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'Semear nuvens': China avança em técnicas para gerar chuvas

Formas artificiais de controlar as chuvas são pauta importante para a China há mais de 60 anos – hoje o país conduz as maiores operações de semeadura de nuvens do mundo, mas gera controvérsias

Publicado em 13 de fevereiro de 2026 às 06h01.

Secas na região norte da China são especialmente impactantes. Conhecido como o “cinturão de grãos” do país, a região é fundamental na produção de alimentos, mas enfrenta desafios oriundos da mudança climática. O aquecimento global causa secas cada vez mais intensas e imprevisíveis, mesmo em temporadas férteis. Com isso, iniciativas de semeadura de nuvens, uma técnica para promover chuvas artificialmente, se tornam importantes.

A premissa é simples: aviões, drones e foguetes “semeiam” nuvens com catalisadores que alteram a estrutura física e o processo de formação e desenvolvimento de nuvens, essencialmente guiando-as para evoluir ao tipo de nuvem de precipitação desejada.

Esses catalisadores, cujo mais amplamente utilizado é o iodeto de prata, emulam, em tamanho e peso, cristais de gelo microscópicos que naturalmente ocorrem em nuvens, estimulando a condensação e a aglomeração de gotículas de água.

Todavia, a semeadura de nuvens é apenas uma faceta das amplas operações de controle climático da China. A plataforma oficial da Administração Meteorológica Chinesa explica: “As operações de modificação climática do país concentram-se principalmente no aumento da chuva artificial e na supressão de granizo, mas também incluem a dispersão artificial de nuvens e a redução da chuva, a dispersão artificial de nevoeiro e a prevenção artificial de geadas.”

Ao longo da última década, a China ampliou significativamente suas operações de controle climático e, atualmente, conduz essas operações em mais de 50% de seu território, tanto para estimular a precipitação quanto para preveni-la em certas ocasiões. Por exemplo, o país chegou a usar as técnicas para controlar o clima em dias específicos, como durante as Olimpíadas de Pequim em 2008 e o centenário do Partido Comunista Chinês em 2021.

Controle climático – o que dizem os cientistas?

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Nosso entendimento sobre controle climático continua evoluindo ao observar resultados das operações na China (Reprodução) (Reprodução)

Todavia, métodos de controle climático há anos vêm levantando preocupações, abrangendo desde os possíveis riscos ambientais e questões legais até os impactos dos elementos químicos utilizados nos processos e o prejuízo que padrões de chuva diferentes podem causar para pessoas em áreas próximas das operações. Conforme o país mais populoso do mundo intensifica sua manipulação climática, cientistas analisam o valor e os riscos do controle climático.

Por um lado, o controle climático faz parte do cerne dos interesses de segurança nacional e de desenvolvimento da China. Desde 1950, o país vem promovendo o desenvolvimento dessas técnicas, especialmente a semeadura de nuvens, para lidar com secas intensas.

Por mais que a literatura científica não identifique tendências consistentes ao longo prazo no aumento ou na redução da precipitação no país, ainda assim “observa-se um aumento significativo das áreas afetadas pela seca no norte da China”, diz um estudo publicado no jornal acadêmico AGU.

“A maior parte do norte da China (com exceção do noroeste) tem sofrido períodos de seca severos e prolongados desde o final da década de 1990, quando, em algumas áreas, as situações de seca extrema foram sem precedentes durante o período do estudo. Como essas regiões são relativamente secas, o estresse hídrico frequente nas últimas décadas tornou-se mais grave”, conclui a pesquisa.

Em entrevista para a BBC, Li Jiming, diretor do Centro de Modificação Climática da China, diz que a modificação climática se tornou “um projeto vital para o desenvolvimento científico dos recursos hídricos e das nuvens atmosféricas, que serve o país e beneficia a população.”

"É um componente crucial para a construção de uma nação meteorológica forte", acrescentou, destacando a necessidade de impulsionar a China "de um ator importante na modificação artificial do clima para um líder global".

