As taxas são infinitamente mais competitivas do que as de cartões de crédito brasileiros. Entre as fintechs, os encargos tendem a ser semelhantes, e o diferencial está na proposta. Reunimos, em um único lugar, soluções para viagem e investimentos no exterior, integradas em uma experiência simples. A oferta inclui atendimento 24 horas em português, sala VIP no Aeroporto de Guarulhos, rapidez nas transações e um aplicativo fácil de usar, além de aceitação mundial, compras online e benefícios ligados à jornada de viagem, como seguro, chip internacional, passagens, hospedagem e descontos.

Em que momento perceberam que era preciso mudar a narrativa da marca?

Isso começou pouco depois da minha chegada e com o reforço em pesquisas para entender o diferencial. As pessoas diziam que gostavam da Nomad porque tudo estava no mesmo lugar e a experiência era simples. Ficou claro que a força da marca estava no ecossistema, não em um produto isolado. Até 2023, falávamos quase só com quem planejava viajar; em 2024, a narrativa passou a refletir a ampliação do portfólio. O desafio se tornou garantir consistência em um momento de expansão, em um mercado com muitos players e alta paridade funcional. A comunicação ainda evolui, mas hoje parte de uma visão mais integrada.

Em 2025, a Nomad alcançou uma receita anualizada de 500 milhões de reais, com crescimento superior a 80%. Qual foi o papel do marketing nesse desempenho?

Trabalhamos em duas frentes. Há um time interno focado em aquisição, atuando em diferentes canais, como influenciadores, dentro de uma rede com mais de 300 parceiros e uma estratégia de afiliados com códigos de convite, cashback e redução de encargos. O crescimento passou por parcerias e boca a boca, inclusive no digital, convites no aplicativo e mídia de performance, com metas claras de aquisição.

Ao mesmo tempo, evoluímos para olhar ativação e recorrência e seguimos investindo em construção de marca. Ainda estamos em níveis médios de awareness, e a ambição é ser a marca mais lembrada, mesmo sem o maior orçamento do mercado, o que exige um olhar mais criativo e disruptivo.

O investimento em influenciadores aumentou, seguindo uma tendência do mercado?

Sim. Antes focada em aquisição, a estratégia passou a incluir influenciadores de branding, com nomes maiores e aspiracionais. Na aquisição, apostamos em creators médios, que tendem a engajar e converter melhor. Eles atuam como prova social. A escolha dos parceiros continua como um processo estruturado. Os contratos começam curtos, e todo o conteúdo passa por aprovação, por se tratar de um mercado regulado. Se a conversão atende às expectativas, a relação é ampliada. No fim, é uma combinação de dados e intuição: nem sempre o que parece promissor converte, e às vezes os resultados surpreendem.

O YouTube da Nomad já soma mais de 1 milhão de inscritos. Qual é o impacto no negócio?

O canal começou focado em investimentos no exterior, mas a estratégia evoluiu para ir além do educacional financeiro e incorporar temas como viagens, em resposta às mudanças no algoritmo do Google e ao avanço da IA. Menos foco em palavras-chave e mais em conteúdo de valor, que combina perfis de viagem, curadoria e influenciadores. Isso ajudou a estancar a queda do tráfego de SEO e a aumentar a conversão para a abertura de conta. A base de clientes investidores cresceu de cerca de 2% em 2023 para quase 20% hoje.


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