Amil: o que a venda representa para clientes e o setor de saúde?

Mudanças no controle da Amil podem impactar o segmento de planos individuais e gerar maior concentração de mercado; clientes transferidos reclamam de rede credenciada
 (Erdikocak/Getty Images)
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Mariana Desidério

Publicado em 03/02/2022 às 08:00.

Última atualização em 03/02/2022 às 10:25.

A operadora de planos de saúde Amil deve mudar de mãos. Controlada pela americana UnitedHealth, a Amil é uma das maiores operadoras do país, com cerca de 3 milhões de beneficiários. Nas últimas semanas, ganharam força as notícias de que a companhia norte-americana pretende vender sua operação no Brasil, dez anos depois de ter comprado a empresa.

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A venda deve impactar os milhões de beneficiários da Amil, e também mudar a configuração do setor de saúde no país. EXAME ouviu especialistas para entender o que essa venda representa para o consumidor e para o ambiente de negócios do setor.

Planos individuais

O primeiro ponto de atenção sobre a venda da Amil e sua consequência para o mercado está no segmento de planos com contratos individuais. Esses contratos têm seus reajustes definidos pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e por isso têm sido deixados de lado pelas grandes operadoras.

As movimentações sobre a venda da Amil ganharam força depois que ela se desfez de seus clientes com contratos individuais. Com mais de 300 mil pessoas, em grande parte idosos, a carteira era considerada um problema para a rentabilidade da companhia.  Em dezembro, a Amil transferiu esses clientes para a empresa APS (Assistência Personalizada à Saúde), também controlada pela UnitedHealth, em uma movimentação que envolveu um acordo com a gestora de investimentos Fiord Capital.

Mas a transferência da carteira tem sido alvo de reclamações dos beneficiários. A advogada Estela Tolezani, especializada em saúde, conta que tem recebido queixas de clientes da Amil, agora transferidos, a respeito do descredenciamento de laboratórios de diagnóstico.

“No segundo semestre de 2021, pouco antes da transferência da carteira, recebemos queixas de descredenciamento de laboratórios importantes. Eles estão precisando se deslocar mais para conseguir atendimento e tem cliente com prontuário inteiro em um laboratório que agora não atende mais essa carteira”, afirma.

A mudança na rede credenciada pouco antes da transferência da carteira também foi identificada pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor). “Nossa preocupação é que esse movimento tenha tido como objetivo tornar a rede mais precária já pensando na transferência da carteira”, diz Ana Carolina Navarrete, coordenadora do programa de saúde do Idec.

Outra preocupação recorrente dos clientes, segundo Navarrete, é a capacidade de gestão da APS, que antes de receber a carteira da Amil tinha apenas 11 mil beneficiários.

A redução da rede credenciada e problemas com a gestão podem ter um efeito nocivo para o setor, avalia Navarrete. “O risco é essas pessoas ficarem descontentes com a nova gestão e abandonarem o plano buscando alternativas”, diz. No entanto, como a maior parte das grandes operadoras não oferece contratos individuais, esses beneficiários podem ter dificuldade em encontrar outro plano com as mesmas condições do atual.

“Se esses beneficiários forem para um plano coletivo, teremos um encolhimento dos planos individuais, uma modalidade que é importante no acolhimento de idosos e que oferece proteção ao consumidor contra aumentos elevados e cancelamentos. É preciso considerar o impacto da transferência dessa carteira para esse segmento do mercado”, afirma.

Concentração de mercado

Além das questões envolvendo a venda dos planos individuais, a venda da própria Amil também pode mexer com o setor. A principal preocupação é se ela vai levar a uma maior concentração de mercado. “A Amil tem um grande número de beneficiários, então o Cade deve ficar atento, pois é possível que haja uma concentração grande no mercado”, afirma Alessandro Acayaba de Toledo, presidente da Anab (Associação Nacional das Administradoras de Benefícios).

