Minério verde: investimento amplia produção e fortalece estratégia de descarbonização da Cedro (CEDRO/Divulgação)
Exame Brand Solutions
Publicado em 3 de agosto de 2026 às 17h23.
Última atualização em 3 de agosto de 2026 às 17h23.
A Cedro Mineração vai investir R$ 3,5 bilhões na expansão de sua operação em Mariana (MG) para ampliar a produção de minério de ferro de alta qualidade e atender à crescente demanda global por matérias-primas voltadas à descarbonização da siderurgia.
O projeto prevê ampliar a capacidade produtiva da unidade, fortalecer a infraestrutura logística e acelerar a transição para a produção de pellet feed — um minério fino com elevado teor de ferro e baixos níveis de impurezas, utilizado na fabricação de pelotas para siderúrgicas de menor emissão de carbono.
Hoje, a unidade produz cerca de 3 milhões de toneladas de minério de ferro por ano. Com a expansão, a expectativa é alcançar 11 milhões de toneladas anuais nos próximos três anos e superar a marca de 20 milhões de toneladas em até cinco anos.
“O Brasil se encontra em uma posição estratégica de destaque na produção de minério de alta pureza, o que pode compensar desafios logísticos em relação a mercados asiáticos, como a China. A qualidade do produto brasileiro é um diferencial frente a concorrentes internacionais”, disse o vice-presidente Comercial, de Estratégia e Projetos da empresa, Fabiano Carvalho.
A estratégia acompanha uma transformação em curso na indústria global do aço. Pressionadas por metas cada vez mais rígidas de redução de emissões, siderúrgicas da Europa, da Ásia e do Oriente Médio buscam fornecedores capazes de entregar matérias-primas adequadas a rotas produtivas de menor carbono.
Nesse cenário, o Brasil reúne vantagens competitivas importantes. Além de contar com grandes reservas de minério de ferro de alta qualidade, o país possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a América Latina concentra cerca de um quinto das reservas mundiais de minério de ferro, incluindo jazidas adequadas às novas rotas de produção de aço de menor emissão. O Brasil responde por 90% do comércio regional do produto.
É justamente nesse contexto que a Cedro busca ampliar sua presença no mercado internacional. A companhia pretende migrar gradualmente da produção de sinter feed — minério utilizado nos altos-fornos convencionais — para pellet feed. Até o fim da década, a meta é concentrar toda a operação em pellet feed para redução direta, matéria-prima destinada a processos siderúrgicos menos intensivos em carbono.
Conhecido no setor como “minério verde”, o pellet feed de alta qualidade vem ganhando espaço à medida que fabricantes de aço buscam reduzir emissões e aumentar a eficiência produtiva. Segundo a Cedro, seu uso pode contribuir para reduções de até 50% nas emissões em determinadas rotas siderúrgicas de menor carbono. A maior concentração de ferro e a menor presença de impurezas também ajudam a reduzir o consumo de energia e a geração de resíduos durante a produção do aço.
A estratégia da companhia vai além do aumento da produção. Parte relevante dos investimentos será destinada à infraestrutura logística, considerada fundamental para reduzir custos operacionais, aumentar a eficiência do escoamento e diminuir as emissões associadas ao transporte do minério.
O projeto inclui a implantação de um Transportador de Correia de Longa Distância (TCLD) e a construção de um terminal próprio no Porto de Itaguaí (RJ), criando uma estrutura integrada entre mina, ferrovia e porto.
Com aproximadamente 20 quilômetros de extensão, o transportador substituirá carretas no deslocamento do minério entre a mina e a conexão ferroviária. A estrutura terá capacidade para movimentar entre 1.800 e 2.000 toneladas por hora e poderá operar de forma contínua.
A Cedro estima que a retirada dos caminhões das estradas evitará a emissão de aproximadamente 54 mil toneladas de dióxido de carbono. O sistema será abastecido pela rede elétrica de Minas Gerais e contará com motores regenerativos, capazes de produzir energia nos trechos de descida.
Além de reduzir o consumo de diesel, a iniciativa deve diminuir o tráfego de veículos pesados, a emissão de poeira e o ruído nas comunidades localizadas ao longo do trajeto.
“O modelo curvo elimina a necessidade de construir prédios estruturais a cada mudança de direção, o que gera economia de capital, reduz as intervenções civis no terreno e diminui a geração de poeira durante o transporte do minério”, afirma Ricardo Jeunon, diretor de Engenharia e Implantação de Projetos da Cedro Mineração.
Conhecido como overland curvo, o sistema permite que a correia faça desvios horizontais para contornar montanhas e vales. A inspeção será realizada por um robô equipado com inteligência artificial e sensores de vibração, temperatura e velocidade. Toda a operação também será monitorada remotamente por uma sala de controle.
O terminal próprio no Porto de Itaguaí deve ampliar o controle da companhia sobre o escoamento da produção e facilitar o atendimento aos compradores internacionais. Ao integrar mina, correia transportadora, ferrovia e porto, a empresa busca reduzir custos logísticos e a pegada de carbono associada ao transporte do minério até o embarque.
A competitividade no mercado de minério de ferro para descarbonização não depende apenas da qualidade do produto. Cada vez mais, compradores internacionais avaliam também a forma como o minério é extraído, beneficiado e transportado.
A cobrança acompanha o tamanho do desafio enfrentado pela siderurgia, responsável por cerca de 7% a 8% das emissões globais de gases de efeito estufa. Em 2024, cada tonelada de aço produzida gerou, em média, 2,18 toneladas de CO₂ equivalente, considerando as emissões diretas e indiretas dos escopos 1, 2 e 3.
Na prática, isso significa que as metas de descarbonização das siderúrgicas não se limitam às usinas. Elas se estendem a toda a cadeia de fornecimento, aumentando a procura por empresas capazes de reduzir e monitorar impactos ambientais desde a mineração até a entrega da matéria-prima.
Na operação de Mariana, a Cedro utiliza filtragem e empilhamento a seco. O processo retira parte da água presente nos rejeitos e permite seu armazenamento sem a necessidade de barragens. Segundo a companhia, a tecnologia possibilita reaproveitar cerca de 85% da água utilizada no beneficiamento.
A expansão prevê que toda a produção adicional da unidade seja destinada ao pellet feed de alta qualidade. Mais do que elevar a capacidade produtiva, o projeto busca preparar a operação para atender siderúrgicas de mercados com exigências ambientais cada vez mais rigorosas e fortalecer a posição da Cedro entre potenciais parceiros internacionais.
Para o Brasil, o avanço desse mercado representa a oportunidade de transformar uma vantagem geológica em uma vantagem comercial.