A confiança dos CEOs voltou a cair. Não por falta de oportunidades, mas porque a lista de riscos deixou de ser conjuntural e passou a ser estrutural. Geopolítica, tecnologia, inflação e clima agora disputam espaço na mesa de decisões.
Esse é o pano de fundo da 29ª edição da CEO Survey da PwC, que ouviu mais de 4.400 executivos em 95 países. O estudo mostra líderes menos confiantes no curto prazo, mas ainda dispostos a mudar o modelo de negócio para sustentar crescimento.
No Brasil, o movimento é claro. Mais da metade dos CEOs afirma que suas empresas já competem fora de seus setores tradicionais. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial ganhou status de prioridade estratégica, mesmo sem retorno financeiro garantido.
“A diminuição da confiança está vinculada a uma quantidade de incertezas: questões geopolíticas, dificuldades locais, conflitos globais e a realocação das cadeias de produção, que ainda não está estabilizada”, afirma Marco Castro, CEO da PwC Brasil.
O momento ajuda a explicar por que essa pauta ganha relevância agora. A confiança dos CEOs brasileiros no crescimento da receita nos próximos 12 meses caiu para 38%, ante 50% no ano anterior. O ajuste não indica colapso, mas um ambiente mais defensivo.
Olhando para 2026, a expectativa é de estabilidade, consolidação e maior cobrança por eficiência. “Não se espera um ano desastroso em resultados, mas sim uma estabilidade ou consolidação, buscando tirar proveito do que já foi investido”, diz Castro.
Confiança cai, cautela sobe
A perda de confiança não é um fenômeno isolado do Brasil. Globalmente, apenas 30% dos CEOs dizem estar muito ou extremamente confiantes no crescimento da receita no curto prazo.
No Brasil, o recuo foi mais intenso. Ainda assim, quando o horizonte se estende para três anos, o pessimismo diminui. O problema não está na estratégia, mas no caminho até lá.
Esse ambiente ajuda a explicar por que 15% dos CEOs afirmam estar menos propensos a realizar grandes investimentos ou aquisições diante da incerteza geopolítica. O risco não é apenas errar, mas errar grande.
Reinvenção fora do setor virou estratégia central
Para driblar a estagnação dos negócios tradicionais, os CEOs estão atravessando fronteiras setoriais. No Brasil, 51% dizem que suas empresas passaram a competir em novos setores nos últimos cinco anos, acima da média global de 42%.
Os dados mostram que a estratégia tem retorno. Empresas com maior participação de receita vinda de novos setores tendem a ter margens mais altas e líderes mais confiantes.
“O estudo mostra que barreiras entre setores tradicionais estão sendo eliminadas”, afirma Castro. “Hoje é mais relevante olhar para o ciclo completo. O agronegócio, por exemplo, envolve energia, logística e clima. Não dá para olhar o setor isoladamente.”
IA avança, mas retorno financeiro ainda é limitado
A inteligência artificial ocupa o centro da agenda dos CEOs, mas os ganhos financeiros seguem concentrados. No Brasil, 37% relatam aumento de receita com IA nos últimos 12 meses e 28% indicam redução de custos. Ainda assim, 56% dizem não ter obtido nenhum benefício.
Segundo Castro, o gargalo está no uso superficial da tecnologia. “Muitas empresas ainda usam a IA isoladamente em processos, em vez de redesenhar o modelo de negócios. É como no início dos computadores, quando se digitalizava sem mudar o processo”, afirma.
A expectativa é que esse cenário comece a mudar em 2026, com o avanço de agentes de IA e aplicações mais integradas à estratégia.
Menos vagas de entrada e pressão sobre talentos
O impacto da IA no mercado de trabalho já aparece com força. Para 60% dos CEOs brasileiros, suas empresas precisarão de menos profissionais em início de carreira nos próximos três anos. O percentual global é de 49%.
Para cargos de nível médio e sênior, a expectativa é de menor impacto. O risco, segundo Castro, está na formação de lideranças futuras. “A falta de equilíbrio trará problemas, como dificuldade na formação de jovens profissionais.”
Clima entra no radar, mas ainda pesa pouco nas decisões
As mudanças climáticas já são percebidas como risco financeiro, mas seguem fora do centro das decisões estratégicas. Quatro em cada dez CEOs brasileiros afirmam que suas empresas estão pelo menos moderadamente expostas a perdas financeiras relacionadas ao clima em 2026.
A preocupação é maior em setores mais sensíveis, como agronegócio e energia, mas também aparece em varejo, consumo e serviços financeiros. Ainda assim, a incorporação desse risco na gestão segue limitada.
Apenas cerca de um quarto dos CEOs diz que suas empresas têm processos definidos para considerar riscos e oportunidades climáticos em decisões como cadeia de suprimentos, compras ou desenvolvimento de produtos. Quando o assunto é alocação de capital, incluindo fusões e aquisições, esse percentual cai para cerca de 20%.
O contraste é direto: o risco climático já é reconhecido, mas ainda não orienta decisões centrais de investimento.
O curto prazo domina a agenda
No Brasil, os CEOs dedicam 57% do tempo a temas imediatos, com horizonte inferior a um ano. Apenas 11% da agenda é reservada a questões de longo prazo.
“A emergência de situações imediatas força a priorização do curto prazo”, diz Castro. “Você não chega a longo prazo se não sobreviver ao agora.”
O problema é que esse desequilíbrio tende a cobrar seu preço. Mesmo líderes que dizem se preocupar com sustentabilidade de médio e longo prazo acabam consumidos por urgências.
Geopolítica vira risco permanente
Se antes a geopolítica era ruído externo, agora virou variável central. No Brasil, 38% dos CEOs dizem estar muito ou extremamente expostos à instabilidade macroeconômica. Disrupção tecnológica e inflação vêm logo atrás.
“A geopolítica tornou-se presente na avaliação de risco o tempo todo”, afirma Castro. “A reestruturação das cadeias de suprimento ainda não foi equacionada, e o multilateralismo tradicional está sendo desafiado.”
Em um ambiente assim, a diferença entre crescer e ficar para trás passa menos por prever o futuro e mais por reagir rápido sem perder a direção.
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