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Não aos feriadões fake

Assim como samba, cerveja e futebol, os feriados prolongados são uma preferência nacional — e um símbolo do baixo nível de produtividade do brasileiro

O "feriadão fake" é aquele no meio da semana (terça, quarta ou quinta) (Getty Images/Getty Images)

O "feriadão fake" é aquele no meio da semana (terça, quarta ou quinta) (Getty Images/Getty Images)

Publicado em 29 de maio de 2024 às 18h33.

Última atualização em 29 de maio de 2024 às 18h43.

Por Fernando Goldsztein*

Que tal emendar este feriado de Corpus Christi e fazer um feriadão de quatro dias? Ou então, que tal um feriado perdido numa quarta para dar uma descansada no meio da semana? Nada mal, não?
Não tenho nada contra quem curte um feriadão emendado, ou feriadão fake, como tomo a liberdade de batizar. Afinal, o que tem de mais “enforcar” a sexta, quando temos um feriado na quinta-feira? Ou a segunda, quando o feriado cai numa terça-feira? Porque não? A semana já estará “quebrada”, não é mesmo?

Muito provavelmente a ideia que vou lançar aqui não será popular, pelo menos num primeiro momento. Afinal, que atire a primeira pedra quem não curte um feriado prolongado. Assim como o samba, a cerveja e o futebol, feriados prolongados são uma preferência nacional. Então, por que raios eu estaria levantando uma polêmica e ainda me posicionando contra algo adorado por todos? Não teria eu nada melhor pra fazer?

Explico. O meu ponto aqui contra os feriadões fake é em função do baixo nível de produtividade do Brasil — e do brasileiro. Em linhas gerais, o nível de produtividade de um trabalhador se mede pela sua capacidade de produzir mais com menos recursos (matéria-prima ou tempo). Quanto maior a produtividade de um país, maior será o seu nível de competitividade e, por conseqüência, melhor será a remuneração de seus trabalhadores

O Brasil tem uma capacidade produtiva muito baixa, uma das menores do mundo. É claro que existem vários fatores responsáveis por esta defasagem. Entre eles estão o baixo nível educacional; o reduzido investimento em tecnologia; a infraestrutura precária; o excesso de burocracia; a elevada carga tributária e o juros altos. Todos estes fatores expostos acima são complexos e, para serem transpostos, exigirão tempo, vontade política e vultosos investimentos.

Entretanto, existem também pequenas causas que, pouco a pouco, ajudam a minar a nossa já combalida capacidade de produção. Uma delas é justamente o feriado no meio da semana (terça, quarta ou quinta) que acaba sendo transformado em feriadão fake.

Nos Estados Unidos, país com índice de produtividade quatro vezes maior que o nosso, os feriados são sempre numa segunda-feira específica de cada mês — a exceção ocorre para o 4 de Julho (independência), o Dia de Ação de Graças e o Ano Novo.

O dia em memória a Martin Luther King, por exemplo, é sempre na terceira segunda-feira de janeiro. Já o Dia do Trabalhador, outro feriado nacional, é sempre na primeira segunda-feira de setembro. E assim, são todos os feriados do ano, sempre nas segundas. Portanto, não existe semana de apenas três dias úteis, feriados ponte, fake ou feriados que intercalam com dias de produção.

Sei que encontrarei resistências. Mas, como diz um velho amigo, se fosse fácil já estaria feito. Torço para que algum deputado federal leia este texto, se sensibilize com a ideia e apresente um projeto de lei.

Afinal, a redução da desigualdade social passa pelo aumento da produtividade. Não existe outro caminho.

*Fernando Goldsztein é fundador do The Medulloblastoma Initiative e conselheiro do Childrens National Hospital

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