Minério de ferro: novos projetos buscam ampliar a conexão entre minas, ferrovias e portos brasileiros. (Cedro/Divulgação)
Exame Brand Solutions
Publicado em 14 de setembro de 2026 às 17h30.
O Brasil exportou 416 milhões de toneladas de minério de ferro em 2025, alta de cerca de 7% em relação ao ano anterior, segundo a Secretaria de Comércio Exterior. As vendas somaram US$ 28,9 bilhões e colocaram a commodity como o terceiro produto mais exportado pelo país, atrás de petróleo e soja.
Levar esse volume das minas aos portos, porém, ainda é um desafio. A produção mineral brasileira depende de uma rede concentrada em poucos corredores e com forte participação do transporte rodoviário. Quando falta conexão entre as diferentes etapas, aumentam os custos, os prazos e o risco de gargalos no escoamento.
A infraestrutura, por isso, passou a ocupar um lugar central nos planos de expansão das mineradoras. Segundo a Mordor Intelligence, o mercado brasileiro de logística minerária deve crescer de US$ 8,66 bilhões em 2026 para US$ 11,33 bilhões em 2031, uma alta média de 5,53% ao ano.
Na Cedro Mineração, os investimentos estão distribuídos por diferentes etapas do percurso do minério. Em Mariana (MG), onde a companhia prevê aplicar R$ 3,5 bilhões na expansão das operações, a Cedro vai instalar um Transportador de Correia de Longa Distância (TCLD), uma espécie de esteira de grande escala capaz de transportar o minério por quilômetros de forma contínua. Com cerca de 20 quilômetros, o sistema fará a ligação entre a área de produção e a conexão ferroviária.
A estrutura terá capacidade para movimentar entre 1.800 e 2.000 toneladas por hora. Na prática, o TCLD permitirá substituir parte do trajeto hoje realizado por carretas por um sistema contínuo de transporte, reduzindo a circulação de veículos pesados e dando mais previsibilidade ao fluxo de minério.
O projeto usa um modelo curvo, capaz de acompanhar o relevo e contornar montanhas e vales sem a necessidade de construir novas estruturas a cada mudança de direção. A inspeção será feita por um robô equipado com inteligência artificial e sensores de vibração, temperatura e velocidade. Toda a operação poderá ser acompanhada remotamente por uma sala de controle.
A obra integra um pacote mais amplo de expansão, que inclui mudanças nas etapas de processamento do minério.
“Estamos alocando os recursos principalmente no aprimoramento de processos críticos dentro das nossas plantas, com destaque para as áreas de moagem e flotação. É através dessa reestruturação tecnológica e das obras de expansão em Mariana que nós projetamos aumentar a nossa capacidade produtiva total, saltando para a casa de 10 a 11 milhões de toneladas nos próximos três anos”, afirma Wanderley Santo, vice-presidente de Operações da Cedro Mineração.
A redução da dependência das rodovias também orienta a Ferrovia Serra Azul, projetada para conectar a produção mineral da Região Metropolitana de Belo Horizonte à malha ferroviária nacional.
O ramal terá 26,4 quilômetros entre a zona rural de Mateus Leme e a linha existente em Mário Campos. A partir desse ponto, as cargas poderão seguir pela rede ferroviária até o Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro.
Autorizado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres, o projeto tem investimento estimado em R$ 2 bilhões e capacidade prevista de até 25 milhões de toneladas por ano. O plano operacional contempla cinco trens diários, cada um com 136 vagões e cerca de 14,7 mil toneladas.
Segundo a companhia, uma única composição poderá substituir até 525 caminhões. Considerando a operação prevista, a estimativa é reduzir em cerca de 5 mil as movimentações diárias de veículos pesados na BR-381. As obras devem começar em 2028, com o início da operação previsto para 2031.
A ferrovia poderá atender também mineradoras de pequeno e médio portes da região, que nem sempre conseguem acessar os grandes corredores logísticos. Na prática, o ramal funcionará como uma ligação de curta distância entre as áreas produtoras e uma rede com alcance nacional.
Essa conexão pesa na disputa pelo mercado externo. Países produtores mais próximos da Ásia, principal destino do minério de ferro, partem com vantagem no custo do transporte.
“No cenário internacional, eu sempre reitero que o nosso verdadeiro desafio está na logística, uma vez que concorrentes como a Austrália estão geograficamente muito mais próximos do mercado asiático. No entanto, garanto que o grande diferencial brasileiro reside na qualidade excepcional do nosso produto”, diz José Carlos Martins, presidente do Conselho da Cedro Participações.
No Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro, a Cedro Participações assinou o contrato de concessão da área ITG-02, onde será construído o Porto do Meio. O espaço tem aproximadamente 350 mil metros quadrados e será destinado à armazenagem e à movimentação de granéis sólidos minerais.
Com obras previstas entre 2027 e 2029, o terminal terá capacidade para movimentar até 15 milhões de toneladas por ano. Além da produção ligada ao grupo, poderá receber cargas de outras mineradoras que hoje têm acesso limitado à infraestrutura portuária.
A abertura do terminal para terceiros pode ampliar as alternativas disponíveis em um setor que ainda depende de poucos corredores para transportar grandes volumes. Em um país que exporta centenas de milhões de toneladas de minério por ano, ampliar essas conexões será fundamental para sustentar a expansão do setor e sua competitividade no mercado internacional.