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Trump quer voltar a negociar com Kim Jong-un — mas o jogo agora é outro

Análise de Victor Cha, especialista do think tank Center for Strategic and International Studies, revela novo estágio nas negociações com a autárquica Pyongyang

Donald Trump e Kim Jong Un:  (BRENDAN SMIALOWSKI/AFP/Getty Images)

Donald Trump e Kim Jong Un: (BRENDAN SMIALOWSKI/AFP/Getty Images)

Publicado em 19 de agosto de 2026 às 06h00.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria sinalizado ao presidente sul-coreano Lee Jae Myung, durante a cúpula do G7 em junho, na França, que pretende retomar a diplomacia com a Coreia do Norte, reacendendo a possibilidade de uma nova rodada de negociações com Kim Jong-un, segundo um artigo do think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS).

Em uma sessão de perguntas e respostas, o presidente do departamento de geopolítica e política externa da entidade, Victor Cha, explora a aproximação do republicano ao líder supremo de Pyongyang.

Trump já se reuniu três vezes com o líder norte-coreano durante seu primeiro mandato, em 2018 e 2019, em Singapura, em Hanói, no Vietnã, e em Panmunjom, na zona desmilitarizada entre as duas Coreias, mas o processo terminou sem um acordo sobre a desnuclearização da península.

A disposição de Trump para um novo encontro não parece ser acompanhada pelo mesmo entusiasmo em Pyongyang, segundo a análise. Isso se deve principalmente ao fracasso da cúpula de Hanói, quando o presidente americano abandonou as negociações, o que teria deixado Kim constrangido e mais cauteloso diante da imprevisibilidade de Trump.

O cenário, porém, mudou desde as primeiras negociações, já que a Coreia do Norte hoje mantém relações mais estreitas com a Rússia e a China e depende menos da perspectiva de obter alívio das sanções internacionais como incentivo para negociar com Washington, pode agir de maneira mais incisiva.

A aproximação com Moscou ganhou força após a guerra na Ucrânia, com Pyongyang fornecendo munições, tropas, mísseis e trabalhadores em troca de recursos e apoio político, e os dois países também estabelecendo um tratado de defesa mútua, ampliando a margem de manobra de Kim no cenário internacional.

Ao mesmo tempo, Pequim retomou relações de alto nível com Pyongyang e se comprometeu a ampliar a cooperação em áreas como infraestrutura, turismo, agricultura e saúde, enquanto o comércio entre os dois países voltou a níveis próximos aos registrados antes da pandemia.

Um líder revisionista?

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, em sua 2ª cúpula no Vietnã. O encontro ficou famoso após Trump sair da reunião no meio das negociações (Shealah Craighead / Official White House Photo / Handout/Anadolu Agency) (Shealah Craighead / Official White House Photo / Handout/Anadolu Agency/Getty Images)

A análise de Cha considera, no entanto, que essa maior integração com a Rússia e a China não implica, necessariamente, que Kim esteja satisfeito com o status quo, já que o líder norte-coreano demonstrou disposição para promover mudanças no cenário internacional, ao mesmo tempo em que identifica novas oportunidades para fortalecer seu país.

Um exemplo foi justamente a aproximação com Vladimir Putin após a pandemia de Covid-19, quando Pyongyang poderia ter priorizado a reconstrução das relações comerciais com a China — como eram as expectativas de muitos analistas e observadores — mas optou por aproveitar a necessidade russa de munições e tropas para ampliar sua influência e obter recursos de Moscou.

Nesse contexto, um novo contato com Trump também poderia oferecer vantagens a Kim, diz o especialista, sobretudo porque o presidente americano tem alternado entre defender a desnuclearização da Coreia do Norte e reconhecer o país como potência nuclear, o que alimenta dúvidas sobre o real alcance das exigências de Washington.

Para Pyongyang, manter um canal direto com Trump também poderia servir como mecanismo para lidar com a imprevisibilidade do presidente americano e reduzir os riscos de uma eventual escalada militar, enquanto uma nova cúpula poderia ser usada para buscar compromissos políticos sem necessariamente avançar imediatamente em negociações detalhadas sobre armas nucleares.

Entre os possíveis objetivos de Kim avaliados por Cha estariam a reafirmação dos princípios estabelecidos na Declaração de Singapura de 2018 — um acordo entre Pyongyang e Washington que visava aprofundar a colaboração entre os países —, além de discussões sobre um tratado de paz, a suspensão dos exercícios militares americanos na península e a redução do estado de hostilidade entre Washington e Pyongyang.

Notavelmente, Cha estima que o assunto nuclear provavelmente não entrará nas negociações.

Um novo equilíbrio na Ásia

Com uma nova abordagem em sua política externa, o líder supremo norte-coreano Kim Jong Un redesenha o equilíbrio de poder na Ásia (Brendan Smialowski) (Brendan Smialowski/Getty Images)

A estratégia também poderia incluir uma aproximação ao Japão, especialmente se o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi decidir abandonar parte das condições tradicionalmente impostas para o início das negociações com Pyongyang, o que criaria espaço para uma eventual cúpula entre os dois países.

Segundo a análise, Kim poderia tentar recuperar os princípios da Declaração de Pyongyang de 2002, que abriu caminho para a normalização das relações e poderia resultar em bilhões de dólares em recursos para a Coreia do Norte, ao mesmo tempo em que uma aproximação com Tóquio teria potencial para enfraquecer a coordenação entre os Estados Unidos, o Japão e a Coreia do Sul.

A Coreia do Sul ficaria particularmente vulnerável nesse cenário, já que Pyongyang não demonstra interesse em retomar o diálogo intercoreano e, desde 2024, abandonou oficialmente sua antiga política de buscar a reunificação, podendo preferir negociar diretamente com Washington e Tóquio para isolar Seul diplomática e economicamente.

A China, por sua vez, poderia acabar apoiando uma nova aproximação entre Trump e Kim, apesar de suas tradicionais preocupações com a influência americana na península, em parte porque Pequim também busca conter a crescente aproximação entre a Rússia e a Coreia do Norte e preservar sua própria influência sobre Pyongyang.

Uma nova rodada de diplomacia, portanto, poderia produzir encontros de alto impacto e uma redução superficial das tensões, mas sem necessariamente resolver as questões centrais de desnuclearização e paz na península, segundo a análise, em um cenário no qual grandes declarações e negociações preliminares podem acabar substituindo acordos concretos.

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