Mesmo proibido no Brasil, startups investem no plantio de cannabis

Produção e venda de canabidiol já é realidade no país, mas matéria-prima precisa ser importada; mesmo assim, empreendedores apostam na liberação do plantio

home_cannabis_startup_plantio_medicinal Startups brasileiras apostam no melhoramento genético da cannabis como aliado no modelo de negócios

Startups brasileiras apostam no melhoramento genético da cannabis como aliado no modelo de negócios (Cook Shoots Food/Getty Images)

O derivado medicinal da maconha canabidiol da farmacêutica Prati-Donaduzzi encontrado atualmente nas farmácias brasileiras tem raízes canadenses. Já o da marca Nunature, que deve chegar neste mês às farmácias do país, é do Colorado, nos Estados Unidos. 

A origem gringa é a regra que deve se repetir por outras marcas de canabidiol que aguardam autorização enquanto a legislação brasileira mantém-se rígida para os negócios de cannabis medicinal.  

Apesar de empresas serem permitidas a instalar fábricas, beneficiar e vender canabidiol em farmácias desde o ano passado, por enquanto nada de plantar cannabis medicinal no Brasil, mesmo com fins terapêuticos.  

Isso, porém, não impediu alguns empreendedores de pensarem em negócios que atuam no plantio para fins medicinais. 

Duas empresas que já colocaram seus projetos para tocar, mesmo que os negócios ainda não possam acontecer são: Adwa Cannabis e a Kaneh Bosm Genes.

São duas startups criadas em ambientes universitários interessadas em atuar num mercado sem a dependência de trazer o canabidiol do exterior, como ocorre atualmente. 

Na Adwa Cannabis, startup criada pelo agrônomo e geólogo Sérgio Rocha na Universidade Federal de Viçosa, a ideia é ter o melhoramento genético da cannabis como aliado no modelo de negócios.

Isso significa pesquisar a fundo a planta para garantir, por exemplo, sementes sob medida. Com o tempo, a ideia é ter produtos de qualidade superior — um canabidiol gourmet criado em laboratório.

“Se a gente quiser ter disponibilidade de matéria-prima aqui, tem que dominar ela e desenvolver propostas adaptadas ao clima do Brasil, que atendam a diferentes mercados que sejam altamente produtivos, adaptadas às pragas daqui”, explica Sérgio Rocha. 

Apesar de o negócio da Adwa Cannabis ser impedido pela legislação, a startup conseguiu uma autorização legal especial para plantar as plantas em estufas dentro da Universidade Federal de Viçosa e ensaiar as propostas. Na empresa, são cinco sócios e 10 pessoas atuando na operação. 

O Projeto de Lei 399 prevê autorização para esse mercado começar a existir, mas por enquanto ele só foi aprovado em Comissão Especial na Câmara, mas ainda precisa do aval do Senado e do Palácio do Planalto. Ele prevê a permissão para o plantio industrial, medicinal e de pesquisa da cannabis. No entanto, as coisas não devem ser tão rápidas. 

Para Sérgio, a legislação deve permitir o surgimento de negócios que plantam cannabis em cerca de quatro anos apenas.

Como a empresa trabalha com todos os aspectos do cultivo, também desenvolveu um software de gestão agrícola especificamente para cannabis, que deve ter um versão beta até o fim do ano e será lançado para o mercado da América do Sul.

A ideia é que fazendas de países onde o plantio é permitido, como Uruguai e Paraguai, comprem a licença do aplicativo. Esse é momento do negócio da Adwa Cannabis. O desenvolvimento do software contou com apoio de um edital do Ministério de Ciência e Tecnologia e Inovação. Até o momento, a startup já recebeu apoio de R$ 190 mil do ministério. 

A Adwa, porém, já está em processo de aceleração dentro do ecossistema da The Green Hub, aceleradora de startups do ecossistema de cannabis, fundada em 2019 pelos primos Marcel e Marcelo Grecco. Em 2020, o valuation de 1,66 milhão de reais.

A The Green Hub iniciou com capital dos sócios, mas logo cresceu e recebeu um seed capital em 2019, e em 2020 fechou parceria com a divisão Life Science da farmacêutica alemã Merck, que incentiva as startups por meio da parceria. Hoje, há nove negócios impulsionados, que atuam principalmente no mercado auxiliar. 

A The Green Hub está também com sua terceira chamada de startups aberta.

Como mostrou a última edição impressa da EXAME, o ecossistema de negócios da cannabis medicinal já é realidade no Brasil, principalmente a partir de uma fila de empresas, que inclui farmacêuticas, tentando se enquadrar em regras da Anvisa para vender canabidiol nas farmácias.