Atualmente, o país conta com diversas bases de controle climático e seu programa na área é de longe o maior do mundo – e suas ambições crescem de acordo. A iniciativa Tianhe, ou rio no céu, visa criar um canal de vapor d’água do platô tibetano até o norte da China, utilizando milhares de bases no solo. Suportando os interesses da China, um estudo pela Universidade de Stanford diz em sua introdução que a pesquisa revelou três importantes resultados:

“Primeiramente, nossos resultados indicam que a semeadura de nuvens altera efetivamente a precipitação entre regiões com condições meteorológicas idênticas.”

“Em segundo lugar, constatamos que o efeito indireto de uma operação de semeadura de nuvens sobre a precipitação em localidades adjacentes é inicialmente positivo durante a operação, posteriormente torna-se negativo e, por fim, converge para zero em uma semana.”

“Em terceiro lugar, nossas descobertas fornecem evidências para diversas aplicações práticas da semeadura de nuvens na China, incluindo a prevenção de condições climáticas indesejáveis ​​em grandes eventos, o aumento da umidade do solo e a mitigação da poluição atmosférica”, alega o estudo.

Pelo outro lado, cientistas continuam analisando os impactos e debatendo se o controle climático realmente vale a pena, de várias perspectivas. Entre as principais preocupações estão problemas legais, como os que surgem dos possíveis impactos ao nível macro em regiões adjacentes. Um estudo de Cambridge, focado especificamente nas preocupações legais que permeiam o controle climático, apresenta a seguinte conclusão sobre a implementação desses controles climáticos:

“Constatamos que os mecanismos existentes não satisfazem as obrigações processuais previstas no direito internacional, nem abordam adequadamente os riscos ambientais associados ao aumento do uso da modificação climática. São necessários procedimentos para a avaliação de impacto ambiental (AIA) transfronteiriça e o diálogo com os países vizinhos da região para que a China cumpra o direito internacional e promova a estabilidade na região.”

Além disso, outro ponto de crítica é que os dados fornecidos pela China sobre a efetividade das suas operações climáticas não sejam totalmente precisos, o que dificulta o estudo da área. Ao longo da última década, o governo chinês fez diversas alegações positivas sobre a efetividade de seus programas de semeadura de nuvens.

Dados em dúvida

Um editorial do veículo de notícias chinês estatal Xinhua de 2025 alegou que iniciativas de semeadura aumentaram níveis de precipitação na área-alvo em 20% comparados aos mesmos níveis do ano anterior e, em dezembro de 2025, a Administração Meteorológica Chinesa disse que, no geral, suas operações de produção artificial de chuva e neve resultaram em 168 bilhões de toneladas adicionais de precipitação desde 2021.

"Há muitas alegações [globalmente], sejam de agências governamentais ou empresas que têm a oportunidade de lucrar com operações de semeadura de nuvens", diz à BBC Jeffrey French, cientista atmosférico da Universidade de Wyoming. "Acredito que muitas dessas alegações [vindas da China] não podem ser validadas ou comprovadas cientificamente."

French foi um dos principais pesquisadores do projeto Snowie, de 2017, uma iniciativa de semeadura no estado de Idaho, nos EUA, que coletou dados provando que esforços de semeadura são capazes de produzir precipitação. Devido à precisão do estudo, os resultados se tornaram um padrão para estudos de controle climático, citados inclusive em estudos chineses.

Todavia, os resultados revelam mudanças nos níveis de precipitação consideravelmente mais baixos do que os alegados pela China – os números são tão decepcionantes que cientistas fora da China debatem se os resultados vingam os investimentos.

"O problema com esses programas de semeadura de nuvens é que a maioria deles é feita pelo governo, como na China, como nos Emirados Árabes Unidos", diz Friedrich. "Mas na verdade há muito pouca análise independente." Os estudos independentes trazem à tona outras fraquezas desses projetos, como a dificuldade em medir exatamente o quanto da precipitação adicional realmente foi causada artificialmente, e as limitações em fazer os projetos funcionarem de maneira consistente e previsível. Por exemplo, a semeadura de nuvens é notavelmente menos eficaz em meses quentes, quando nuvens carregadas de líquido são mais raras".

O consenso acadêmico entre especialistas parece claro: mais estudos independentes são necessários para julgar quando a semeadura de nuvens pode funcionar e quando é provável que não funcione. Dados de estudos assim poderiam até ajudar na criação de mecanismos legais para regular operações de controle climático, protegendo nações adjacentes de possíveis consequências adversas.

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