Negócios

Ela transforma lixo em peças sustentáveis e movimenta uma rede de mulheres em Natal

Mychelle Magalli da Silva criou a Virô Bolsas após depressão, já desviou 1,3 tonelada de resíduos de aterros, produziu mais de 4 mil peças e virou referência em economia circular

Mychelle Magalli da Silva, Virô Bolsas Sustentáveis: “Quando olho para as bolsas, vejo histórias que recomeçaram. Cada peça mostra que o lixo pode virar recurso e uma forma de reconstruir vidas a partir do trabalho.”

Mychelle Magalli da Silva, Virô Bolsas Sustentáveis: “Quando olho para as bolsas, vejo histórias que recomeçaram. Cada peça mostra que o lixo pode virar recurso e uma forma de reconstruir vidas a partir do trabalho.”

Caroline Marino
Caroline Marino

Jornalista especializada em carreira, RH e negócios

Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 10h45.

O mercado global de produtos upcycled já movimenta mais de US$ 8 bilhões e deve crescer 12% ao ano até 2030, puxado por consumidores que buscam marcas com menor pegada ambiental e impacto positivo, segundo a Research and Markets. No Brasil, onde toneladas de lonas, câmaras de ar e resíduos têxteis ainda têm destinação inadequada, cresce a demanda por soluções que integrem design, logística reversa e propósito. É nesse contexto que surge a Virô Bolsas Sustentáveis, sediada em Natal (RN), hoje referência em economia circular ao desviar mais de 1,3 tonelada de resíduos de aterros, reaproveitar 2,5 mil m² de lonas e produzir mais de quatro mil peças para clientes como Sebrae-RN, Sesi, Shopping Midway Mall, Fundação de Apoio à Educação e ao Desenvolvimento Tecnológico do Rio Grande do Norte (Funcern) e Grupo Estácio.

O caminho que dá origem à empresa não começa em uma fábrica, mas em uma sala de aula. A potiguar Mychelle Magalli da Silva dedicou mais de 15 anos ao ensino infantil, onde o reaproveitamento criativo convivia com o excesso de lixo gerado em atividades escolares. A relação com materiais, cores e improviso já fazia parte do seu cotidiano, assim como o artesanato. “Sempre quis viver daquilo que eu produzia”, lembra. O ponto de virada veio em 2017, quando uma depressão a afastou da escola e a obrigou a reorganizar sua trajetória.

Em 2019, comprou uma máquina de costura pensando em fazer roupas, mas o encontro com lonas descartadas após o Carnaval, grande evento na cidade, mudou tudo. Ao transformar os primeiros retalhos em bolsas e estojos, identificou que havia demanda e potencial. Postou seus trabalhos iniciais nas redes sociais, recebeu encomendas e viu surgir, ainda de forma intuitiva, a semente da Virô.

Base para crescer

A profissionalização chegou com o Sebrae-RN, que apoiou na organização financeira, no posicionamento empresarial e na ampliação do catálogo. “Foi quando percebi que propósito não paga boleto sozinho. Eu precisava aprender a empreender, não só a costurar”, conta.

A instituição também ajudou a ampliar o repertório de materiais ao incorporar câmaras de ar descartadas por borracharias, que é difícil de reciclar e se tornou assinatura da marca. A busca por escala levou Mychelle a investir em máquinas, padronização e processos, movimento que ganhou força em 2025, quando a Virô foi selecionada pelo Regenera Sebrae, programa em em parceria com a Yunus Social Business que acelera negócios de impacto socioambiental com base tecnológica ou digital. O aporte permitiu adquirir equipamentos industriais, como prensa de corte e balança certificada para mensurar resultados, elevando capacidade produtiva e garantindo rastreabilidade – atributo cada vez mais valorizado por organizações com metas ESG.

O reconhecimento veio em seguida. Ela conquistou o 2º lugar na etapa estadual do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios 2025, na categoria Categoria Microempreendedora Individual (MEI), foi destaque no Sebrae Impacta 2024, participou do Celeiro de Soluções na COP30 e integrou feiras e iniciativas como Conexão ODS, Brasil Mostra Brasil, Midway Fashion Days e o Pitch Final do Regenera. As participações fortaleceram a visibilidade e abriram portas em diferentes frentes comerciais. Em janeiro de 2026, a marca estará no Inspira Mais – Porto Alegre, maior salão de inovação em moda sustentável da América Latina, e volta a São Paulo em julho para fortalecer conexões e acessar novos compradores.

Sustentabilidade e os desafios de escalar

A operação nasceu da preocupação ambiental, mas evoluiu para um modelo que combina redução de resíduos com impacto social direto. Emprega mulheres em situação de vulnerabilidade, oferecendo formação técnica e renda digna. Esse movimento levou à criação do Virô Forma, programa que oferece capacitação em costura e upcycling com materiais rígidos e processos complexos. “A maioria chega sem experiência, mas encontra aqui oportunidade e pertencimento”, afirma Mychelle. Pesquisas do Banco Interamericano de Desenvolvimento mostram que negócios liderados por mulheres tendem a reinvestir mais nas comunidades, algo perceptível no ateliê, onde aprendizes se tornam colaboradoras e ampliam o retorno local.

Porém, os desafios fazem parte do caminho. A ausência de políticas robustas de logística reversa dificulta o acesso contínuo a descartes e exige adaptação a cada novo lote de materiais, que chegam com texturas, cores e desgastes variados. Essa instabilidade se converteu em diferencial competitivo: cada peça é única, característica valorizada por consumidores mais conscientes. De acordo com Simon-Kucher, 63% dos brasileiros preferem marcas responsáveis e estão dispostos a pagar mais por produtos com efeito positivo, tendência que apoia o crescimento da Virô. Como parte da estratégia, a empresa fortaleceu parcerias com organizações locais, expandiu vendas em feiras e se tornou fornecedora de produtos corporativos desenvolvidos com resíduos das próprias companhias – segmento que deve ganhar relevância em 2026.

A força do movimento

Entre os planos estão aumentar o ateliê, estruturar novos pontos de venda e fortalecer a presença digital, sem abrir mão da essência artesanal nem da responsabilidade socioambiental. “A Virô nasceu pequena, mas nasceu certa”, afirma Mychelle. Ela reconhece o desafio de crescer mantendo valores, mas entende a potência transformadora do próprio empreendimento. “Quando olho para as bolsas, vejo histórias que recomeçaram. Cada peça mostra que o lixo pode virar recurso e uma forma de reconstruir vidas a partir do trabalho.”

Na visão da potiguar, empreender com propósito é um ato de coragem. “Comece com o que você tem. Não espere o caminho ficar claro, apenas caminhe. O mundo precisa de mulheres que criam, inovam e cuidam – do planeta, das pessoas e de si mesmas”, finaliza.

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