Desde 2014, o uso do canabidiol, uma das substâncias da cannabis, é permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Antes de 2020, porém, a única forma de conseguir o acesso à substância era via importação.

Maconha medicinal Plantação de cannabis da Adwa Cannabis na Universidade Federal de Viçosa: startup que está com valuation de 1,6 milhão de reais tem autorização judicial para o plantio, mas não pode vender sementes

Plantação de cannabis da Adwa Cannabis na Universidade Federal de Viçosa: startup que está com valuation de 1,6 milhão de reais tem autorização judicial para o plantio, mas não pode vender sementes (Adwa Cannabis/Divulgação)

Nome hebraico e técnica aquapônica

Outra startup acelerada pela The Green Hub, e que não está parada esperando a lei mudar para andar com seu empreendimento, é a Kaneh Bosm Genes, termo em hebraico para a forma como a cannabis é citada no Antigo Testamento da Bíblia na condição de erva medicinal.

O foco da startup é ser, no futuro, uma fornecedora de cannabis a partir de cultivo aquapônico. O cultivo aquapônico permite que plantas e peixes sejam criados em um sistema de recirculação de água e nutrientes.  

Os dejetos dos peixes fornecem os nutrientes necessários para o crescimento da planta, enquanto as plantas filtram a água do tanque dos peixes.

Enquanto não pode fazer o plantio com a cannabis, os empreendedores à frente da empresa fazem teste com plantas como hortelã, tomate e manjericão.

Segundo Flávia Mota, engenheira de processos e biotecnologia e CEO da empresa, a diferença nos resultados é perceptível. 

aquaponica Sistema aquapônico da Green Hub: fezes dos peixes é utilizada como fertilizantes, enquanto plantas de cannabis vão filtar água dos tanques

Sistema aquapônico da Green Hub: fezes dos peixes é utilizada como fertilizantes, enquanto plantas de cannabis vão filtar água dos tanques (KBG/Divulgação)

“O que a gente vê com outras plantas é que o tempo de produção é menor, em cerca de 30%, com mais produtividade e menos espaço. Nesse sistema, o controle dos parâmetros também é melhor. Como você usa as fezes do peixe para fertilizar, economiza. Isso porque o fertilizante representa até 40% do custo em uma plantação”, diz Flávia. “A intenção é mostrar que o sistema é energeticamente sustentável, livre de agrotóxicos. Produzir matéria-prima de qualidade.”

Flávia e os sócios Breno Bardo, Luciana Custódio e Yang Neiva já estudavam a aquaponia e decidiram realmente entrar em um negócio de cannabis depois da chamada de startups da Green Hub.

Outro fator decisivo para a empresa apostar nesse caminho foram exemplos de empresas no Canadá que usam o sistema de aquaponia para produzir cannabis. A Habitat Craft Cannabis é uma delas. Diferentemente do Brasil, o país tem permissão para consumo recreativo e medicinal e é o maior mercado mundial de cannabis legal.

Enquanto não pode validar suas hipóteses de que a aquaponia é um bom caminho para a produção de cannabis, os empreendedores da Kaneh Bosm Genes estão fazendo uma parceria com uma fazenda de cannabis familiar uruguaia para verificar os impactos da técnica.

Apesar de o foco da empresa ser a plantação de cannabis, a empresa não dispensa a produção de outras plantas para a produção de óleos “potencializados”, como o de hortelã pimenta, patchouli e erva cidreira. 

Segundo a empresa de pesquisas New Frontier Data, o setor de cannabis medicinal no Brasil pode chegar a 4,7 bilhões de dólares em três anos anos.

O primeiro lugar no mundo a autorizar o uso medicinal da cannabis foi o estado da Califórnia, nos Estados Unidos, nos anos 1990. Depois, em 2001, o Canadá entrou na onda, assim como o estado do Havaí. Hoje, já são cerca de 40 paí­ses que permitem o uso de ­derivados medicinais, com regras que variam. Nessa lista estão o Brasil, vizinhos como Argentina, Colômbia, Uruguai e Chile, a maior parte da Europa e dos estados dos Estados Unidos.

O uso medicinal de derivados não tem relação com o uso recreativo, permitido em bem menos locais — entre eles, Uruguai e Canadá. No uso medicinal, os compostos não têm quantidade alta de tetrahidrocanabidiol, conhecido pela sigla THC, que gera os efeitos psicoativos. O composto com os maiores efeitos medicinais é o canabidiol, o CBD. O CBD relaxa, promove descontração muscular e reduz a ansiedade.

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