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Fast Fashion: como a moda pode ameaçar o meio ambiente?

Produção em larga escala de roupas baratas e incentivo ao consumismo geram peças descartáveis; modelo também tem denúncias de violação de direitos dos trabalhadores

Produção em série com matéria-prima barata gera peças descartáveis em pouco tempo (Isabel Pavia/Getty Images)
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 20 de dezembro de 2022 às 07h30.

Última atualização em 20 de junho de 2023 às 14h37.

Uma camiseta fabricada em uma tecelagem em Bangladesh, com algodão peruano, modelagem americana, à venda em uma rede de lojas francesa em um shopping no Brasil. Ela faz parte da coleção que dura só dois meses na vitrine, até a chegada da próxima.

Essa peça ilustra bem o que é fast fashion, uma tendência de moda de ciclo rápido, onde produtos de baixa qualidade, fabricados em série a um baixo custo, inundam as prateleiras, incentivando o consumo de itens baratos e pouco duráveis, gerando muito impacto negativo.

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O que é fast fashion?

Fast fashion é um termo que expressa as rápidas mudanças na moda por grandes empresas da indústria têxtil, que por sua vez causam impacto na produção, no consumo e no meio social.

As tendências da moda mudaram rápido nas últimas décadas, forçando os trabalhadores a produzir mais a preços mais baixos.

As marcas de moda há muito usam novos estilos e preços mais baixos para atrair clientes, mas no passado planejavam novas coleções com meses ou até anos de antecedência.

Como resultado, o ritmo da mudança era relativamente lento e havia menos ofertas. Em contraste, o fast fashion se concentrou em responder às mudanças nos gostos dos consumidores o mais rápido possível.

Como o fast fashion funciona?

As empresas que trabalham com o modelo fast fashion observam como as pessoas consomem marcas conhecidas e produzem em massa estilos semelhantes, mas com qualidade inferior. Dessa forma, há uma maior garantia de que as peças serão compradas.

Além disso, essas empresas praticam a chamada moda global, permitindo que os mesmos tipos de produtos circulem em uma rede de lojas de fast fashion ao redor do mundo sem características locais, tornando o produto final muito mais barato.

As marcas não apenas respondem à demanda do consumidor, mas criam demanda, produzindo continuamente novas linhas de roupas.

Os problemas com o fast fashion

Embora os consumidores possam adorar pagar por roupas baratas e estilosas, o fast fashion tem sido criticado por seu impacto no meio ambiente, aos trabalhadores do setor de vestuário, nos animais e, em última análise, nas carteiras dos consumidores.

Resíduos têxteis

Estudos mostram que os consumidores são mais propensos a jogar fora roupas baratas e da moda do que roupas caras e atemporais.

Como são feitas com tecidos de fibras descontínuas mais baratos e finos utilizados, estas peças não podem ser recicladas em novos tecidos, indo parar em aterros sanitários e lixões.

Emissões de CO₂

Com a abundante quantidade de resíduos depositados em aterros, o fast fashion possui um impacto significativo no meio ambiente por meio das emissões de carbono. A indústria da moda é responsável por 10% das emissões anuais de dióxido de carbono (CO₂), de acordo com o grupo ambientalista Stand.earth.

Se as condições não mudarem, a indústria da moda usará até um quarto do orçamento mundial de carbono até 2050, prevêem os pesquisadores.

Poluição da água

Além da poluição por dióxido de carbono, as roupas também contribuem para a poluição dos oceanos. Roupas feitas de fibras sintéticas podem conter microplásticos. Isso inclui tecidos feitos de garrafas de água recicladas, que muitas vezes são apresentadas como uma solução ecológica.

Além disso, muitos produtos químicos usados ​​para colorir e definir tecidos, são altamente tóxicos. Desse modo, quando esses itens são lavados ou jogados em aterros sanitários, os minúsculos pedaços de plástico e produtos químicos podem ser despejados em sistemas de águas residuais, transportados para o oceano,  podendo acabar no estômago de animais.

Mão-de-obra escrava

Para produzir em massa roupas baratas rapidamente, as empresas muitas vezes violam direitos trabalhistas como prática recorrente. Condições inseguras, baixos salários e longas jornadas são alguns dos problemas apontados por organizações de direitos humanos em fábricas na Ásia.

A gigante da moda chinesa Shein, foi o centro de controvérsias recentemente, quando um documentário da rede de televisão britânica Channel 4, “Untold: Inside the Shein Machine”, expôs as más condições de trabalho dos seus funcionários.

Segundo o documentário, esses funcionários estariam tirando apenas um dia de folga por mês, fabricando produtos por menos de R$ 0,20 (0,27 yuan) e trabalhando até 18 horas por dia.

Um acordo com um estudo publicado pela organização ambiental Earth.Org, algumas marcas de moda globais, como a Zara e a japonesa Uniqlo teriam praticado “greenwashing”, gerando publicidade com afirmações falsas e enganosas sobre o impacto positivo da empresa  no meio ambiente.

De acordo com a Earth.org, elas estariam usando palavras atraentes para pautas sustentáveis, mas sem definições legaisem campanhas de marketing, como “sustentável”, “verde” ou “limpo”.

Mas os problemas sociais não são o principal problema da industria têxtil, a geração de resíduos também gera um impacto negativo no planeta. Segundo a Remake, grupo de defesa global que luta por salários justos e justiça climática na indústria de vestuário, apenas 20% dos resíduos têxteis são reutilizados ou reciclados globalmente, enquanto 80% são aterrados ou incinerados.

Tecidos de difícil reciclagem acabam em aterros sanitários e lixões a céu aberto (Ziga Plahutar/Getty Images)

Possível declínio do fast fashion?

À medida que mais e mais consumidores começam a prestar atenção aos verdadeiros custos da indústria da moda, especialmente o fast fashion, é possível observar pessoas em todo o mundo fazendo perguntas como “Quem fez minhas roupas?” ou “Quais os materiais utilizados?”.

Tais indagações anunciam um compromisso público de parte da sociedade contra as empresas que produzem roupas através da exploração das pessoas ou destruição do planeta.

Como resultado, cada vez mais varejistas estão introduzindo as chamadas iniciativas de moda sustentável, como programas de reciclagem nas lojas. Os esquemas permitem que os clientes deixem peças descartadas nas lojas, para serem recicladas em novas fibras têxteis.

No entanto, pequenas linhas de roupas ecológicas não são suficientes para combater a cultura do descarte, do desperdício e da pressão sobre os recursos naturais causados ​​pelo fast fashion. Para um verdadeiro resultado, todo o sistema precisaria ser reestruturado.

Como combater o fast fashion?

Comprar menos é o primeiro passo. Por que não dar uma nova vida àqueles jeans velhos, reformando ou criando novas peças?

Escolher bem é o segundo passo. É fundamental escolher uma peça de alta qualidade, elaborada com tecidos ecologicamente corretos. Também vale comprometer-se a comprar roupas boas de segunda mão ou apoiar marcas mais sustentáveis.

Por fim, os consumidores podem combater o fast fashion ao fazerem com que suas roupas durem, por exemplo, cuidando delas conforme as instruções de lavagem, usando-as até o desgaste, consertando-as sempre que possível e reciclando-as de forma responsável no final de sua vida útil.

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