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Donos de operadoras de turismo ecológico transformam paixão pela natureza em negócio promissor

EXAME.com (EXAME.com)

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Da Redação

Publicado em 14 de outubro de 2010 às 13h16.

Uma caminhada pela mata Atlântica, um passeio por corredeiras de rios e quedas- dágua, uma escalada de pico do interior do estado de São Paulo. Parece impossível ganhar dinheiro nesse ambiente, ainda mais vestindo camiseta, boné e tênis? Mas não é. A mais antiga operadora de turismo ecológico da cidade de São Paulo, a FreeWay, começou a operar dessa forma há 19 anos, levando pequenos grupos de estudantes para excursões na serra do Mar. "Na época, nem se falava em ecoturismo", diz Edgar Werblowsky, um dos sócios da FreeWay. Werblowsky abandonou uma sólida carreira de engenheiro civil para buscar a realização profissional numa atividade inteiramente nova. O que mais o assustou no início foi a falta de infra-estrutura do país para receber o novo tipo de turista que surgia. "Faltava tudo: informação, mapeamento de trilhas, guias preparados, apoio dos estados e municípios", diz Werblowsky. "Mas havia um mercado, um grupo crescente de pessoas em busca de atividades ao ar livre e longe dos lugares manjados."

O ecoturismo nasceu da iniciativa de empreendedores como Werblowsky. A pioneira FreeWay tem hoje uma das maiores estruturas de ecoturismo do país. Desde 1999, as vendas de seus pacotes cresceram 80%. As opções incluem desde uma viagem de três dias ao Pantanal (1 600 reais) até uma excursão de 21 dias ao Nepal para conhecer o Monte Everest (1 900 dólares mais a passagem aérea).

A trajetória da FreeWay tem muito em comum com a de outras operadoras paulistanas, como a Ambiental Expedições, a segunda mais antiga da cidade. Seus dois sócios são ferrenhos ativistas do meio ambiente. Um deles, José Zuquim, era professor de geografia em colégios tradicionais de São Paulo. Costumava levar os alunos para fora da sala de aula para mostrar ao vivo as belezas da natureza e os crimes cometidos contra ela. O outro sócio, Israel Waligora, um geólogo que trabalhou para órgãos do governo, combatia mineradoras irregulares e, por isso, recebeu muitas ameaças de morte. Os dois se conheceram numa caminhada. A afinidade deu origem a um projeto: transformar o que faziam por esporte -- levar alunos e amigos em viagens ambientais -- em negócio. A sociedade já dura 15 anos. Muita coisa mudou nesse período. "O ecoturista hoje quer tanta comodidade quanto o turista tradicional", diz Waligora. "Por isso, a operadora precisa conhecer bem os destinos que vende e trabalhar nas cidades de apoio, para oferecer uma estrutura de serviços de boa qualidade."

Ou seja: não basta conhecer uma trilha na mata e ter um grupo disposto a se aventurar. Ecoturismo virou coisa séria e deve envolver o mínimo de risco possível -- mesmo que o cliente pague para se pendurar numa corda a 15 metros do solo. A Associação Brasileira de Agências de Viagem (Abav) estima que 500 000 pessoas pratiquem ecoturismo no país regularmente. A atividade gera mais de 30 000 empregos diretos. Nas operadoras de ecoturismo, cerca de 95% dos sócios têm formação superior e quase 60% têm bacharelado em áreas diretamente relacionadas a meio ambiente.

Uma das diferenças entre uma agência de ecoturismo e uma tradicional é o número de guias. Numa viagem convencional, por exemplo, para a Serra Gaúcha, um grupo de 35 pessoas pode ser acompanhado por um único guia. Numa viagem ecológica, esse número, no mínimo, triplica, dependendo da dificuldade do passeio (escaladas, rafting, trilhas etc.). "Treinar guias é muito importante para as operadoras", diz Zuquim, da Ambiental. Se 35 pessoas que viajam para a Serra Gaúcha num ônibus com ar-condicionado correm poucos riscos, o mesmo não se pode dizer de um grupo de 15 pessoas que vão fazer escaladas no Nepal. Neste caso, a preparação dos guias envolve muito mais do que conhecer pontos históricos, saber indicar os melhores restaurantes e lidar com as diferentes personalidades que se juntam numa viagem.

