Revista Exame

Novas rotas para Moscou

Visitamos a Rússia, um país sob sanções desde 2014, e que aposta no Brasil como parceiro num cenário cada vez mais turbulento

Na Praça Vermelha, cartão-postal de Moscou: a guerra não se  faz presente e o movimento de turistas compreende principalmente chineses (Monthon Wa/Getty Images)

Na Praça Vermelha, cartão-postal de Moscou: a guerra não se faz presente e o movimento de turistas compreende principalmente chineses (Monthon Wa/Getty Images)

Luiz Gustavo Pacete
Luiz Gustavo Pacete

Consultor de Projetos Especiais

Publicado em 28 de outubro de 2026 às 06h00.

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É impossível visitar a Rússia sem perceber a influência e a presença do Brasil. Da nova geração de novelas brasileiras, passando pelos filmes e pela herança do café solúvel premium. Até mesmo as grandes empresas brasileiras de proteína animal deixaram sua marca nos supermercados. Tudo remete a uma época em que o agronegócio brasileiro e a economia russa existiam sob integração máxima, levando as exportações brasileiras ao seu ápice histórico entre 2008 e 2011, com médias anuais de 4,7 bilhões de dólares, ancoradas no domínio da carne e do açúcar.

Embora essa forte presença tenha enfrentado um apagão logístico e financeiro logo após a anexação da Crimeia, em 2014, e o início da guerra na Ucrânia, em 2022, o comércio bilateral encontrou rotas alternativas e canais de pagamento fora do dólar. A retomada consolidou-se em patamares expressivos no ano de 2024, impulsionada por uma troca estratégica: o Brasil tornou-se um dos maiores compradores de fertilizantes e diesel russos, enquanto a Rússia reabriu as portas para as proteínas e para o café solúvel brasileiro, elevando a corrente de comércio entre os dois países ao recorde histórico de 12,4 bilhões de dólares.

Para além das commodities, existem rotas alternativas para a Rússia que vêm sendo desbravadas de ambos os lados. Em setembro passado, sob o contexto e o esforço de reaproximação comercial entre os dois países, a reportagem da EXAME visitou a WorldFood Moscow, uma das maiores feiras de alimentos da região, organizada pelo ITE Group. E acompanhou uma comitiva enviada pela Agência Brasileira de ­Promoção de Exportações e Investimentos, a ApexBrasil, que contou com 19 empresas nacionais dos mais variados segmentos de alimentos e bebidas de valor agregado. O desafio vivido pela reportagem, sem acesso a plataformas como o WhatsApp e o Instagram durante os dias em que esteve na Rússia, e sem a possibilidade de realizar pagamentos com bandeiras como Visa e Mastercard, também reflete as problemáticas que chegam a afastar empresas interessadas em fazer negócios com o país. “Hoje, este tem sido um grande desafio: a incerteza de muitas empresas em realizar pagamentos e conseguir uma previsibilidade ao fazer negócios por aqui”, explica Sérgio Rodrigues, embaixador do Brasil na Rússia.

Supermercado russo: o Brasil disputa espaço e destaque com produtos vindos da China e da Turquia (Contributor/Getty Images)

“A trajetória do intercâmbio comercial entre Brasil e Rússia reflete uma capacidade de resiliência e adaptação diante dos grandes choques geopolíticos globais: passamos de um período de forte bonança integrada no final dos anos 2000, enfrentamos um severo e imediato gargalo logístico e financeiro com o deflagrar do conflito em 2022, e hoje testemunhamos uma reinvenção pragmática das nossas rotas comerciais e cadeias de valor”, afirma Almir Américo, diretor do escritório da ApexBrasil na Rússia.

Bruna Martinelli Rauscher, CEO da Rauscher Commodities, empresa baseada em Santos que atua no comércio de café verde, explica que a Rússia representa um mercado regional com potenciais muitas vezes não mapeados. “No entanto, o país possui complexidades que envolvem desde a logística até as formas de pagamento.”

