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Ela mostrou o caminho para o Brasil exportar quase US$ 1,5 bi em pedras

Com exportações recordes e nova edição da feira Marmomac Brazil, Flávia Milaneze aposta no Oriente Médio para ampliar mercados e reduzir a dependência dos Estados Unidos

Flávio Milaneze: "Com o protagonismo que o Brasil assumiu no setor de rochas, o interesse internacional foi natural" (Divulgação/Divulgação)

Flávio Milaneze: "Com o protagonismo que o Brasil assumiu no setor de rochas, o interesse internacional foi natural" (Divulgação/Divulgação)

Karla Dunder
Karla Dunder

Freelancer

Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 08h19.

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O setor de rochas naturais vive um momento raro de convergência.

O Brasil bateu recorde histórico de exportações em 2025, avançou no Oriente Médio com um acordo logístico inédito e, ao mesmo tempo, colocou São Paulo no mapa das grandes feiras globais do setor.

No centro dessa engrenagem está Flávia Milaneze, executiva que transformou uma empresa familiar do Espírito Santo em ponte entre o mercado brasileiro e os principais polos internacionais de pedra natural.

A história começa em um setor ainda pouco conhecido fora do circuito técnico, mas estratégico para a balança comercial brasileira.

Em 2025, as exportações de rochas naturais somaram US$ 1,48 bilhão, alta de 17,5% em relação a 2024, o melhor resultado da história, segundo a Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas).

Mesmo com a queda nas vendas de mármore e granito, afetadas pelo tarifaço, o avanço dos quartzitos sustentou o crescimento e elevou o preço médio dos produtos brasileiros no exterior.

É nesse contexto que a Milanez & Milaneze, empresa fundada em 1989 pelos pais de Flávia, volta ao centro da pauta.

A companhia, que começou organizando eventos ligados ao mármore e granito no Espírito Santo, hoje opera cinco feiras em setores-chave da economia e organiza a Marmomac Brazil, edição brasileira da maior feira de pedras naturais do mundo, que acontece em São Paulo entre 24 e 26 de fevereiro de 2026.

“Nosso papel vai muito além de entregar três ou quatro dias de evento. A gente acompanha o setor o ano inteiro, discute tendências, promoção internacional e abertura de mercados”, afirma Flávia Milaneze, CEO da Milanez & Milaneze.

A segunda edição da Marmomac Brazil ocorre em um momento decisivo.

Depois de uma estreia que reuniu 12.000 visitantes de 75 países, a feira dobra de tamanho em 2026 e se consolida como a principal vitrine internacional das rochas naturais brasileiras.

O olhar agora é de longo prazo. Para Flávia, a feira é só uma peça de uma estratégia maior: posicionar o Brasil como protagonista global, não apenas como fornecedor de matéria-prima, mas como referência em design, valor agregado e sustentabilidade.

De empresa familiar à plataforma setorial

A Milanez & Milaneze nasceu em 1989, fundada pelos pais de Flávia, com foco inicial no setor de mármore e granito.

O primeiro grande evento da empresa funcionou como ponto de inflexão. A partir dali, a organização se estruturou para atuar de forma permanente com feiras e eventos.

Ao longo de mais de 35 anos, a empresa ampliou sua atuação para diferentes segmentos ligados à economia capixaba e, depois, nacional.

Hoje, mantém um portfólio de cinco eventos de calendário: dois de pedras naturais, um de vinhos, um de inovação industrial e um de logística.

A equipe soma cerca de 35 funcionários fixos, além de projetos paralelos ao longo do ano. O faturamento anual é de R$ 30 milhões.

“A gente não se vê como uma organizadora de eventos. Somos uma plataforma de soluções para setores específicos”, diz Flávia.

Segundo ela, cada feira é o ponto de chegada de um trabalho contínuo de relacionamento, inteligência de mercado e promoção setorial.

Feira Marmorac, em São Paulo: 12.000 visitantes, público qualificado, e presença internacional expressiva (Divulgação/Divulgação)

A virada internacional e a parceria italiana

O crescimento do setor de rochas naturais brasileiro chamou a atenção do mercado internacional.

Em 2013, a Milanez & Milaneze fechou parceria com o grupo italiano VeronaFiere, responsável pela Marmomac, principal feira mundial de pedra natural, realizada em Verona.

O grupo adquiriu 60% da empresa brasileira, encerrando o ciclo como companhia familiar e iniciando um processo de internacionalização.