Segundo Toledo, o número de operadoras de saúde tem se reduzido nos últimos anos. Por um lado, isso pode aumentar a qualidade das operadoras menores, que passam a ter acesso a investimento financeiro e maior qualificação. Por outro, se o movimento for exagerado, pode estrangular o consumidor. “Quanto menos competidores, mais caro fica o produto”, diz.

O setor de saúde vem passando por um processo de consolidação há anos. A estimativa é que as fusões e aquisições do setor movimentaram 15 bilhões de reais só em 2021. O maior movimento envolveu duas gigantes do setor, Hapvida e Notredame Intermédica, que anunciaram fusão no ano passado. Outras grandes companhias, como Dasa e Rede D’Or, também fizeram aquisições importantes nos últimos anos.

Mesmo com a possível venda da Amil, a tendência de consolidação está longe de terminar, na visão de Marcelo Carnielo, diretor da consultoria de gestão de saúde Planisa. “Vejo novas aquisições quase semanalmente e enxergo que isso ainda deve durar alguns anos. O mercado ainda não esgotou todas as possibilidades”.

As empresas mais cotadas para levar a operação da Amil são Dasa e Rede D’Or. No entanto, por ser uma operação enorme, a Amil pode acabar sendo fatiada. Uma possibilidade é que a carteira de beneficiários sejam vendidos para uma empresa e os hospitais para outra. De acordo com análise do Bank of America, a Amil deve valer entre 15 e 20 bilhões de reais, considerando 2.500 leitos hospitalares e 3 milhões de beneficiários.

Histórico e margem

Fundada pelo empresário Edson Bueno no final dos anos 1970, a Amil foi comprada em 2012 pela UnitedHealth por 10 bilhões de reais. A distância entre a matriz da companhia e o mercado brasileiro é apontada como uma dificuldade na gestão da operadora, assim como uma governança interna complexa, que dificulta a tomada de decisões.

Com uma estrutura mais lenta, a companhia teve dificuldade para acompanhar as mudanças do setor. Desde que a Amil foi comprada pela UnitedHealth, concorrentes como Hapvida e Notredame Intermédica ganharam força no mercado. Em comum elas têm a oferta de planos a preços acessíveis e um modelo de negócios verticalizado, ou seja, a operadora é ao mesmo tempo dona da carteira e de boa parte da rede de atendimento.

Na Amil, o modelo principal é baseado na rede credenciada. Porém, a operadora também é dona de uma rede grande de hospitais. A opção por essa forma híbrida de atuação aumenta a complexidade da companhia, que tem tido dificuldades em aproveitar o melhor de cada modelo.

Em 2020, a receita da Amil foi de 20,4 bilhões de reais, uma redução de 8% em relação a 2019, quando a receita foi de 22,2 bilhões de reais. Já o lucro líquido de 2020 foi de 517 milhões, o que significa margem de lucro de 2,5%. Em 2019, o lucro foi de 133 milhões, margem de 0,6%. Em 2018, com receita de 21,2 bilhões de reais, o lucro foi de 7,8 milhões de reais, o que representa margem de 0,03%.

O que diz a UnitedHealth

Contatada, a UnitedHealth afirmou, a respeito da transferência da carteira de planos individuais, que "a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) dispõe de um processo criterioso para aprovação dos atos de transferência de carteira e para a posterior comunicação aos beneficiários, e esses passos foram seguidos estritamente pela Amil".

"De acordo com as análises feitas pelos técnicos da ANS, a operadora Assistência Personalizada à Saúde (APS) encontra-se apta tanto do ponto de vista econômico-financeiro quanto em sua capacidade de prestar a assistência adequada aos seus novos beneficiários", continua, em nota.

A empresa diz ainda que "não houve nenhuma modificação de rede credenciada e de contrato vigente com os beneficiários em função da transferência de carteira ocorrida no dia 1 de janeiro de 2022".

A companhia não comentou sobre a possível venda da Amil.