Aprendiz de um gigante

Fundada em 1995 pelos irmãos moscovitas Viktor e Alexander Linnik, a Miratorg iniciou sua trajetória no mercado russo operando inicialmente como uma trading focada na importação de carne bovina e suína da América Latina, incluindo o Brasil. Ao longo dos anos 2000, a empresa passou de simples compradora internacional a parceira estratégica de gigantes globais da proteína, como a brasileira Sadia, com quem chegou a estabelecer joint ventures industriais em território russo para a produção de alimentos processados.

Café premium: conhecido por popularizar o café solúvel na Rússia, o Brasil busca oportunidades no segmento de maior valor agregado (Andrey Rudakov/Bloomberg/Getty Images)

Almir Américo explica que a grande virada de chave que transformou a Miratorg em uma potência autossuficiente ocorreu a partir da década de 2010, impulsionada por políticas estatais de substituição de importações e pesados investimentos em toda a cadeia produtiva. “A holding russa rompeu com a dependência externa ao adotar o modelo ‘da porteira ao prato’, construindo fazendas de grãos, gigantescos complexos de confinamento, rebanhos próprios de gado Angus, abatedouros de alta tecnologia e uma rede logística integrada. Em vez de atuar como subsidiária ou mera representante de marcas estrangeiras, a empresa consolidou o controle absoluto de ponta a ponta, tornando-se rapidamente a maior produtora de carne bovina e suína da Rússia.”

Apesar da força da Miratorg, os gigantes de proteína animal brasileiros ainda possuem na Rússia um polo importante de negócios. ­Rustam Nailyevich Gareev, executivo com mais de 20 anos na estrutura da Minerva Foods no país, explica que a carne brasileira continua sendo estratégica. Dentre seus clientes estão grandes redes, como a Stars Coffee e o Vkusno i tochka, novas marcas do que foram as operações de Starbucks e McDonald’s no país até 2022. A reportagem da EXAME consumiu produtos das duas redes. No caso da Stars Coffee, tanto a qualidade dos produtos como a experiência na loja são parecidas às da Starbucks. Já no caso do Vkusno i tochka, os produtos não lembram em nada o padrão do McDonald’s no mundo, com gosto e formato bem diferentes.

McDonald’s russo: a rede local de fast-food Vkusno i tochka assumiu a operação em maio de 2022 (Natalia Kolesnikova/AFP/Getty Images)

Entre trends e oportunidades

Vender produtos de maior valor agregado tem sido a máxima dos brasileiros que atuam em Moscou. Felipe The, que mora no país e comercializa café brasileiro, conta que o momento é de entender as novas demandas de consumo. “Os russos vêm demandando cafés especiais e um lifestyle em torno da cultura do café que nos traz muitas oportunidades”, explica The.

Esse estilo de consumo mencionado por Felipe The é visível, inclusive, na presença de redes ocidentais que, de alguma forma, permaneceram no país. Quando o conflito entre Rússia e Ucrânia eclodiu, gigantes como McDonald’s e Starbucks optaram por uma retirada drástica do mercado russo, encerrando operações locais e vendendo seus ativos para parceiros regionais ou executando saídas definitivas sob forte pressão pública e corporativa global. No entanto, enquanto essas marcas zeravam sua presença física em Moscou, o Burger King permaneceu de portas abertas.

Como destaca Gareev, “essas redes de fast-food representam clientes de extrema importância estratégica e colossal escala para a nossa operação, pois a exigência rigorosa de padrão global e a constância na demanda por carne bovina consolidam essas corporações como parceiras indispensáveis para sustentar o fluxo de exportações e o crescimento dos negócios em diversos mercados internacionais”.

