Javier Milei, com a motosserra que simboliza cortes fiscais: o presidente da Argentina se prepara para disputar eleições em meio à queda da aprovação de seu governo (Gage Skidmore/Flickr)
Editor de Macroeconomia
Publicado em 28 de outubro de 2026 às 06h00.
Fim de novembro de 2023. Nas ruas de Buenos Aires, milhares de pessoas comemoram a vitória de Javier Milei como presidente da Argentina, encerrando quatro anos do peronismo de Alberto Fernández. O clima é de esperança no câmbio, a mudança tão propalada pelo candidato. De lá para cá, ele cumpriu sua palavra. Tocou uma agenda feroz de ajuste fiscal, estimada em cinco pontos percentuais do PIB, e derrubou de 25% para 1,9% ao mês a inflação. Para isso, ele cortou investimentos em obras públicas, reduziu subsídios às tarifas de energia e transporte e enxugou programas sociais. E uma dúvida reinava: com uma agenda tão impopular, até quando Milei teria boa aprovação? A pergunta é essencial a pouco mais de um ano das eleições presidenciais, em novembro de 2027. Quando perguntados sobre suas principais preocupações, os argentinos agora colocam a inflação perto do fim da lista. “As prioridades da população se deslocaram para os níveis de renda, a incerteza econômica e o emprego. Isso ilustra claramente a capacidade dos eleitores de mudar suas demandas assim que uma necessidade é atendida”, dizem os analistas Alberto Rojas e Alejo Czerwonko, em relatório do banco UBS.
Nos últimos tempos, houve uma virada de preocupações, sobretudo com o desemprego. “Hoje a Argentina tem um dos piores índices de rumo do país, um dos piores índices de confiança, e problemas como o desemprego ocupam o primeiro lugar”, diz Diego Pagura, argentino que lidera a Ipsos no Brasil. Segundo ele, o caso do emprego é interessante porque o indicador não é ruim. “O desemprego não está muito alto. Mas o que indica é que provavelmente há ainda um gap para ser fechado entre o custo de vida e o que o emprego proporciona”, afirma. Hoje, o presidente argentino tem um saldo negativo de 24 pontos percentuais entre aprovação e desaprovação. É bem melhor que seu antecessor, Alberto Fernández, que registrava saldo negativo de 55 pontos em outubro de 2022, um ano antes da eleição. O resultado de Milei é quase o mesmo de Mauricio Macri no mesmo momento do mandato, em 2018, quando a desaprovação superava a aprovação em 26 pontos. Com uma agenda tão dura, Milei terá de convencer os argentinos de que tudo o que faz é para o país caminhar por um rumo melhor.