Sem medo de cobra

O guia de ecoturismo deve estar disposto a encarar desafios. Veja o caso de Douglas Simões, um analista de sistemas que sempre gostou de viajar e que aproveitou sua experiência com esportes radicais para trabalhar como guia. Depois de passar seis meses de país em país com uma mochila nas costas, foi convidado a se tornar sócio da Venturas e Aventuras, uma das maiores operadoras de São Paulo. Mas ele chegou aonde está só depois de vencer um desafio pessoal. "Eu tinha medo de cobras e achava que não poderia conduzir um grupo pela mata se tivesse medo do que poderia encontrar l", diz. Para superar o pavor, ele decidiu fazer um curso no Instituto Butantan. Deu certo. "Aprendi a reconhecer cobras e a tocar nelas. Aprendi também a socorrer as vítimas", afirma Simões.

A Venturas e Aventuras já é um exemplo da segunda geração de operadoras de ecoturismo. Os dois sócios de Simões são ex-funcionários da Ambiental Expedições que resolveram montar um negócio próprio e explorar outros nichos. Hoje, ela é a única operadora com uma filial na Chapada Diamantina, na Bahia, destino no qual se especializou. Nesse mercado, é comum as agências e as operadoras menores se especializarem em determinado tipo de passeio. A Terra Mater Expedições é outra operadora jovem (começou em 1999) que descobriu seu filão: oferece viagens de um dia ou de um fim de semana aos clientes que desejam afastar-se da capital e não dispõem de muito tempo. Mas os viajantes sempre voltam e querem ir mais longe. "Muitos clientes começam com viagens pequenas", diz Alex Marques, um dos sócios da Terra Mater. "Alguns acabam se aventurando num barco russo até o Pólo Sul, uma de nossas viagens mais exclusivas." Outros nichos são explorados por operadoras mais antigas, como a Pisa Trekking (que carrega no nome sua especialidade, as caminhadas), a HighLand Adventures (que só vende pacotes internacionais para destinos exóticos, como o Tibete) ou a Climb Expedições (especializada na América Latina, principalmente Peru, Patagônia e Ilhas Galápagos).

Os destinos brasileiros ainda são os mais procurados pelos ecoturistas paulistanos. O campeão é Brotas, a 261 quilômetros de São Paulo. A cidade oferece trilhas para caminhadas com vários níveis de dificuldade, rafting (travessia de corredeiras em botes de borracha) ou mesmo uma simples cavalgada. A lista de destinos preferidos no país inclui também a Chapada Diamantina, Fernando de Noronha, Bonito e Pantanal mato-grossense. "Outros destinos estão se desenvolvendo aos poucos, como a serra do Cipó, em Minas Gerais, e Jalapão, no Tocantins", diz Denise Santiago, dona da Cia. Nacional de Ecoturismo, única agência em São Paulo que vende exclusivamente pacotes de ecoturismo e de esporte de aventura. Formada em educação física, Denise buscava um contato maior com a natureza desde a época em que trabalhava como técnica de ginástica olímpica. A oportunidade veio quando recebeu uma oferta de emprego da Pisa Trekking, onde trabalhou dois anos. Dali saiu para montar a própria agência, que vendeu 838 pacotes de ecoturismo no ano passado, mais que o dobro do ano anterior.

Os donos das operadoras afirmam que o mercado ainda não está saturado, mas têm um receio comum: que as grandes empresas de turismo sejam atraídas para esse segmento e acabem por massificar os passeios e destruir os destinos. Para que isso não aconteça, esperam que o governo tome providências para regulamentar as visitas aos parques e aos destinos naturais. Uma parte desse trabalho talvez tome corpo ainda em 2002, declarado pela ONU como o Ano Internacional do Ecoturismo. Num encontro em Quebec, no Canadá, em maio, as nações participantes, incluindo o Brasil, propuseram um código de ética universal para a exploração do ecoturismo e a preservação dos ecossistemas.

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