Para além dessas redes, o varejo russo passou por uma reconfiguração profunda após a retirada em massa de corporações ocidentais, abrindo espaço para o surgimento de marcas substitutas de forte apelo visual e comercial. A saída de redes icônicas, como a varejista de móveis IKEA, motivou a rápida ocupação do mercado por concorrentes regionais, a exemplo da bielorrussa Sweat House, enquanto o portfólio de fast fashion capitaneado pela Zara foi absorvido por grupos internacionais oriundos de mercados neutros e marcas turcas. Essa transição redefiniu as ruas de comércio do país, onde alternativas locais tentam preencher o vazio emocional e de consumo deixado pelas grandes multinacionais.

Tecnologia e serviços : o Yandex Food é o principal aplicativo de delivery da Rússia, de propriedade do Yandex, conhecido como o Google russo

Tecnologia na Rússia

O cenário tecnológico russo consolidou uma rota própria de desenvolvimento diante da saída de grandes corporações internacionais do país. A Yandex, apelidada de Google russo, se firmou como a principal força do setor, operando para estruturar um ecossistema digital integrado através de aplicativos como o Yandex Go, que engloba serviços de transporte particular por táxi, ferramentas de geolocalização e soluções logísticas de entrega. Paralelamente, braços voltados ao de delivery conectam-se diretamente aos assistentes inteligentes presentes em residências, dispositivos móveis e painéis de veículos.

“A integração dessas frentes demonstra o grau de maturidade técnica alcançado pela engenharia russa”, explica Nicola Boschov, dono de uma empresa especializada em tecnologia, alegando que ter um lado tecnológico desenvolvido permitiu que a Rússia reduzisse o impacto da ausência de big techs como Google e Meta no país.

Ainda sobre tecnologia, o governo russo estabeleceu metas ambiciosas, incluindo planos para que o impacto econômico da inteligência artificial ultrapasse a marca de 11 trilhões de rublos no Produto Interno Bruto (PIB) do país (cerca de 130 bilhões de dólares), além de destinar recursos multibilionários para a modernização de centros de dados e o fomento à indústria nacional de microeletrônica, como o projeto da fábrica de chips Volga. Embora esses montantes reflitam um esforço massivo do Estado para blindar a economia e mitigar a dependência de hardwares e softwares ocidentais, analistas afirmam que o ritmo e o volume dos investimentos ainda enfrentam barreiras severas, mantendo o ecossistema tecnológico russo em um patamar de autonomia defensiva quando comparado aos líderes globais Estados Unidos e China.

A saída dos gigantes de pagamentos Visa e Mastercard do mercado russo marcou um dos capítulos mais profundos de isolamento e reestruturação financeira da história recente do país, refletindo diretamente nas operações tecnológicas e comerciais.

Com o acirramento das sanções geopolíticas internacionais, as redes globais suspenderam suas operações locais, impedindo que cartões emitidos na Rússia funcionassem no exterior, e vice-versa. Essa ruptura forçou uma transição que colocou à prova a infraestrutura de tecnologia financeira russa, pois os cidadãos perderam o acesso a transações internacionais, assinaturas de softwares globais e viagens sem atritos cambiais. O Banco Central russo e as autoridades reguladoras intensificaram a transição para eliminar completamente a dependência remanescente das bandeiras ocidentais, cujas fatias de mercado despencaram drasticamente com o avanço das soluções locais e de pagamentos instantâneos. Esse cenário reconfigurou o mercado de meios de pagamento, criando barreiras profundas para o comércio transfronteiriço e inaugurando uma era de fragmentação tecnológica nos fluxos financeiros globais.

Um dos pilares dessa solução foi a expansão do Sistema de Pagamentos Rápidos (SBP), operado em conjunto com o Banco Central, que permitiu transferências instantâneas via QR Code e número de telefone celular, contornando as bandeiras tradicionais de cartões. Paralelamente, as fintechs russas integraram seus serviços à rede nacional de cartões Mir e passaram a pavimentar o caminho para a introdução do rublo digital, transformando restrições geopolíticas em um laboratório de inovação em pagamentos móveis e descentralizados.

