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Sobrevivência após parada cardíaca salta de 3% para 60% com nova tecnologia que chega ao Brasil

Resuscitec, empresa alemã de saúde, negocia entrada no SUS com sistema móvel de ressuscitação já usado em 12 países

Georg Trummer, Jorg Ronde, Natalia Seipel e Christoph Benk, da Resuscitec: aposta no Brasil (Divulgação/Divulgação)

Georg Trummer, Jorg Ronde, Natalia Seipel e Christoph Benk, da Resuscitec: aposta no Brasil (Divulgação/Divulgação)

Karla Dunder
Karla Dunder

Freelancer

Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 06h03.

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A parada cardíaca ainda é um evento quase sempre fatal. Mesmo em países com sistemas de saúde estruturados, a chance de sobreviver raramente passa de 10%. No Brasil, esse número cai para cerca de 3%.

É nesse cenário que uma empresa alemã começa a negociar sua entrada no país com o governo brasileiro.

A Resuscitec, spin-off do Centro Médico Universitário de Freiburg, está em conversas com órgãos públicos e hospitais para trazer ao Brasil o CARL, um sistema móvel de ressuscitação extracorpórea.

A companhia desenvolveu uma tecnologia capaz de ressuscitar pacientes mesmo após até 90 minutos sem batimentos cardíacos, com recuperação neurológica preservada.

Na Europa, o sistema já mudou o padrão de sobrevivência em casos considerados irreversíveis.

A Resuscitec está em fase de expansão internacional. Após validar a tecnologia em hospitais selecionados da Europa, a empresa acelera a entrada em novos mercados — e o Brasil virou prioridade.

“O Brasil é a porta de entrada da América Latina. É um país continental, com grande população e uma necessidade clara no sistema público de saúde”, afirma Jörg Alexander Ronde, CFO e COO da Resuscitec.

As negociações no país envolvem o SUS, universidades, hospitais públicos e instituições privadas.

Os protocolos regulatórios já foram iniciados, e a empresa trabalha com a expectativa de iniciar treinamentos médicos ainda em 2026.

Até 60% de chance de sobreviver

A origem da tecnologia vem da prática clínica. Christoph Benk e Georg Trummer, cirurgiões cardíacos, trabalhavam diariamente com máquinas coração-pulmão em cirurgias de alta complexidade.

A pergunta era simples e incômoda: se é possível parar e reiniciar um coração em cirurgia, por que não aplicar esse conceito à ressuscitação?

“Antes, a chance de sobreviver a uma parada cardíaca na Alemanha era de 5% a 8%. Com o CARL, em centros experientes, conseguimos taxas entre 40% e 60%”, afirma Christoph Benk, CEO e cofundador da empresa.

O sistema assume temporariamente as funções do coração e dos pulmões, controla oxigenação, pressão, temperatura e até 14 parâmetros sanguíneos em tempo real. O objetivo é proteger o cérebro no momento mais crítico da ressuscitação.

Brasil como hub

A estratégia agora é escalar. Hoje, há mais de 100 sistemas CARL instalados, com mais de 800 pacientes tratados em 12 países europeus.

Em hospitais selecionados, a maioria dos sobreviventes retorna sem sequelas neurológicas.

A empresa aposta em um modelo de crescimento baseado em hubs metropolitanos.

A ideia é instalar o sistema em grandes centros, como São Paulo, e criar redes regionais com uso em ambulâncias, helicópteros e transporte aéreo.

“O sistema é totalmente móvel. Pode ser usado em ambulâncias, helicópteros ou aviões. Isso muda completamente a lógica da ressuscitação”, diz Benk.

Além da ressuscitação, a Resuscitec avança em novas frentes: preservação de órgãos para transplante, perfusão de membros amputados, trauma grave e aplicações militares. Essas novas indicações estão no centro da próxima rodada de investimentos.

A jornada da Resuscitec

A história começa em 2004, com pesquisas acadêmicas em Freiburg. Em 2010, os pesquisadores fundaram a Resuscitec para transformar ciência em produto.

O desenvolvimento técnico ganhou escala a partir de 2014, e a aprovação para uso clínico veio em 2020.

A pandemia atrasou a expansão comercial, mas não interrompeu o projeto. “A Covid foi crítica, mas tivemos investidores fortes, que aportaram mais capital para manter a velocidade”, afirma Ronde.

Desde então, a empresa acelerou.

Os números por trás da tecnologia

  • Investimento total desde 2010: cerca de US$ 130 milhões

  • Número de acionistas: 19 investidores privados, family offices e fundações

  • Equipamentos instalados: mais de 100

  • Pacientes tratados: mais de 800

  • Taxa de sobrevivência com CARL: entre 40% e 60%

  • Sobrevivência sem danos neurológicos: maioria dos casos em centros experientes

A empresa fechou sua última rodada recentemente e projeta atingir o break even ainda este ano.

A nova captação em andamento busca US$ 20 milhões, com foco em expansão global e desenvolvimento de novas aplicações, como perfusão de órgãos.

Brasil no centro da estratégia

A operação brasileira é liderada por Natalia Seipel, diretora global de desenvolvimento corporativo e de negócios da companhia.

O plano envolve treinamentos médicos na Alemanha, parcerias com universidades e negociações com governos estaduais e federal.

“O interesse do setor público é claro. Se você reduz pessoas dependentes do sistema de saúde após uma parada cardíaca, reduz custo e aumenta qualidade de vida”, afirma Ronde.

Para a empresa, o Brasil não é apenas mais um mercado. É o teste decisivo para provar que a tecnologia pode escalar em países com sistemas públicos complexos — e salvar milhares de vidas no processo.

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