Desde então, a Milanez & Milaneze se tornou o braço da VeronaFiere no Brasil.

“Com o protagonismo que o Brasil assumiu no setor de rochas, o interesse internacional foi natural”, afirma Flávia.

A parceria permitiu trazer para o país eventos globais e usar a rede internacional do grupo italiano para ampliar a presença brasileira no exterior.

Além das pedras naturais, a aliança abriu caminho para a entrada no mercado de vinhos, com a criação da Wine South America, realizada em Bento Gonçalves, hoje em sua sexta edição.

O Brasil das pedras: números e desafios

O Brasil é hoje o quarto maior produtor e o quinto maior exportador de rochas naturais do mundo. Sua principal vantagem competitiva é a diversidade geológica.

O país concentra a maior variedade de pedras naturais do planeta e detém algumas das reservas mais relevantes de quartzito, material que ganhou espaço global por unir resistência e apelo estético.

Em 2025, mesmo com a queda de cerca de 8% nas exportações de granito e 7% nas de mármore, o setor cresceu.

O quartzito, que ficou fora das tarifas adicionais, compensou a retração e puxou o faturamento. O crescimento total foi de aproximadamente 17% sobre 2024.

Os Estados Unidos seguem como principal destino, com cerca de 53% das exportações brasileiras.

A China aparece na sequência, com cerca de 17,5%, e a Itália completa o trio, com crescimento de mais de 40% no ano.

O desafio, segundo Flávia, é reduzir a dependência de poucos mercados e avançar em regiões como o Oriente Médio.

A feira como ferramenta de expansão

Foi dessa leitura estratégica que nasceu a decisão de levar a Marmomac para São Paulo.

Depois de duas décadas realizando feiras no Espírito Santo, a Milanez & Milaneze entendeu que o estado havia cumprido seu papel como polo inicial.

“São Paulo é onde as tendências nascem e onde está uma das maiores economias da América Latina. Não fazia mais sentido ficar restrito”, afirma Flávia.

A primeira edição da Marmomac Brazil, em 2025, confirmou a aposta. Foram 12.000 visitantes, público altamente qualificado, e presença internacional expressiva.

Em 2026, a feira ocupa dois pavilhões do Distrito Anhembi, com expectativa de 15.000 visitantes, representantes de 56 países e expositores de oito estados brasileiros, além de delegações internacionais da Turquia, Índia, China, Itália, Espanha e Portugal.

“A Marmomac Brazil nasce grande, com propósito e identidade própria, reafirmando o protagonismo do Brasil no mercado global de rochas naturais”, afirma Flávia.

Hub no Oriente Médio e novos mercados

A estratégia de internacionalização ganhou um novo capítulo em novembro de 2025, com a assinatura de um memorando de entendimento entre a Centrorochas e o Porto de Abu Dhabi.

O acordo cria as bases para o Brazilian Natural Stone Hub, um centro logístico e promocional no Oriente Médio.

Entre janeiro e outubro de 2025, o Brasil exportou US$ 20,7 milhões em rochas naturais para a região, crescimento de 146,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os Emirados Árabes Unidos lideram, com US$ 13,5 milhões.

“O hub surge para reduzir custos logísticos, garantir estoque e dar presença institucional contínua ao Brasil”, afirmou Fábio Cruz, vice-presidente da Centrorochas, durante a assinatura do acordo.

Flávia Milaneze integrou a delegação brasileira no evento, reforçando o papel da Marmomac Brazil como plataforma de conexão entre produtores, compradores e novos mercados.

O futuro da Marmomac Brazil

Para 2026, a feira aposta em uma narrativa mais ampla.

Um espaço de cerca de 600 metros quadrados vai apresentar a jornada da pedra natural, da formação geológica ao design final, com foco em sustentabilidade, tecnologia e novas aplicações.

“A pedra natural é vista como um material pouco sustentável, mas o ciclo de vida dela é mais simples do que o de materiais industrializados”, afirma Flávia.

Segundo ela, informar o mercado brasileiro é tão estratégico quanto abrir novas fronteiras no exterior.

A Marmomac Brazil entra em sua segunda edição como peça-chave de um setor que cresce, se diversifica e busca mais valor agregado.

E consolida Flávia Milaneze como uma das principais articuladoras dessa transformação, conectando tradição familiar, estratégia global e um mercado que ainda tem muito espaço para crescer.

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