Belmiro Gomes, CEO do Assaí: “O plano era abrir 15 lojas por ano, mas para baixar a dívida vamos abrir 5 unidades neste ano” (Germano Lüders/Divulgação)
Repórter
Publicado em 23 de junho de 2026 às 11h18.
Última atualização em 23 de junho de 2026 às 11h19.
Se pudesse voltar no tempo, Belmiro Gomes, CEO do Assaí, repetiria a maior aposta da história da companhia.
Em entrevista exclusiva ao De Frente com CEO, da EXAME, o executivo afirma que faria novamente a aquisição e reforma dos 66 pontos do Extra, operação anunciada em 2021 e que consumiu cerca de R$ 7 bilhões. A diferença é que, se soubesse qual seria a trajetória dos juros no Brasil, teria estruturado a operação de outra maneira.
"Se fosse hoje, faria a compra do Extra da mesma maneira. Talvez tivéssemos negociado de forma diferente, principalmente a correção, se soubéssemos qual seria a taxa real de juros", afirma.
A operação marcou uma mudança na estratégia da companhia. Até então, o Assaí crescia principalmente por meio da abertura de lojas em terrenos próprios. Com a aquisição dos pontos do Extra, a rede conseguiu acelerar a expansão em regiões consideradas praticamente irreplicáveis.
"Daqui a dez anos, a dívida que fizemos com a compra do Extra terá ficado para trás. Os pontos vão continuar lá", diz o CEO.
A compra permitiu ao Assaí ocupar áreas mais centrais e ampliar a presença junto aos consumidores de maior renda.
"Por muito tempo, o atacarejo foi visto como um varejão voltado para a baixa renda. Queríamos levar o modelo para outras classes sociais", afirma Belmiro.
Entre os ativos adquiridos estão unidades em regiões como Congonhas, Santos e Mooca, áreas onde seria difícil encontrar novos terrenos ou obter licenças para construir lojas.
"Alguns desses pontos são praticamente impossíveis de serem replicados", diz.
Quando a operação foi desenhada, a expectativa era de uma taxa de juros em torno de 7%. O cenário, no entanto, mudou radicalmente.
"Quando me perguntam qual série estou assistindo, eu digo que é uma série de terror chamada Selic", brinca o executivo.
Hoje, o Assaí desembolsa cerca de R$ 7 milhões por dia em despesas financeiras, incluindo fins de semana e feriados. Ainda assim, a companhia conseguiu reduzir a dívida líquida em R$ 1,2 bilhão em 2025.
"Mesmo pagando esse valor, reduzimos a dívida. Isso mostra a capacidade de geração de caixa da companhia", afirma.
O cenário levou a empresa a desacelerar investimentos e priorizar a desalavancagem do balanço.
"Estamos investindo menos do que gostaríamos para reduzir a dívida", diz.
A redução no ritmo de expansão não significa que o Assaí esteja pisando no freio em todas as frentes. Pelo contrário. Em 2026, a companhia decidiu priorizar novas avenidas de crescimento enquanto acelera a redução da dívida.
"O plano era abrir 15 lojas por ano, mas para baixar a dívida vamos abrir cinco unidades neste ano", afirma Belmiro.
Uma das principais apostas é a entrada no segmento farmacêutico. A primeira farmácia será inaugurada em julho, na loja da Marginal Tietê, em São Paulo. O plano é chegar a mais de 200 farmácias ao longo dos próximos anos.
"Se conseguimos vender alimento barato, também podemos vender medicamento barato", afirma o executivo.
A companhia também prepara uma nova frente de serviços financeiros. Após o fim da parceria exclusiva com o Itaú herdada do GPA, o Assaí aguarda aprovação do Banco Central para lançar produtos voltados principalmente aos cerca de 1 milhão de clientes B2B da rede. Entre as iniciativas estudadas estão maquininhas de cartão e programas de cashback.
Outro movimento é o fortalecimento dos canais digitais. Hoje, o Assaí é o maior vendedor de alimentos dentro do iFood e iniciou uma parceria com o Mercado Livre para ampliar a presença em marketplaces.
No radar também estão os postos de combustíveis. Com cerca de 17 milhões de veículos passando pelos estacionamentos da rede todos os meses, a companhia avalia explorar novas oportunidades ligadas ao abastecimento e à eletrificação da frota.
Além disso, Belmiro vê espaço para ampliar a participação das marcas próprias. Enquanto elas representam cerca de 23% das vendas do setor alimentar em mercados mais maduros, no Brasil a fatia ainda está próxima de 3%.
"O Assaí continua em transformação. O que nos trouxe até aqui não será exatamente o que vai nos levar para os próximos dez anos", diz Belmiro.
Hoje, o Assaí fatura R$ 84,7 bilhões, conta com cerca de 90 mil funcionários e recebe aproximadamente 40 milhões de clientes por mês. Sob o comando de Belmiro Gomes desde 2011, a companhia saiu de uma receita de R$ 3 bilhões para se tornar uma das maiores varejistas do país. Para o executivo, a aquisição do Extra será lembrada muito mais pelos ativos que deixou do que pelos juros que ajudou a encarecer.
Veja a entrevista completa de Belmiro Gomes, CEO do Assaí, no "De frente com CEO":