Assim como nos bolos de mel vendidos no “McDonald’s Russo”, o país dá seu jeito de se adaptar — e de ir em frente.


Diplomacia: bom para os negócios

Dmitry Zavgorodniy, CEO do ITE Group: “O Brasil tem potencial para ampliar sua participação na Rússia” (Gleb Loskutov/Arquivo Pessoal)

Conhecida pelo exílio do escritor, filósofo e jornalista russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski e cortada pela ferrovia Transiberiana, a cidade de Omsk possui atualmente uma forte vocação industrial e metalúrgica, além de ser um polo logístico importante da Rússia. Foi lá que nasceu Dmitry Zavgorodniy. O executivo, que tem mestrado em Problemas Econômicos e Políticos pela Universidade de Sorbonne, na França, fez carreira em alta gestão compondo a liderança de empresas globais como Mars e McCain até assumir como CEO do ITE Group, em 2017. Hoje, sua missão à frente da empresa de eventos é clara: recolocar a Rússia no mapa econômico, independentemente do cenário político atual.

Sob sua gestão, a empresa tornou-se uma potência em feiras, produzindo mais de 30 anualmente, com delegações de mais de 80 países.

Em entrevista à EXAME, durante uma delas, a WorldFood Moscow, o executivo destacou o papel econômico, mas também diplomático, desses eventos. “Independentemente do contexto atual, essas feiras não são apenas exposições; são pontes neutras que garantem parcerias estratégicas e movimentam a economia global em qualquer cenário.” E, dentro de sua missão, o Brasil é protagonista. “O potencial da relação entre Brasil e Rússia no mundo dos alimentos é simplesmente ilimitado. Quando unimos a prodigiosa capacidade produtiva e a excelência agrícola brasileira com a demanda e a infraestrutura de distribuição do nosso mercado, criamos uma sinergia imbatível, que molda o futuro do abastecimento global”, diz Zavgorodniy. “Estreitar laços com produtores e marcas brasileiras nos permite trazer inovação, frescor e uma escala incomparável para o mercado russo e para os nossos eventos”. Em outubro, inclusive, uma comitiva do ITE Group esteve em São Paulo e no Rio de Janeiro para estreitar ainda mais esses laços.


Diálogo, soberania e negócios

Sérgio Rodrigues e Vladimir Putin: laços históricos independentemente da guerra

Formado em letras pela Universidade Federal do Paraná e com o início de sua carreira diplomática em 1995, o embaixador Sérgio Rodrigues dos Santos atuou em países como Japão, Estados Unidos, Israel e Suíça até ser aprovado pelo Senado para assumir, em 2025, a chefia da embaixada brasileira em Moscou, com jurisdição sobre o Uzbequistão.

Qual é a importância da Rússia para a política externa brasileira no cenário atual?

A Rússia é considerada uma parceira de grande relevância e um país-chave na arquitetura internacional, destacando-se como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, potência nuclear e energética, e parceira do Brasil em fóruns como o BRICS e o G20.

Quais são as principais metas para o intercâmbio comercial entre os dois países?

Nosso plano de trabalho prioriza incrementar e diversificar o comércio bilateral, estimulando a exportação de produtos nacionais de maior valor agregado, além do agronegócio tradicional, por meio de acordos e da retomada de negociações da Comissão Intergovernamental de Cooperação Econômico-Comercial (CIC Brasil-Rússia).

Como o Brasil lida com a manutenção dos laços diplomáticos com Moscou em meio ao cenário promovido pela guerra na Ucrânia?

A política externa brasileira mantém-se pautada pelo diálogo pragmático, pelo respeito à soberania e pela preservação de canais abertos de comunicação, permitindo que os laços culturais e econômicos continuem ativos a despeito do conflito.

*O jornalista viajou para Moscou a convite da ITE Group.



 

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