Para novas startups dos EUA, as Forças Armadas são o cliente ideal

Enquanto empresas tradicionais de tecnologia, como Google e Microsoft, evitam militarizar suas criações, novas startups americanas querem trabalhar para o governo

Ao longo das colinas rochosas da costa sul da Califórnia, onde foram testados foguetes e lasers para o programa de defesa antimísseis "Star Wars" do presidente Ronald Reagan, o que parecia ser um grande inseto mecânico perseguia uma picape branca.

A menos de um quilômetro de distância, Palmer Luckey, de 28 anos, um dos mais orgulhosos iconoclastas da indústria tecnológica, falou animadamente sobre o potencial militar da máquina voadora – um drone autônomo, chamado Ghost, construído por sua startup, a Anduril. "Basta configurá-lo e depois ir fazer outra coisa que ele se vira", afirmou.

Embora partes do Vale do Silício tenham mantido o Pentágono a distância nos últimos anos, a empresa de Luckey corteja agressivamente agências do governo e militares dos EUA.

É uma das várias jovens empresas de tecnologia, muitas delas longe do Vale do Silício, que não levam em consideração as preocupações com a potencial militarização de suas criações, algo que nos últimos anos provocou revoltas de funcionários em gigantes do setor como Google e Microsoft.

Em uma tarde recente, Luckey e outros funcionários da Anduril estavam no local de testes da empresa perto de Camp Pendleton, instalação de treinamento do Corpo dos Fuzileiros Navais dos EUA.

Quando o drone decolou e sobrevoou as colinas, Luckey disse que poderia rastrear um objeto e capturar imagens detalhadas a sete campos de futebol de distância. Usando muitas das tecnologias de inteligência artificial presentes em carros autônomos, os drones da Anduril podem identificar e rastrear veículos, pessoas e outros objetos quase totalmente por conta própria.

Os drones não estão armados, mas podem ser úteis para proteger bases ou fazer reconhecimento. As mesmas tecnologias de sensores que permitem que voem por conta própria também poderiam ser usadas para identificar alvos em um campo de batalha.

Luckey, que vendeu sua empresa anterior, a startup de realidade virtual Oculus, para o Facebook por 2 bilhões de dólares, não se preocupa em questionar se as empresas de tecnologia deveriam ou não trabalhar voluntariamente com as comunidades militares e de inteligência. "A maioria dos engenheiros quer projetar. Quer fazer coisas. A maioria das pessoas tem uma visão muito prática", comentou o empresário, enquanto o som de artilharia ecoava de uma área próxima.

As comunidades militares e de inteligência têm uma longa história com laboratórios de pesquisa e empresas de tecnologia no Vale do Silício. A Arpanet, precursora da internet, foi financiada pelo Departamento de Defesa dos EUA. David Packard, um dos fundadores da Hewlett-Packard, foi secretário adjunto de Defesa na presidência de Richard Nixon. A Oracle, uma das maiores empresas de software, começou a escrever códigos de computador para a CIA.

Mas a ideia de armas autônomas é controversa no Vale do Silício, e nos últimos anos alguns na indústria tecnológica desenvolveram uma nova desconfiança do trabalho do governo.

Essa desconfiança aumentou em 2013, quando um prestador de serviço de defesa, Edward Snowden, vazou documentos que revelaram a amplitude da espionagem dos serviços de inteligência sobre os americanos, incluindo o monitoramento dos usuários de grandes empresas de internet. Em 2018, o Google se retirou de um esforço do Departamento de Defesa dos EUA para desenvolver tecnologia de inteligência artificial, depois de protestos dos trabalhadores da empresa.

Partes do Vale do Silício impuseram limites firmes ao uso de suas criações em armamentos. Mike Volpi, sócio da empresa de capital de risco Index Ventures, disse que a tecnologia de drones de Anduril o impressionou, mas que não investiria em nenhuma empresa cuja tecnologia pudesse ser usada com armas. "Há muitas maneiras de ganhar dinheiro. Se uma empresa tiver uma estratégia declarada de ferir pessoas, não investiremos."

No entanto, uma crescente gama de empresas de capital de risco vê as coisas de forma diferente. A Anduril é apoiada por vários notáveis, incluindo o Founders Fund, criado por um dos fundadores do PayPal, Peter Thiel; a Andreessen Horowitz; e a General Catalyst. "Temos os maiores tecnólogos do mundo no Vale do Silício. Precisamos realmente que trabalhem com Washington", afirmou Katherine Boyle, sócia da General Catalyst.

Com financiamento do Founders Fund, a Anduril foi criada em 2017. Entre seus fundadores estavam vários ex-funcionários da Palantir, a empresa apoiada pelo mesmo fundo que ajuda a coletar e analisar dados para o governo, e Luckey.

A Anduril escolheu Irvine, na Califórnia, em parte por causa da proximidade com postos militares, e em parte porque os fundadores queriam evitar a crescente desconfiança em relação ao trabalho militar no Vale do Silício.

No negócio de drones, Luckey não está sozinho. Uma série de startups está construindo tecnologia semelhante para os militares. A Shield AI, fundada por um ex-membro dos SEALs da Marinha dos EUA, está em San Diego, na Califórnia, não muito longe da Anduril. A Teal Drones, cujo fundador veio do programa de estágio de Thiel, está em Salt Lake City.

O Departamento de Defesa dos EUA busca por pequenos drones que possam rastrear objetos e voar por edifícios, zonas de combate e outras áreas perigosas com pouca ajuda de pilotos remotos. Segundo Mike Brown, diretor da Unidade de Inovação em Defesa, organização do Pentágono que procura facilitar a cooperação entre os militares e a indústria tecnológica, os drones autônomos têm o potencial de se tornarem uma parte fundamental dos combates e outras atividades militares nos anos seguintes. "Precisamos ter certeza de que compramos de fontes próximas", afirmou.

Embora algumas das startups digam que seus drones já foram usados pelos militares, a tecnologia ainda está nos estágios iniciais de implantação. Porém gera a preocupação de que sistemas de inteligência artificial, usados em conjunto com armas, possam minar o papel da tomada de decisão humana no combate.

Perguntadas se sua tecnologia de drones poderia ser usada com armas, algumas startups garantem que sim. Argumentam que isso será uma parte essencial dos esforços dos EUA para manter a paridade militar com outros países. "A maioria entende que isso é parte do que os militares fazem", disse Luckey.

Em sua sede em Irvine, a Anduril está construindo uma ampla gama de tecnologias, incluindo torres de sensores que podem ser usadas como uma espécie de "muro virtual da fronteira". A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA já está usando essas torres para monitorar trechos no Texas e na Califórnia. Além disso, está analisando o uso dos drones Ghost da empresa para fins semelhantes, de acordo com Chris Brose, o diretor de estratégia.

Um porta-voz da empresa declarou mais tarde que a Anduril havia feito apenas "os primeiros voos de demonstração" para a Alfândega e Proteção de Fronteiras.

Mas a Anduril – cujo nome vem de uma espada da trilogia "O Senhor dos Anéis", de J.R.R. Tolkien – também está construindo drones para uso militar. No topo de uma colina com vista para o local onde a empresa estava testando seus dispositivos, Luckey e Brian Schimpf, outro cofundador e seu executivo-chefe, disseram que os drones foram usados por fuzileiros britânicos e testados por militares dos EUA.

Os drones fornecerão vigilância dentro e ao redor de bases militares, assim como fazem ao longo da fronteira mexicana. Luckey e Schimpf esperam que possam também ser usados para reconhecimento e outros propósitos. "Você diz: 'Encontre essa coisa.' E é isso que ele faz", garantiu Luckey.

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