Bianca Coimbra, CEO e cofundadora da Lynv: “Comece com consistência, estude o mercado, entenda o produto e aceite que aprender faz parte do percurso."
Jornalista especializada em carreira, RH e negócios
Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 11h30.
“Oportunidades são construídas, não encontradas”, diz a empresária e influenciadora Bianca Coimbra. Filha de comerciantes, a santista cresceu ouvindo do pai a importância do trabalho, da responsabilidade e da independência – e a lição de que nada chega pronto. Com essa base, construiu uma carreira sólida. Formou-se em Direito, foi a conselheira tutelar mais jovem e votada de sua região e ganhou visibilidade nas redes sociais ao compartilhar a maternidade real para uma audiência de 839 mil pessoas. Com o tempo, no entanto, a busca por autonomia e o desejo de construir a próprios caminhos, além de diversificar as fontes de renda, a levaram para outra direção. “Entendi que empreender era a forma mais natural de unir propósito, liberdade e impacto”, afirma.
Hoje, é CEO e cofundadora da Lynv, marca de água de coco integral avaliada em R$ 30 milhões. Fundada em 2023 com investimento inicial de R$ 2 milhões, surgiu com a proposta de operar com maior controle sobre a origem e a cadeia produtiva, em um mercado dominado por produtos reconstituídos. Presente em grandes redes, como Pão de Açúcar e Mambo, além de e-commerces e aplicativos de delivery, já consolidou a atuação no Ceará e em São Paulo.
A entrada no Rio de Janeiro começou em dezembro do ano passado e, agora, a meta é acelerar a expansão nacional, dar os primeiros passos na internacionalização – com foco nos Estados Unidos e na Europa – e lançar uma nova geração de itens funcionais, ampliando o portfólio no território de wellness e bebidas naturais. A perspectiva é faturar R$ 21 milhões em 2026.
Para sustentar o crescimento, foi aberta a primeira rodada de investimento com o apoio da consultoria Centria Capital Partners.
O movimento inicial para a criação da Lynv surgiu quando Bianca morava em Miami e teve contato com a proposta de desenvolver uma água de coco premium brasileira com potencial global. A ideia chamou atenção por dois motivos. O primeiro foi de mercado. Embora o Brasil esteja entre os maiores produtores de coco do mundo, a oferta em larga escala tende a dificultar a preservação de características como frescor, origem e rastreabilidade em todas as etapas. O segundo foi pessoal. A água de coco sempre fez parte do cotidiano da santista, associada à vida no litoral onde cresceu.
A partir disso, ela aprofundou a análise de mercado. “Nosso benchmarking não se baseou em preferência de sabor ou em um produto específico, mas na observação de estratégias e modelos de negócio que vinham ganhando força globalmente”, diz. O olhar se voltou, por exemplo, a marcas que conseguiram escalar alimentos simples a partir de um posicionamento bem definido, em sintonia com a demanda crescente por consumo mais natural.
Com a estratégia definida, a etapa seguinte envolveu a formação da equipe técnica e o planejamento do processo produtivo, estruturado no Ceará. O estado foi escolhido pela disponibilidade de cocos considerados de alta qualidade. Os frutos são cultivados em uma fazenda familiar, passam por seleção com base no índice BRIX e seguem para envase perto da plantação. A proximidade entre colheita e processamento reduz o tempo de transporte e ajuda a preservar os atributos nutricionais.
A trajetória não foi imune a desafios. A decisão de trabalhar exclusivamente com água de coco integral aumentou a complexidade logística e os custos da operação. Para viabilizar a distribuição sem o uso de conservantes, a empresa adotou uma embalagem cartonada de múltiplas camadas – papel, plástico e alumínio –, capaz de proteger o produto da luz, do oxigênio e da umidade, feita em parceria com a Tetra Pak, especializada em processamento e envase de alimentos e bebidas. No varejo, uma das principais dificuldades foi explicar as diferenças entre os métodos de produção adotados em relação aos itens mais comuns da categoria. Já na gestão, o ritmo de crescimento exigiu estruturar processos e equipes ao mesmo tempo em que a marca avançava para novos mercados.
Ao longo desse percurso, Bianca recorreu a mentorias, trocas com outros empreendedores e aprendizado prático. As experiências anteriores, incluindo a criação e monetização do blog Mãe Jovem, criado durante sua primeira gravidez, e de uma loja online de acessórios infantis, como gravatas e suspensórios, também foram fundamentais para a construção de visão de negócio e branding, entendimento do público e capacidade de estruturar a Lynv, desde o início, com foco em posicionamento, produto e escala.
O avanço da empresa, segundo Bianca, está ligado a alguns fatores centrais: gestão e controle da cadeia produtiva; plano de negócios seguido com disciplina; propósito claro; e rede de apoio. Além disso, destaca que resiliência, execução e capacidade de construir parcerias foram determinantes para sustentar o crescimento.
Mãe de uma menina e de um menino, reforça que empreender sempre envolve riscos, mas, no caso das mulheres, o caminho vem acompanhado de um medo adicional, que é a sobrecarga. “Não é apenas o receio do novo ou da exposição, mas a dúvida se será possível dar conta de tudo – trabalho, maternidade, responsabilidades emocionais e expectativas externas. Eu vivi esse medo de forma intensa. Ele aparece nas escolhas do dia a dia e, muitas vezes, paralisa”, afirma.
Para ela, o ponto de virada está em entender que não existe momento ideal para começar. O avanço acontece quando preparo, constância e clareza de propósito caminham juntos. “Comece com consistência, estude o mercado, entenda o produto e aceite que aprender faz parte do percurso. Não é sobre não sentir medo, mas sobre não deixar que ele te impeça de avançar.”