A parada cardíaca ainda é um evento quase sempre fatal. Mesmo em países com sistemas de saúde estruturados, a chance de sobreviver raramente passa de 10%. No Brasil, esse número cai para cerca de 3%.
É nesse cenário que uma empresa alemã começa a negociar sua entrada no país com o governo brasileiro.
A Resuscitec, spin-off do Centro Médico Universitário de Freiburg, está em conversas com órgãos públicos e hospitais para trazer ao Brasil o CARL, um sistema móvel de ressuscitação extracorpórea.
A companhia desenvolveu uma tecnologia capaz de ressuscitar pacientes mesmo após até 90 minutos sem batimentos cardíacos, com recuperação neurológica preservada.
Na Europa, o sistema já mudou o padrão de sobrevivência em casos considerados irreversíveis.
A Resuscitec está em fase de expansão internacional. Após validar a tecnologia em hospitais selecionados da Europa, a empresa acelera a entrada em novos mercados — e o Brasil virou prioridade.
“O Brasil é a porta de entrada da América Latina. É um país continental, com grande população e uma necessidade clara no sistema público de saúde”, afirma Jörg Alexander Ronde, CFO e COO da Resuscitec.
As negociações no país envolvem o SUS, universidades, hospitais públicos e instituições privadas.
Os protocolos regulatórios já foram iniciados, e a empresa trabalha com a expectativa de iniciar treinamentos médicos ainda em 2026.
Até 60% de chance de sobreviver
A origem da tecnologia vem da prática clínica. Christoph Benk e Georg Trummer, cirurgiões cardíacos, trabalhavam diariamente com máquinas coração-pulmão em cirurgias de alta complexidade.
A pergunta era simples e incômoda: se é possível parar e reiniciar um coração em cirurgia, por que não aplicar esse conceito à ressuscitação?
“Antes, a chance de sobreviver a uma parada cardíaca na Alemanha era de 5% a 8%. Com o CARL, em centros experientes, conseguimos taxas entre 40% e 60%”, afirma Christoph Benk, CEO e cofundador da empresa.
O sistema assume temporariamente as funções do coração e dos pulmões, controla oxigenação, pressão, temperatura e até 14 parâmetros sanguíneos em tempo real. O objetivo é proteger o cérebro no momento mais crítico da ressuscitação.
Brasil como hub
A estratégia agora é escalar. Hoje, há mais de 100 sistemas CARL instalados, com mais de 800 pacientes tratados em 12 países europeus.
Em hospitais selecionados, a maioria dos sobreviventes retorna sem sequelas neurológicas.
A empresa aposta em um modelo de crescimento baseado em hubs metropolitanos.
A ideia é instalar o sistema em grandes centros, como São Paulo, e criar redes regionais com uso em ambulâncias, helicópteros e transporte aéreo.
“O sistema é totalmente móvel. Pode ser usado em ambulâncias, helicópteros ou aviões. Isso muda completamente a lógica da ressuscitação”, diz Benk.
Além da ressuscitação, a Resuscitec avança em novas frentes: preservação de órgãos para transplante, perfusão de membros amputados, trauma grave e aplicações militares. Essas novas indicações estão no centro da próxima rodada de investimentos.
A jornada da Resuscitec
A história começa em 2004, com pesquisas acadêmicas em Freiburg. Em 2010, os pesquisadores fundaram a Resuscitec para transformar ciência em produto.
O desenvolvimento técnico ganhou escala a partir de 2014, e a aprovação para uso clínico veio em 2020.
A pandemia atrasou a expansão comercial, mas não interrompeu o projeto. “A Covid foi crítica, mas tivemos investidores fortes, que aportaram mais capital para manter a velocidade”, afirma Ronde.
Desde então, a empresa acelerou.
Os números por trás da tecnologia
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Investimento total desde 2010: cerca de US$ 130 milhões
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Número de acionistas: 19 investidores privados, family offices e fundações
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Equipamentos instalados: mais de 100
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Pacientes tratados: mais de 800
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Taxa de sobrevivência com CARL: entre 40% e 60%
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Sobrevivência sem danos neurológicos: maioria dos casos em centros experientes
A empresa fechou sua última rodada recentemente e projeta atingir o break even ainda este ano.
A nova captação em andamento busca US$ 20 milhões, com foco em expansão global e desenvolvimento de novas aplicações, como perfusão de órgãos.
Brasil no centro da estratégia
A operação brasileira é liderada por Natalia Seipel, diretora global de desenvolvimento corporativo e de negócios da companhia.
O plano envolve treinamentos médicos na Alemanha, parcerias com universidades e negociações com governos estaduais e federal.
“O interesse do setor público é claro. Se você reduz pessoas dependentes do sistema de saúde após uma parada cardíaca, reduz custo e aumenta qualidade de vida”, afirma Ronde.
Para a empresa, o Brasil não é apenas mais um mercado. É o teste decisivo para provar que a tecnologia pode escalar em países com sistemas públicos complexos — e salvar milhares de vidas no processo.

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