Nicolás Maduro foi capturado na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, durante uma operação de forças de elite do exército dos Estados Unidos em Caracas, na Venezuela. (XNY/Star Max/GC Images/Getty Images)
Repórter
Publicado em 3 de julho de 2026 às 16h03.
Última atualização em 3 de julho de 2026 às 16h16.
Seis meses após a captura de Nicolás Maduro, a Venezuela lida com as consequências dos terremotos que deixaram pelo menos 2.595 mortos e colocaram em suspenso reformas institucionais e o caminho para eventuais eleições.
A detenção do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, ocorreu durante uma operação militar dos Estados Unidos em Caracas e em três regiões vizinhas, no dia 3 de janeiro. O episódio abriu um novo cenário político em um país marcado por uma crise prolongada, com impactos simultâneos nas esferas política, econômica e social.
Em meio a esse contexto, a situação evoluiu para uma emergência nacional, com milhares de famílias em luto e mais de 12.000 feridos em processo de recuperação.
Os impactos dos tremores atingem também a infraestrutura do país, já fragilizada por anos de corrupção, baixa manutenção e gestão contestada. As perdas materiais são estimadas em US$ 6,7 bilhões, cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo projeções iniciais do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
O governo venezuelano calcula mais de 12.800 pessoas sem moradia devido a danos estruturais e ao colapso de edifícios, com concentração dos casos no estado de La Guaira, no norte do país e próximo a Caracas, região mais afetada pelos terremotos.Delcy Rodriguez, presidente interina da Venezuela desde a prisão de Nicolás Maduro. (Federico PARRA / AFP) (Federico Parra/AFP)
A tragédia pressiona tanto o governo interino de Delcy Rodríguez, que assumiu após a captura de Maduro, quanto a relação com os Estados Unidos, que mantêm o plano de transição para a Venezuela estruturado em fases, com foco na recuperação.
Segundo Washington, o programa “permanece intacto”.
Nos seis meses anteriores ao evento sísmico, sob monitoramento da Casa Branca, Delcy Rodríguez avançou em medidas como a abertura de setores estratégicos, entre eles petróleo, mineração e energia elétrica, para investimentos privados e estrangeiros. Também houve desmonte gradual da estrutura governamental ligada a Maduro e mudanças no alto comando militar.
A presidente interina adotou anistias e promoveu a libertação de presos políticos, além de anunciar reformas no sistema de justiça criminal e na estrutura administrativa do governo.
Na semana anterior aos terremotos, os Estados Unidos avançaram para a terceira etapa do plano político, com o envio da opositora Dinorah Figuera a Caracas para diálogo com o chavismo, excluindo a vencedora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, que afirma ter “a responsabilidade de dirigir” as negociações com o governo de Delcy Rodríguez.As negociações entre o presidente do Parlamento, Jorge Rodríguez, irmão da chefe de Estado, e Figuera se integravam ao processo de reorganização institucional. Entre os pontos discutidos estava a formação de um Conselho Nacional Eleitoral (CNE) descrito pela oposição como “vigoroso, crível e transparente”, atualmente sob controle do chavismo.
Figuera havia informado a necessidade de “entregar em dezembro de 2026 o produto de um trabalho”, cenário que passou a ser incerto após a tragédia e o fim do prazo do interinato.
Pela Constituição, a ausência temporária do presidente é assumida pelo vice-presidente executivo por 90 dias, prorrogáveis por mais 90, totalizando 180 dias mediante decisão parlamentar, o que não ocorreu em plenário.
Em 4 de julho, o período de 180 dias se encerra, o que obriga o Parlamento a deliberar sobre a existência ou não de ausência absoluta.
Caso a ausência seja declarada, deve ocorrer uma “eleição universal, direta e secreta dentro dos 30 dias consecutivos seguintes”, mantendo Delcy Rodríguez no comando do Executivo de forma interina até o pleito.
No dia da captura de Maduro, o Supremo Tribunal classificou o episódio como uma “situação excepcional, atípica e de força maior não prevista literalmente na Constituição”.
O órgão determinou que Delcy Rodríguez assumisse a presidência interina sem definição jurídica definitiva sobre a natureza da ausência presidencial, temporária ou absoluta, nem substituição das competências de outros poderes.
Vsta aérea mostra edifícios destruídos em Caraballeda, no estado de La Guaira, Venezuela, em 28 de junho de 2026, após terremotos. (Miguel MEDINA / POOL / AFP)
A crise também acelerou a reaproximação da Venezuela com outros países e ampliou medidas de abertura econômica iniciadas anteriormente.
Caracas intensificou relações com governos como El Salvador, Equador, Chile, Panamá, Argentina, Guiana e Israel, que enviaram apoio após a tragédia.
A mobilização internacional envolveu envio de ajuda humanitária, equipes de resgate e profissionais de saúde.
O governo dos Estados Unidos afirmou que “mantém seu compromisso de apoiar os afetados e trabalhar junto a parceiros para ajudar as famílias a se reencontrarem, prestar assistência e levar esperança onde é mais necessário”.
Washington também declarou que sua resposta “continua crescendo, com centenas de pessoas, assistência humanitária e capacidades especializadas que estão apoiando os esforços de resgate e ajuda”.
A presença de veículos de imprensa estrangeiros no país aumentou após o desastre, em contraste com restrições anteriores de entrada e visto.
O cenário político permanece indefinido, com foco voltado para a assistência às vítimas e para a reconstrução das áreas afetadas pelos terremotos.